O capital é terrorista!

“Os direitos humanos são violados não só pelo terrorismo, a repressão, os assassinatos, mas também pela existência de extrema pobreza e estruturas econômicas injustas, que originam as grandes desigualdades.”

Papa Francisco

Como já divulgado pelo JSO, estou elaborando o esboço de uma constituição emancipatória com o propósito de dar forma normativa àquilo que defendemos doutrinariamente: uma relação social fora da forma valor.  
Quanto mais me aprofundo no tema (e já escrevi duas primeiras partes deste texto constitucional que pretendo publicar como brochura) mais me convenço na necessidade de nos livrarmos dessa coisa odiosa e escravista chamada capitalismo, que no seu estágio de inviabilidade funcional está se tornando mais genocida do que sempre foi e ameaçando a existência humana sobre a face da terra.  
Os povos mundo afora, submetidos e enquadrados involuntariamente à tirania da relação social capitalista, seja ele republicana, monárquica, ditatorial militarista, marxista tradicional, teocrática, etc., são submetidos involuntariamente à exploração do capital e a pagar impostos desatinados à subvenção das máquinas de guerras estatais, que é aquilo que dá suporte bélico à opressão intrínseca do capital e seu Estado.
 Ouvi, atentamente, numa plenária do Conselho de Segurança da ONU, os argumentos dos representantes diplomáticos da Palestina e de Israel, cada um com suas verdades facciosas e interesses escusos indevidamente omitidos, nos quais se depreende facilmente dois fenômenos injustificáveis, mas por eles pretensamente justificados, e que se somam negativamente:
– o ódio milenar em nome de um Deus monocrático absolutista que resulta de fundamentalismos religiosos que assassinam em seu nome;
– e escravismos desumanos que se perpetuam sob formas variadas, que vão desde o escravismo direto da propriedade de seres humanos como se fossem animais de tração, até o escravismo indireto do trabalho abstrato do qual se extrai mais-valia e é a causa da acumulação o capital, riqueza abstrata que detém a riqueza material.
Os asiáticos, os africanos, os árabes, os judeus, os índios americanos, os celtas, os eslavos, os aborígenes australianos, os esquimós, são todos seres humanos que trazem nos corpos e peles diferenças étnicas que se igualam numa única e maravilhosa condição: formam o pertencimento à humanidade!  

O que foi o maior genocídio da humanidade havido nas duas guerras mundiais do século passado, senão uma catástrofe patrocinada por interesses de hegemonia capitalista num mundo em depressão àquela época e que sinalizava a possibilidade de mudança de mãos de tal hegemonia?
A atual depressão econômica mundial é combustível para um acirramento da velha e tradicional belicosidade capitalista, agora com poder destrutivo letal de toda a humanidade.
Neste sentido, a política funciona, sempre, como serviçal do capital; são os interesses do capital aquilo que norteia o comportamento dos governantes, que sob pretextos xenófobos e racistas de defesa da pátria, convocam seus jovens a se matarem no campo de batalha.
Homens que sequer se conhecem se matam com um ódio artificialmente fabricado pela propaganda midiática patriótica direta e sublinear mentirosa, até que vencedores e vencidos, representados por generais vivos, que representam políticos vivos, assinem rendições e/ou armistícios impostos pela crueldade e irracionalidades explícitas e paralisantes.  

A guerra de conquista capitalista não apenas visa a hegemonia econômica de uns países sobre os outros, mas também significa a existência de um vultoso nicho de mercado representado pela produção industrial cada vez mais sofisticada de armamentos destinados à matança.  

Matam-se gentes em nome do capital; empregam-se gentes das quais se extrai mais-valia na indústria armamentista que geram lucros, e tudo isso subvencionado pelo povo, vez que o Estado belicista jamais produz valor por ele mesmo.  

A indústria bélica, inclusive aquela que produz armas para os cidadãos no interior de cada país, representa, hoje, mais do que antes, um estuário do capital em crise de reprodução de mercadorias, razão pela qual é forte o lobby congressual burguês (dá asco só de citar tal nome) que financia os políticos das bancadas da bala mundo afora.  

Vivemos num mundo convulsionado por disputas capitalistas que ora se expressam mais claramente em duas grandes guerras que se ramificam por
lados opostos entre ocidente e oriente que somente demonstram quão individualista e segregacionista é a lógica desse modo de relação social.  
Não há se admitir que alguém que tenha um norte referencial emancipacionista possa se posicionar em favor da guerra genocida e aceitar como válida a agressão militar de qualquer dos lados e sob qualquer pretexto, sejam eles praticados por grupos fora da hierarquia militar estatal ou dentro dela: terrorismo, seja de grupos ou de estado, é terrorismo que mata inocentes e isto é sempre inadmissível.  

Não podemos cair na armadilha que está a se formar entre blocos econômicos de direita e de esquerda que se assentam sob fundamentos capitalistas com meias verdades e mentiras inteiras.  

Neste sentido, o humanismo deve nortear nossas análises e se sintetizam na defesa da vida e dos povos judeus e palestinos, sem maniqueísmos doutrinários ideológicos; bem como devemos condenar a agressão selvagem e genocida do governo russo contra o povo ucraniano e qualquer forma de inciativa belicosa que somente demonstra o grau de incivilidade sob o qual vivemos mundialmente.  

Só a superação do capitalismo poderá criar entendimentos de convivência pacífica e contributiva entre as diversas culturas étnicas e sem a famigerada defesa de fronteiras divisórias pelo nacionalismo xenófobo capitalista promotor de guerras e genocídios.
Só a superação do capitalismo poderá frear a crescente devastação ecológica territorial e atmosférica em curso e promover uma vida sustentável e linearmente e próspera.

A nossa bandeira não pode ser outra, senão de propor o fim da guerra e do seu móvel promotor: o capital e o seu terrorismo intrínseco.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;