O desafio a ser cristãos

A novidade trazida pela mensagem de Jesus de Nazaré, de quem se comemora o nascimento no dia 25 de dezembro – o Natal – consiste em revelar Deus não para além da realidade do mundo, mas “na” e “com” a existência humana. O deus cristão é um deus conosco, um deus em nós e entre nós, um Emanuel.

Para a doutrina cristã, Deus está presente de tal maneira no mistério humano que amar o próximo – centralidade da práxis cristã – já inclui intrínseca e automaticamente amar a Deus. Desde que ele mesmo se fez um próximo em Jesus de Nazaré, o amor ao próximo é também amor a Deus. Portanto, amar o próximo não é um humanismo secular, como poderia parecer à primeira vista. É o humanismo pleno, uma vez que Deus mesmo se identificou com os humanos a partir dos mais espoliados, mais explorados, mais marginalizados, a partir dos últimos de toda e qualquer coletividade humana. A mensagem central cristã é esta: Deus é amor, quem ama a todos os humanos está em Deus.

Portanto, a mística cristã (mística vem de mistério) consiste na transfiguração do ordinário, dos acontecimentos banais do dia a dia. O místico cristão é aquele que se faz sensível ao outro ao captar o mistério que se revela em cada pessoa e em cada evento da história humana, pessoal e coletiva. E o capta porque aprendeu a ser sensível ao invisível aos olhos, mas revelado ao coração atento. O místico é alguém que age, não fica indiferente nem alheio ao sofrimento humano.

Na quarta-feira, 22, o presidente Lula participou mais uma vez do “Natal com as e os catadores de material reciclável”, na quadra do Sindicato dos Bancários de São Paulo e Osasco, no centro da capital paulista, mantendo uma tradição que já dura 18 anos. No Natal de 2018, quando esteve no cárcere político devido à ação criminosa do ex-juiz Sérgio Moro, e de seus comparsas, posteriormente declarado juiz corrupto pelo Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente Lula enviou uma carta na qual se destaca o trecho: “Eu nunca vou esquecer o depoimento de uma companheira catadora, no último ano do meu segundo mandato presidencial, que disse que o mais importante que eu fiz para ela foi fazê-la adquirir orgulho de sua profissão, de andar de cabeça erguida, de ter dignidade”.

Neste ano, o presidente Lula mais uma vez enfatizou em seu discurso a obrigação que um governo eleito tem de cuidar do povo, garantindo-lhe os direitos previstos na Constituição Federal, como também na Declaração Universal dos Direitos Humanos ou mesmo em livros sagrados como a Bíblia. As leis que foram promulgadas nos governos do PT objetivaram a ampliação e a humanização da democracia brasileira. Mas o que está acontecendo, indagou Lula: “O que acontece é que você não vê um pelotão de choque invadir uma prefeitura para obrigar o Prefeito a cumprir o que está previsto na Lei. A polícia só aparece para bater no povo, que apenas está reivindicando seus direitos conquistados a duras penas”. E complementou: “Para o Brasil mudar, ninguém precisa ser revolucionário. Nós temos que ser cristãos, nós temos que ser democratas, nós temos que ser humanistas, nós temos que ser seres humanos”.

Lula concluiu seu discurso com indagações sérias sobre a forma como o sistema econômico mundial, fundamentado no neoliberalismo, se organiza marginalizando e excluindo populações inteiras: “Que diabo de mundo é esse que produz alimentos suficientes e tem 800 milhões pessoas passando fome no planeta? Que desgraça de mundo é esse, onde você tem um país como o Brasil com 230 milhões de cabeças de gado bovino, e a maioria do povo não consegue comer um pedaço de carne e ainda tem gente indo à fila do açougue pra pegar osso ou esperando o caminhão capotar para pegar carcaça de frango? Onde está a lógica desse mundo desumano? Pra que a gente elege um governo?”.

A crise que estamos vivendo é uma crise da falta de respeito, da falta de solidariedade, da falta de seriedade, da falta de humanismo. É uma crise de transmissão da mentira, do cinismo e do ódio. É a crise onde a acumulação desenfreada e egoísta passou a ser o Mandamento excelso da religião do Capital.

Mas só é possível vencer o ódio global com o amor planetário, inclusive o amor político. Desafios existem para ser enfrentados. Não existe mística sem inculturação.  É preciso “fazer-nos um” com os humanos com os quais partilhamos nossa viagem pela Existência, condividindo no dia a dia as alegrias e dores, luzes e sombras. Mística e Política precisam caminhar juntas na busca, comprometida e engajada, de se inventar um novo modo humano de convivência social solidária, justa e fraterna.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

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