O caminho é outro, por Álder Teixeira

Entusiasta da direita, amigo cruza comigo numa livraria da cidade e, sem mais sem menos, formula a capciosa questão: — “O que me diz do atentado a Bolsonaro?”, ao que respondo, à Nelson Rodrigues, com a serenidade de um pintassilgo: “O mesmo que senti em março, quando dois ônibus da caravana Lula foram atingidos por tiros de fuzil no Paraná, um deles no meio da comitiva, posição em que tradicionalmente se encontra o ex-presidente nessas viagens: indignação, pacifista e democrata que sou!”

A exatos trinta dias da eleição, o Brasil reedita páginas vergonhosas de sua História, bem na linha do que ocorreu à vereadora Marielle Franco há cinco meses, no Rio de Janeiro, por razões comprovadamente políticas. Sem esquecer o longínquo ano de 1930, no atentado que resultou na morte de João Pessoa, candidato a vice-presidente de Getúlio Vargas na chapa derrotada por Júlio Prestes, meses antes; nem o tiro da rua Tonelero, em 1954, desferido contra Carlos Lacerda; nem o ônibus que acertou em cheio Juscelino Kubitschek para matá-lo, em agosto de 1976 etc.

Grotesco e inaceitável, sob qualquer aspecto, o atentado a Jair Bolsonaro, cujos desdobramentos, infelizmente, poderão ser desastrosos para o país, fere fundo a alma da democracia brasileira, já claudicante em face da judicialização da política e da prática desavergonhada do partidarismo sub-reptício, cujas trágicas consequências já são, por essas razões, inevitáveis, a exemplo de tirar da eleição a única liderança realmente popular do país.

Não importa se Jair Bolsonaro tem se mostrado, ao longo de sua vida pública (e mais contundentemente nos últimos anos), um fanático defensor da violência como forma de combater a violência; se faz proselitismo em favor do armamento legalizado; se propaga sem cerimônia a volta do autoritarismo, se é favorável à tortura, se é homofóbico, racista e um recorrente agressor de mulheres ou se paga com o dinheiro público quem lhe dá de beber aos cães de estimação em sua fazenda, nem mesmo se professa ter a intenção de “fuzilar petistas”, como tem afirmado aqui e além etc.

Não, nesta hora nada disso importa, reitero. Conta em seu favor que é sagrado o direito de expor suas ideias e de professá-las com o poder de conquistar adeptos na proporção estarrecedora com que tem feito. Se são abomináveis essas ideias, e são, o caminho para combatê-las é outro: o debate político racional, fundamentado em razões menos emocionais e mais isentas; no exame criterioso do que resultará de nossas escolhas, e na compreensão de que a violência, a intranquilidade galopante que parece tomar conta do país, tem suas raízes presas a um modelo de sociedade desigual e injusto, verdadeiro pai da miséria e da revolta capaz de levar um desesperado a buscar na força bruta e no gesto covarde a solução para os seus problemas e do país.

 

 

 

 

 

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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