O berço esplêndido da omissão: a espera angustiante pelo heróico brado retumbante, por João Paulo Bandeira de Souza

O PT saiu do poder central, mas corrupção não acabou, a economia não reagiu e a vida não melhorou. A opinião pública brasileira ainda não se recuperou da sua mais recente decepção política. Estamos com um sentimento de derrota coletiva, algo como um 7 X 1 cívico, uma ânsia de vômito coletiva.

Perderam os “coxinhas golpistas” que acreditavam sinceramente na extinção imediata dos problemas nacionais com a saída dos petistas do comando do governo Federal. Perderam os “petralhas” que estão profundamente magoados e decepcionados com a democracia por conta do desrespeitoso acinte à deliberação do voto popular. Perderam os que não são “petralhas” ou “coxinhas”, mas que não concordam com o modo como a política brasileira está sendo conduzida e inventada por honoráveis bandidos. Também perderam os que sabem que o buraco é mais embaixo e que o Brasil não é para principiantes. A angústia e o desconsolo inebriaram os muitos lados desse emaranhado ciberpolifônico que é opinião pública brasileira contemporânea.

O pedido de tornozeleira eletrônica para José Sarney e de prisões para Renan Calheiros, Romero Jucá e Eduardo Cunha deram um tímido alento para essa tão atônita e omissa opinião pública. Sabemos que a questão não é trivial: ninguém aceita Temer, poucos querem a volta de Dilma Rousseff, alguns querem eleições e todos estamos perdendo a paciência. Multidões de engasgados com o inexorável heroico brado retumbante que teima em não ecoar.

Não tenho dúvida que o brado retumbante, forma poética de chamar a “vontade geral”, ecoará através de vozes pouco preparadas para lidar com tais tecnologias políticas e questões democráticas tão delicadas. Sendo assim, a  questão que mais me atormenta no momento é saber quando essa vozes virão e quais consequências elas trarão. Suponho que teremos muita violência e dificultoso diálogo.

Sentiremos calafrios ao constatarmos quão deletério foi o tempo que perdemos ao não educarmo-nos politicamente de forma mais eficaz para as tarefas da vida democrática. É no calor dos grandes embates de uma sociedade que seu povo vira protagonista das suas decisões políticas, sociais e culturais. A mídia mundial já agraciou o presidente interino com a medalha de ouro na modalidade corrupção, até quando dormiremos no confortável no berço esplêndido da omissão? Penso que estejamos a poucos dias do que talvez  possam ser conhecidas como sendo as: Olimpíadas das bombas de gás e da bala de borracha.

João Paulo Bandeira de Souza

João Paulo Bandeira de Souza

Cientista político, Doutor em Ciências Sociais (UFRN), Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (MAPPS/UECE), membro dos grupos de pesquisa Marginália-UFRN e Democracia e Globalização-UECE.

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