O Banco Central, a gestão da dívida pública e a porta giratória, por Osvaldo Euclides

O Banco Central do Brasil continua em ritmo de festa, desfilando, ignorando solenemente a crise agora real, e cada vez mais séria, enquanto empresários e trabalhadores dançam ao ritmo de uma recessão dramática. De qualquer janela do país pode-se ver o desmoronamento e ouvir os estalidos de empresas quebrando por falta de estímulos e de demanda, são os empresários que há não muito eram prósperos (apesar de tudo) e confiavam no futuro. Agora que sabem-se enganados, estão descrentes do que encontrarão adiante, não têm confiança para investir, ao contrário reduzem seu tamanho, adiam qualquer possibilidade de investimento e cortam seus custos, começando por demitir.

O Banco Central do Brasil ignora friamente o drama de mais ou menos quatorze milhões de trabalhadores (ou vinte e dois milhões se contar o subemprego) e por decisão unânime de um comitê de política monetária decide manter os juros em 9,25% ao ano, para poder continuar a carregar a bandeira e o troféu de campeão do juro alto em todo o planeta. É que ninguém disputa essa bandeira e esse troféu, no mundo inteiro o juro da dívida pública está em torno de zero.

O Banco Central do Brasil mantém a taxa Selic em 9,25% ao ano, apesar de a inflação nos últimos 12 meses já estar em menos de 3% e saber que em dezembro alguns índices fecharão o ano no campo negativo. Isso mesmo, um ou mais índices anuais de inflação em dezembro, tudo indica, estarão abaixo de zero. O Banco Central sabe que a inflação brasileira está domada, sabe que a inflação não é de demanda, sabe que pode gerir a dívida pública a custo mais baixo, sabe que este juro tão alto é inexplicável e inaceitável. Não é razoável pedir tamanho sacrifício a um país que está tão profundamente ferido, e que sangra aos olhos do mundo.

A questão deixou de ser técnica, de gestão financeira, de administração econômica. É difícil qualificar o que tem feito o Banco Central na gestão da dívida pública. E a questão não se refere apenas ao governo atual, o governo atual apenas levou o problema ao paroxismo.

Os grandes capitalistas e a nuvem de dinheiro livre e disponível que existe sobre a economia brasileira acabam de receber o seguinte recado do Banco Central do Brasil: não empreendam, não criem empresas, não gerem empregos, não arrisquem em novos negócios, pois nós, do Banco Central do Brasil, lhes oferecemos o melhor investimento de renda fixa do mundo. Baixo risco, alto retorno. Liquidez plena, segurança total e rentabilidade campeã mundial. Com esta Selic e com esta inflação, seu capital será dobrado em mais ou menos 8 anos.

Qualquer criança percebe que o Banco Central está desfilando nu. Impressiona como jornalistas e economistas escondem este fato da população num momento tão difícil e delicado para tantos empregados e empregadores.

O Banco Central do Brasil não pode apenas confirmar a existência de uma porta giratória BC-mercado-BC-mercado-BC-mercado, que confunde o interesse público com o privado.

Osvaldo Euclides

Osvaldo Euclides de Araújo tem graduação em Economia e mestrado em Administração, foi gestor de empresas e professor universitário. É escritor e coordenador geral do Segunda Opinião.

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