O (atual) dilema americano

A saída das tropas americanas do Afeganistão trouxe um inevitável desgaste para o governo de Joe Biden.Certamente, esse desgate não foi previsto, é bem provável que o mandatário tenha imaginado que a retirada dos soldados renderiam manchetes de jornais elogiosas da decisão de dar uma basta na guerra mais longa que os EUA se meteram.Entretanto, as aterradoras imagens de afegãos desesperados tentando fugir do novo governo agarrando-se em aviões militares norte-americanos(alguns destes afegãos cairam do avião e morreram),todo o caos no aeroporto de Cabul e a tensão na comunidade internacional com as possiveis consequências deletérias para as mulheres e meninas no país abandonado, não deixou margem para uma visão positiva daquele triste espetáculo.Devemos lembrar que a decisão de Biden, articulada por Donald Trump em fevereiro de 2020, é apoiada pela maioria dos americanos, em especial por eleitores democratas.Desta forma, é possível afirmar que o presidente visou agradar esse eleitorado,talvez até para fortalecer sua base de apoio visando lograr êxito na sua agenda interna. Não é nosso objetivo aqui tratar da situação atual no Afeganistão, não tenho competência para avaliar o presente e os cenários futuros deste país que a história e a cultura não conheço com profundidade, nesse texto focaremos nos desdobramentos dos atuais acontecimentos para o xadrex político norte-americano e suas ramificanções globais.

O neoliberalismo e o consevadorismo fiscal dominam a política norte-americana desde Ronald Reagan.O ex ator junto com Margaret Thatcher no Reino Unido promoveram uma verdadeira revolução ao defender a crença feroz no Estado mínimo e nos mercados desregulamentados que acabou se transformando em tendência para o resto do Ocidente e para a América Latina daí por diante.Este processo que iniciou-se em 1979 visava retomar os preceitos do liberalismo clássico(como era uma tentantiva de retorno a plataforma liberal cunhou-se o termo neoliberalismo),para solucionar os problemas inflacionários e a crise do petróleo. Bill Clinton e Barack Obama pinceralaram a ação dos mercados livres com tons progressistas(o primeiro, com uma orientação baseada nas discussões da terceira via de Anthony Giddens[1], esboçou algumas medidas sociais importantes como a criação de uma sistema universal de saúde, não tendo êxito, diminuição de impostos para a classe média. Já o segundo adotou uma importante postura liberal nos costumes, foi o primeiro ocupante da Casa Branca a defender abertamento o casamento de pessoas do mesmo sexo, conseguiu estabelecer um lei que expandia o acesso a saúde(conhecida popularmente como Obamacare) e buscou combater as mudanças climáticas. No entanto, os dois foram agressivos com países considerados inimigos dos EUA, em suma, seguiram a cartilha do império e agiram como polícia do mundo.George Bush e George W Bush promoveram a desregulamentação financeira sem pudor e o segundo, por conicidência filho do primeiro, viu o país entrar numa crise econômica profunda em 2008(que só não continuou indefinidamente nos anos seguintes por que Obama,vencedor no pleito presidêncial de 2008, salvou os bancos e amenizou a crise; milhares de trabalhadores americanos, porém, perderam sua renda, poupança,hipoteca e dignidade).

Biden tem a oportunidade, como bem apontou o jornalista Lucas de Abreu Maia[2], de criar um estado de bem estar social nos EUA com os trilhões de doláres que estão sendo poupados com a debandada do ”cemitério de impérios”.Para isso,o democrata precisa vencer a ”guerra civil” interna com os republicanos, tenazes opositores de políticas sociais e guardiões do liberalismo econômico, e convencer a ala moderada do seu partido a seguir este plano.O fim da guerra do Vietnã levou a sociedade americana a um vácuo moral e simbólico bastante expressivo(afinal, o grande EUA não tinha conseguido vencer as guerrilhas de uma pequeno país no Sudeste da Ásia, um grande choque para quem nasceu acreditando ser um povo eleito que pode fazer o que quiser com o resto do mundo) que levou a Era Reagan e a sua combinação de valorização da familia tradicional por um lado e os mercados livres por outro como forma de trazer os EUA de volta para o topo do planeta, além de apoiar os mujahidin contra a URSS(sabemos o resultado desta empreitada) e entupir as cadeias de pobres, negros e latinos com a desculpa de estar combatendo as drogas e promovendo a lei e a ordem(um processo que emergiu com Richard Nixon).Enquando isso a desigualdade social só crescia e o salário médio do trabalhador passava a não valer nada enquanto os empregos seguro na indústria desapareciam ou migravam para outros lugares e a insegurança no mercado de trabalho tornava-se um pesadelo para os trabalhadores. O fim da guerra do Afeganistão pode ser a oportunidade para que aja uma ruptura desta lógica já tão desgastada, com um estado de bem estar social emergindo nas Terras do Tio Sam,o que seria positivo para centena de milhões de trabahadores e índividuos da classe média americana, tão acostumados a ”pagar o pato” dos arrochos governamentais e das crises do sistema financeiro.

No entanto, se Biden não seguir este caminho, seja por recuos em sua plataforma(temos que lembrar que o partido Democrata,assim como o Republicano,também é financiado por grande conglomerados empresariais que querem a todo custo manter seus lucros e privilégios) ou por vitória parlamentar dos republicanos, a sustentação do seu governo pode degringolar e favorecer a volta de figuras como Donald Trump, que sabe como poucos ser ouvido por cidadãos comuns ressentidos com seu país, ou a ascenção de outros republicanos radicais que dentre outras coisas abandonem de vez qualquer tipo de compromisso global com a agenda ambiental e o combate a atual emergência climática.Esta seria uma derrota muito dolorida com conseqûencias para o resto do planeta e para as futuras gerações.

Referências

[1]GIDDENS,A. A terceira via: Reflexões sobre o impasse político atual e o futuro da social-democracia. Rio de Janeiro: Record,1999.
[2]Lucas de Abreu Maia. O dia em que o império ruiu.Revista Piauí https://piaui.folha.uol.com.br/o-dia-em-que-o-imperio-ruiu/

Gilvan Mendes Ferreira

Cientista social graduado pelo Universidade Estadual do Ceará-UECE, com interesse nas áreas de Teoria Política , Democracia e Partidos Políticos.

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