O ATO DO TEATRO: QUANDO FAZER É DIZER – Carlinhos Perdigão

 

“Teatro” representa tanto um gênero artístico como também um espaço no qual são apresentados vários tipos de espetáculo. Sua origem remonta a vários séculos antes de Cristo, em lugares como: Egito, China, Índia e Grécia, sendo este último país considerado, no ocidente, como o berço da linguagem. No princípio, suas representações dramáticas e culturais exaltavam divindades mitológicas. E, a partir daí, surgiram diversos gêneros identificados com ele, como a tragédia clássica, a comédia romana e outros. Ele possui, portanto, um longo percurso, atravessado por momentos históricos relacionados à Antiguidade, bem como à Idade Média e ao Renascimento.

Hodiernamente, no Brasil, compreende-se que a linguagem teatral é algo que surge na vida de uma pessoa de uma forma quase natural. A televisão, com sua força midiática e dramatúrgica, imprime aos telespectadores o seu formato novelesco. Daí a representatividade dessa linguagem, aguçada aos olhos de quem vive – nos horários nobres, ou pobres, como queiram – prestando atenção em narrativas de atores e atrizes…

A inserção da criança, portanto, nas viagens de uma novela remetem ao ato do teatro. Entretanto, há nesse quadro algumas diferenças abissais, dentre elas: a arte teatral precisa ser vivificada em outros termos, demandando busca ao mundo, território nem sempre saudável, mas imperativo na formação humana. Afinal, como crescer dentro de casa?
Em tal contexto, e ainda dialogando com aspectos dificultosos, há questões como: de que forma se dá a descoberta da linguagem do teatro propriamente dita? Em princípio: através de leituras. A relevância do ato de ler envolve descobrimentos múltiplos sobre as coisas da vida. Nesse sentido, tem condições de basear aspectos ligados a diversas linguagens artísticas. Dentre os quais o teatro e suas reminiscências gostosas, quase sempre…
Mas o ato de ler sobre não basta. Pensemos numa peça, de qualquer gênero. Ali está o personagem; ali está a narrativa; ali está a trilha sonora; ali está a luz; ali está o figurino, e ali está a pessoa num processo de imersão quase que total, entrando em outro mundo, refletindo sobre possibilidades humanas, vendo/observando/participando de discursos múltiplos, marcados por um jogo cênico nem sempre clarificado, a apresentar metáforas do que é, ou poderia ser, ou não ser…

A tentativa dessa viagem sinestésica e corpórea é envolver a audiência nas entranhas do enredo. Levá-la, a partir daí, a vivenciar outras vidas vivenciado o mundo do teatro. Assim, as representações humanas ali presentes extrapolam o ato de ler, completo e incompleto – pois o diálogo com o mundo nunca cessa – em sua essência.
Portanto, presentes na tessitura teatral elementos extratextuais como os destacados nos parágrafos anteriores, é hora de adentrarmos no texto do teatro. De tal modo, a linguagem em foco possibilita alternativas de abordar um enredo. Seja através da palavra ou mesmo através do silêncio – uma pausa verbal eloquente, quase sempre.

Historicamente, sabe-se que no Brasil houve vários dramaturgos, dentre eles: João Caetano, Joaquim Manoel de Macedo, Gonçalves Dias, José de Alencar, Machado de Assis, Pascoal Carlos Magno, Artur Azevedo, conhecido como sendo um dos criadores do teatro de revista em nosso país, além dos cearenses Eduardo Campos e Carlos Câmara, afora muitos outros que, ainda atualmente, nas terras alencarinas, escrevem peças teatrais, como Oswald Barroso, Ricardo Guilherme e Edson Cândido.

Assim, com tantos escritores importantes valorizando as letras dramáticas, e com a força que essa linguagem artística tem no Brasil e no mundo, é razoável sustentar que a “palavra” no teatro dita o ritmo do espetáculo – não só, obviamente, mas neste ponto – e neste texto – ela é um dos principais focos. Dessa forma, ela conduz o enredo no entorno dos meandros dos personagens, pulsando emoções e tensionando a carga de dramaticidade aposta. E, em tal contexto, a sintaxe gramatical por ela veiculada aborda a representação, conceitualmente entendida como: ação.
Esse argumento remete ao próprio fazer teatral – sabe-se que o vocábulo “drama” tem origem no grego e que expressa aspectos ligados a ato, atuação -, assim como remete à fonte da Linguística Textual, que afirma ser o texto um gerador de sentido que precisa ser compreendido e interpretado por um leitor ativo, e não passivo. Tal conjuntura, por sua vez, dialoga com a corrente intitulada como Estética da Recepção, a qual considera só haver leitura quando uma pessoa interfere e completa os significados de qualquer gênero textual. Portanto, em foco a questão da ação.

Atualmente, com o advento e a potencialização da Pragmática, ramo da Linguística que estuda a língua no seu contexto de uso, há a compreensão de um conceito a ela atinente, qual seja, a de que “dizer é fazer”. Desse modo, existe em toda essa conjuntura uma homologia com o universo do teatro que se perfaz com as ações de personagens, não só através da língua, mas também através dela, como já destacado.

As cenas representadas, por sua vez, podem ou não ter a presença da linguagem musical. Suponhamos que tenha. A função de uma trilha sonora, portanto, está relacionada à sugestão dos “climas dramáticos”. Isto é: sentimentos como tristeza ou alegria, que envolvem uma peça, podem ser ampliados por uma melodia coerente e implicada com a situação dramatizada.

Isso reforça uma participação ativa e igualmente interferente por parte do espectador. Afinal, a música tem um poder de expressão que sensibiliza e acentua nossos sentidos, interagindo na carga dramática e evocando diversas sensações, além de ocupar espaços físicos – como bem já sustentou Robert Plant, vocalista do grupo britânico Led Zeppelin ao falar sobre o cancioneiro deles – e crescentes no mundo moderno (aliás, o tema da presença praticamente constante da música na vida das pessoas fornece subsídios para outro ensaio. Neste, foquemo-nos no discurso dela no teatro).
A tradução dos sentidos do material verbalizado no universo teatral é, portanto, adensado pela música, que potencializa os significados de uma peça. Mais uma vez, assim, em foco está a presença de um receptor ativo, que completa os sentidos da linguagem do teatro, acional por natureza. Essa reflexão, por conseguinte, inverte a máxima de que dizer é fazer. Na linguagem teatral, portanto, “fazer é dizer”.

A contradição nesse ponto é apenas aparente. Afinal, o processo dialético opera com reflexões acerca da realidade. E a realidade pode ser uma peça teatral, linguagem artística que chama atenção das pessoas, seja como atuantes – para reforçar este texto – ou como espectadores. Além disso, na realidade humana, o diálogo entre fazer e dizer – e nesse ponto não importa a ordem dos verbos – é constante, e nem precisa explicar muito…

Em outras palavras, e voltando ao aspecto central deste texto: o ato teatral se completa em torno de ações que dizem. Assim como a música, a qual, para dizer, precisa que alguém acione – toque! – o instrumento. Com destaque igualmente para a pausa silenciosa – que também é um discurso, intervalada melodiosamente. E assim também com o universo vocabular: a “palavra” é ação – forma de interferir sobre o mundo e sobre o outro.
Em todo esse quadro, por sua vez, compreende-se que a música, o teatro e a palavra significam, gerando sentidos, possibilidades de aquisição de conhecimento e destacando nossas sensibilidades. E nesse percurso podem se completar, num diálogo que privilegia o gozo e o prazer de uma pessoa – que se deseja interferente no processo – ao assistir a um espetáculo teatral que aprecie.

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OBS.: texto dedicado aos queridos amigos Júlio Maciel – homem do teatro, diretor da peça Não Verás País Nenhum, baseada no romance homônimo de Ignácio de Loyola Brandão; e Ruber Ferreira – um grande mestre de língua portuguesa na UECE e pesquisador da Pragmática.

 

Carlinhos Perdigao

Carlinhos Perdigão é arte-educador, músico, produtor cultural, professor de língua portuguesa da Faculdade Plus e da UNIQ – Faculdade de Quixeramobim. É autor do livro “Fragmentos: poemas e ensaios” e do disco “Palavra”. Tem formação em Letras e Administração, com pós-graduação em Gestão Escolar. E-mail: [email protected] Site: carlinhosperdigao.com.br

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