O ATROFIO DA POLÍTICA

Na antessala de mais uma eleição para renovar o Congresso Nacional, escolher os governadores e o próximo Presidente da República, procedemos a esse breve comentário, com o objetivo de chamar atenção para os vários panoramas político-eleitorais ora articulados, sem, no entanto, oferecerem um projeto de Nação. O Chile, com a eleição da primeira constituinte paritária do mundo, reconhecimento aos direitos das minorias, especialmente dos indígenas, e eleição do candidato da esquerda, Gabriel Boric, no último domingo, constitui ótima referência para os brasileiros.

Para essa empreitada, convidamos o leitor a refletir, racionalmente, fora do sentimento predominante desses três últimos anos, cujo legado varia entre o ruim, o mau e o muito pior, e que agudamente contaminou parcela significativa da sociedade brasileira. Isso requisita um certo esforço para nos despir das motivações e interesses particulares, com vistas a preponderar a racionalidade, e não descurar do mau que ainda nos espreita.

Nessa contextura, fazer a travessia por esse imenso deserto de pessoas públicas em que se tornou o Brasil, tornando-o ainda mais árido pelo vazio de ideias observado na realidade em curso, será o desafio que se nos impõe, em particular, para aqueles que mantêm intacto o uso da razão, sem a qual fica prejudicada a edificação de um projeto de País. Para esse mister, sugerimos que não mais nos orientemos pelo que dizem os partidos e suas pseudoideologias, pois, na cultura política vigente, já não valem muito, tampouco, é necessário dizer por quê.
Olvide-se, pois, a maior bobagem do séc. XXI – rotular a si como postado na direita ou na esquerda – pois já estamos na fase da nanomolecular/biology, estudando a integração de sistemas moleculares e as nanopartículas, sendo possível diagnosticar e prevenir doenças que as pessoas terão no decurso de toda a vida. Assim, é dado se compreender, minimamente, a realidade sensível e caótica ora vivida.

Caso se retorne um pouquinho na história, veremos, de novo, que, na virada do séc. XXI, a sociedade brasileira fez uma inflexão nos costumes, pois criou distintos paradigmas socioculturais, internalizou outros padrões de comportamento, com vistas a preservar o meio ambiente, incorporando como valores o consumo consciente e a geração de energia limpa, havendo estabelecido, também, relações saudáveis com as diferenças. Esses avanços socioculturais imprimiram contornos de elevação no grau de civilidade, e até sofisticação, ao pensar médio da sociedade pátria. Entrementes, na política …!

É um paradoxo não se observar esse grau evolutivo e de sofisticação no pensar político. Pelo contrário! Assente em quem assentar esse chapéu, em termos políticos, somos uma sociedade de práticas macunaímicas. Lá do jirau, os do andar de cima “vertem água” e evacuam na cabeça de quem está no pavimento inferior.

Na atual conjuntura, tanto nas práticas dos políticos em geral, como nas ideias dos candidatos disputantes das eleições – especialmente no agir coletivo – resta evidenciado o fato de ser possível inferir pela nossa chegada ao volume morto do pensar e do agir politicamente. Qual a razão para tanta irracionalidade? Os símbolos da Antropologia nos dizem muito…

Aos leitores, comunicamos um pequeno recesso para voltarmos, a Deus querer, na segunda semana de janeiro. Bom Natal e ditoso Ano novo!

PS – Lembre-se que o vírus não sai de recesso. Nesse final de ano ele vai estar ainda mais transmissível. Evite essa visita indesejada. Proteja-se. Vacine-se.

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.