O BRASIL CHORA PELOS MAIS DE 508 MIL MORTOS

​Revisitando uma parte da história das doenças, assim como as formas de tratamentos, e especialmente o comportamento humano ainda na Antiguidade, constata-se que as pessoas sempre cuidaram de suas enfermidades, se protegeram e se preveniram das doenças, especialmente aquelas originadas em outros povos, como as epidemias e pandemias. Na cultura vigente entre nós, apesar dos 508 mil mortos, inexplicavelmente, as pessoas negligenciam até o simples uso de máscara.
Merece registro o fato de que, de um modo geral, os médicos e os estudiosos desse período indicavam como causa principal das doenças o desequilíbrio entre o homem e o meio ambiente, sendo a água, as condições de nutrição e a higiene as medidas sanitárias mais eficazes para tratá-las. Entre nós, o negacionismo impõe um entendimento diferente.

Em uma perspectiva histórica de longo prazo, a literatura clássica universal registra que, desde a Antiguidade, seguindo pela Idade Media encontram-se surtos epidêmicos, e os relatos assinalam sua origem mística com a crença de um julgamento divino dos povos tementes a Deus, ou aos deuses. Nos dias de trevas da realidade em curso, embora as doenças já não sejam místicas e a crença não seja mais nos deuses, ainda assim, acredita-se que a cura virá pela imunidade de rebanho, pelo tratamento precoce à base de remédios sem eficácia e comprovação científica, e pelas invencionices de um certo gabinete paralelo.

Examinando o que ocorre por aqui, é sabido que somos um País que em termos econômicos-sociais ainda ostenta números extremamente humilhantes e inaceitáveis para uma sociedade que se pretende moderna. O mais vergonhoso deles refere-se ao índice de analfabetismo, cuja extensão provoca repercussão negativa de longa duração. Vencidas as primeiras duas décadas do século XXI, 11 milhões de brasileiros, ou 6,6% da população de mais de 15 anos, são considerados analfabetos, pois não sabem ler nem escrever uma simples mensagem, segundo dados do IBGE.

Como sociedade, que ainda enfrenta tão deletéria realidade, se nos impõe o dever de buscar por todos os meios a superação desse desafio multidimensional.

Como tudo que está ruim pode ainda piorar, é de sabença mundial que, na última semana, acumulamos mais um desses vergonhosos recordes, e ultrapassamos a mórbida marca com mais de 508 mil mortes causadas pelo coronavírus, mas não só por ele. Agora perdemos apenas para os Estados Unidos, e segundo previsões dos cientistas da saúde, deveremos em breve ser o primeiro país em número de mortes pela covid, pois, na média móvel de óbitos por dia, já ultrapassamos a Índia.

​Ante a comoção que se abate sobre a Nação, nesse momento de dor e sofrimento para as milhares de famílias que perderam seus entes queridos, ainda que para alguns poucos essa tragédia não os sensibilizem, apresentamos nossa irrestrita solidariedade, pelas vidas perdidas, chamando atenção para a necessidade de não perdermos a capacidade de nos indignar com os dramas humanos, e nos compadecer em relação à dor do outro.

Devemos lembrar que, entre esses 508 mil mortos, milhares eram pais e mães de família, filhos, netos, avós, maridos, esposas, irmãos, sobrinhos, noivos e noivas, jovens e adultos, que tiveram seus sonhos interrompidos, deixando órfãos familiares e amigos, que choram, não só as perdas de cada uma dessas pessoas, mas sofrem ainda pela desesperança e pelo vazio que irrompe dentro de cada um.
Se multiplicarmos esse número por apenas cinco em cada família, temos mais de dois milhões meio de pessoas chorando a perda dos seus familiares, e outros tantos a perda de seus provedores, comprometendo o futuro de milhares de crianças, por exemplo. Não dá para sermos indiferentes a essa tragédia. Não podemos aceitar o argumento desumano e embrutecido de que é isso mesmo, ou a despropositada pergunta – “o que você quer que eu faça”? “Não sou coveiro”, “um dia todos vamos morrer”, porra! Não, não podemos calar diante de tão abominável comportamento. Devemos gritar e deplorar cada uma dessas infames colocações.

​Agora, mais do que nunca se faz necessário resgatar o sentimento de humanidade entre aqueles que ainda mantêm intacta a capacidade de raciocinar e se indignar, ante a tragédia que em maior ou menor grau nos atinge a todos, para seguirmos guiados pela solidariedade, e pela compaixão, valores muito raros nesses tempos obscuros. Nesse contexto, convido o leitor a refletir por alguns instantes sobre as milhares de crianças recém nascidas que sequer tiveram a oportunidade de conhecer o pai, ou a mãe, e deles receberem o aconchego do colo, os primeiros ensinamentos, a primeira bola, e a primeira boneca, e que jamais terão a oportunidade dessa convivência. Ao contrário, milhares terão um futuro incerto, pois essas perdas terão repercussão durante toda a vida desses órfãos.

​E, como nos ensina Dora Incontri, em seu belíssimo poema, “Luto e luta pelos 500 mil”, “[…] grito contra quem ironiza, quem vampiriza, quem não se compadece de quem padece, choro pelos que não voltam mais, choro pela destroçada paz dos que não verão seus pais, choro o Brasil vergado, pela tirania vergastado, pela soberania ajoelhada, pela crueldade declarada, choro pelo chorinho emudecido pelo canto estarrecido, pela arte ferida, pelo barateamento da vida”!

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.