O BRASIL QUE NÃO VEMOS

Entender um grande país, com enorme diversidade, desafia estudiosos. Inúmeras obras clássicas enfrentaram este desafio hercúleo, empreendendo análises sociológicas, antropológicas, econômicas e históricas. No momento os olhares se voltam, nos meios de comunicação, para aspectos polêmicos, típicos de uma visão seletiva, refletindo a passionalidade dos embates políticos.

Há um Brasil evitado por uns e esquecido por outros. A oposição, agindo como tal, se reserva ao direito de apontar o que não está dando certo e ressaltar ângulos desfavoráveis e interpretar os fatos de modo prejudicial. A exacerbação de ânimos de toda a sociedade transformou a mídia tradicional em palco de luta partidária, deixando-se arrastar para ataques pessoais ou análises facciosas.

O governo, por tática política, pela personalidade do Presidente ou por ambas as coisas, focou nos embates. Áreas do governo com importantes realizações foram esquecidas pelo próprio governo. Um exemplo da “invisibilidade” de alguns aspectos de Pindorama é a profunda transformação do modal ferroviário do nosso sistema de transportes. Ferrovias estavam abandonadas e decadentes nos últimos oitenta anos. A obra interminável da ferrovia Norte-Sul, iniciada no governo Sarney, foi concluída. A Ferrovia de Integração Oeste Leste (FILOS) e a Ferrogrão avançam rapidamente. O setor rodoviário ganha novas pontes sobre os rios Madeira, Paraná, São Francisco e várias outras.

Obras iniciadas em governos anteriores, que a tradição macunaímica abandonava, estão sendo concluídas. Portos, aeroportos e rodovias estão recebendo investimentos da iniciativa privada, após leiloadas as estruturas à iniciativa privada. Os juros, que agora voltam a subir, mantiveram-se baixos antes do impacto da pandemia e permitiram uma economia de cem bilhões de reais em apenas um ano. A produção agropecuária apresenta acréscimos de produtividade. A economia apresenta sinais de recuperação, lentos, mas superiores ao que se esperava. A arrecadação federal volta a subir mês após mês, indicando retomada sustentável da economia. O FMI e a OCDE estão prevendo um crescimento de mais de 5% do PIB no ano vindouro.
Tudo ocorre enquanto os poderes da República emitem sinais desanimadores. O STF age como se tivesse poder absoluto e faz interpretações surpreendentes da Carta Política, além mudar de entendimento com frequência inusitada. Nem é preciso falar no custo do Pretório Excelso. O Congresso continua agarrado aos velhos costumes da política patrimonialista, esforçando-se por manter o presidencialismo de cooptação, que na prática é um “parlaprismo”, híbrido teratológico de presidencialismo como parlamentarismo. O Executivo permanece voltado para os embates políticos, deixando em plano secundário as próprias realizações. Não esqueçamos a grande mídia, que se comporta como partido político. Apesar de tudo isso, contra tudo e contra todos, o Brasil cresce.

A tentativa de passar o Brasil a limpo, prendendo corruptos de alto coturno parece ter chegado ao fim. A moralidade pública passa por uma encruzilhada, tendo como escolha a frase de uma parêmia antiga: restauremos a moralidade ou locupletemo-nos todos. Talvez, no futuro, os historiadores verifiquem que prevaleceu a segunda opção. Tancredo de Almeida Neves (1910 – 1985) dizia que no Brasil os problemas não se resolvem, apenas se agravam. O político mineiro teria dons oraculares? Fez, de fato, uma leitura do passado. A continuidade dos vícios da sociedade, presentes na política, resiste às mudanças.

Fortaleza, 27/9/21.
Rui Martinho Rodrigues

Rui Martinho

Doutor em História, mestre em Sociologia, professor e advogado.

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