O cacique e o mercado

Gabriel sempre foi um adolescente sensível. Surpreendia com suas perguntas cada manhã nas caminhadas com seu amigo Frage. Houve dias em que sua pauta estava voltada para questões econômicas; em outros momentos, para temas ecológicos; nunca deixou passar batidas inquietações sobre psicologia. E na caminhada ontem suas interrogações não deixaram nada a dever: “Se Deus é eterno, por que inventou o tempo? E se ele é um, por que há diversidades incontáveis? E se ele é pleno, por que precisa ser glorificado? E se ele é justo, por que existem fomes e guerras? E se ele é o bem, qual a razão da maldade? E se ele está em tudo, por que somente alguns têm o poder de falar em seu nome?”.

Durante os passos que davam no círculo da praça, Frage o escutava atentamente. Pensativo, buscava corresponder à expectativa do seu jovem amigo, no esforço por encontrar pelo menos uma resposta razoável. Foi quando lembrou as histórias que lhe contava sua avó em sua adolescência. Assim, repetiu-as para Gabriel.

A primeira história contada por sua avó fala de um povo que vivia na América do Sul, muito tempo antes da chegada dos colonizadores espanhóis. Antropólogos registraram a existência de vestígios da cultura deste povo há pelo menos quinhentos anos antes da emergência do cristianismo. Eram chamados Mapuches, cujo significado é gente (che) da terra (mapu). Sua relação com a terra é o que lhes dá sentido existencial, não apenas na dimensão material, mas em sentido cosmológico, permitindo-lhes situar  todas as vidas do universo, das estrelas do firmamento até os alimentos naturais. A terra é a mãe que confere a eles um significado transcendente, tanto físico como metafísico. Um aspecto peculiar na dinâmica vocabular dos mapuches é, por exemplo, a não existência das palavras “deus” nem “polícia”, uma vez que eles não podiam criar palavras para algo que não existia em sua cultura.

No segundo relato Frage lembrou a história de um passeio de certo cacique do Alto Xingu por um mercado de feira livre na cidade de São Paulo. Era sua primeira visita àquela cidadeonde a força da grana ergue e destrói coisas belas, com sua feia fumaça apagando as estrelas”. De fato, na noite anterior de sua chegada, o cacique procurou as estrelas no céu e não as encontrou. Estava ali a convite de alguns antropólogos para conversarem sobre a vida na Amazônia. Chegando ao mercado, o cacique logo ficou impressionado com a concentração de frutas nas bancas da feira: laranjas, limões, mamões, sapotis, melões, melancias, uvas, acerolas, pitangas, araçás, jambos, azeitonas, bananas, jacas, mangabas, cupuaçus, açaís, peras, graviolas, cajus, carambolas, pitombas, seriguelas, cajás, abacaxis, morangos, caquis, jabuticabas, goiabas, framboesas, pêssegos, kiwis, tamarindos, lichias, bacuris, pinhas, cambucis, guabirobas, jenipapos, mandacarus, pequis, umbus, uvaias. E perguntou aos seus anfitriões como era possível haver aquela concentração de frutos num só lugar.

Dando mais alguns passos, tomou posse dele outro estranhamento. Percebeu uma criança, na saída do galpão, pegando, para alimentar-se, frutas apodrecidas num compartimento de lixo. Imediatamente indagou a um dos antropólogos: “Por que ela está comendo frutas estragadas, se há essa fartura de frutas aqui no galpão?”. Um dos antropólogos respondeu: “Pelo fato de ela não ter dinheiro para comprá-las”. O cacique retrucou: “Mas crianças não é para terem dinheiro, é para estar livres aprendendo com a natureza. E o pai dela, não tem dinheiro?”. Outro cientista disse-lhe: “Muito provavelmente não”. O cacique questionou: “Então, vocês permitem que as crianças de sua aldeia passem fome, mesmo com toda essa fartura aqui exposta?”. Os antropólogos olharam-se entre si e com a cabeça disseram sim. Por último, o cacique comentou: “Deixar suas crianças morrerem de fome, em meio a tanta fartura, não atrai maldições para a aldeia de vocês?”.

De volta para a sua terra, o cacique reuniu as crianças e adolescentes de sua aldeia para relatar como havia ocorrido a viagem. Cantaram, tocaram seus tambores e dançaram bastante. Depois, sentados na terra, em um grande círculo, ele disse que estava muito feliz e ao mesmo tempo muito triste por aquela viagem. Feliz por verificar que em sua aldeia as crianças e adolescentes não passam fome, porque o alimento é o presente da Mãe Terra para todos, grandes ou pequenos. E sua tristeza se dava pelo fato de ter visto pela primeira vez em sua vida uma criança passar fome na frente de homens adultos que não fizeram nada para saciá-la e nem modificar aquela injusta situação, que muito provavelmente deve submeter muitas outras crianças a tal sofrimento.

Então, quando concluiu, Frage perguntou a Gabriel se as histórias haviam ajudado de alguma forma com as dúvidas por ele apresentadas no início da caminhada. Gabriel respondeu que sim, agradecendo-lhe por lhe possibilitar novas perspectivas para pensar e ver a vida.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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