O AMARGO FUTURO DE UM PRETÉRITO IMPERFEITO

Os de minha geração foram testemunhas oculares e presenciais de três rupturas constitucionais. Acho pretensiosa esta forma de inserção no tempo histórico, mas não resisto ao que outros mais desvalidos de lembranças o fazem. Vá lá, a minha geração.

Três erutações autoritárias, dizia eu. Três refluxos de inesperadas vascas autoritárias.

O Estado Novo, os idos de março de “ 1964”, evento mais conhecido pela data do que pelas vagas intenções debitadas em seu portfólio ideológico; e o reducionismo jurídico de 2023, evento a ser guardado como íntima ilação do mês ao ano, a exemplo do 11 de janeiro, em Nova Iorque, o outubro de 1917, em São Petersburgo, e o 14 de julho na praça da Bastilha.

No Estado Novo, era eu ainda analfabeto como os da minha idade; em 1964, estava em Paris dedicado, com visível e censurável displicência e descuido ao aprendizado teórico sobre os dogmas sagrados do bolchevismo empacotado com as fórmulas de Lenin e Trotsky e os sucessos da tomada do Palácio de Inverno. Por último e pelo que se depreende das circunstâncias presentes e das contingências anunciadas — “but not least” — talvez não seja o encerramento de um ciclo totalitário incompleto — a correição dos contestadores e das contestações impertinentes das revelações anunciadas pelos “novos”patriotas.

Em 30, não tinha eu opinião formada sobre os eventos getulistas, os 6 anos não permitiam qualquer argúcia na minha precoce curiosidade política. Em 64, pelejei em um círculo de jovens professores no departamento de ciências sociais em uma universidade do Ceará. Nadamos contra a corrente, à “conter-poil”, como diriam os franceses. E colhemos algumas respostas corretivas dos serviços especializados de segurança e informações. Em 2023, aposentado, desvalido das cumplicidades e convergências de consciência, calei-me mas pus-me a cumprir algumas necessidades de catarse — escrevendo para leitores hipotéticos, a cada dia mais emudecidos pelas circunstâncias e injunções que amedrontam e emudecem os que já não querem ouvir as reprovações repetidas dos agentes do governo e dos cuidados familuares.

De uma eleição apertada saíram, armadas de ressentimentos, as duas bandas de um eleitorado que se fortalece continuamente com o ódio recíproco e com ideias confusas sobre persignações de fé ideológica e se intitulam de “esquerda” ou de “direita”.

A vindita estampada no esgar de vitória dos novos comanditários de uma república em decomposição não deu chance para um projeto nacional em busca do soerguimento da economia e do caráter e da consciência política dos brasileiros. Pelo contrário, as diferenças foram-se acentuando, a vontade e o desejo de poder cresceram com a criação de antagonismos incontornáveis.

Vivemos, hoje, como inimigos, pelas ideias mal assimiladas, pelas utopias risíveis de adolescentes envelhecidos torcendo pelo pior como castigo para os perdedores do próximo “round” anunciado.

A indagação angustiada que se põe aos brasileiros, não apenas à militância rouca dos assentamentos ou das manifestações da avenida Paulista. O que vamos fazer das nossas divergências e das nossas aspirações, passada a revoada dessas andorinhas tresloucadas que piam e gralham indiferentes aos nossos desejos e à nossa vontade coletiva de cidadãos remidos, exauridos de tanta verbalização vazia e inútil?

O que pensam esses graves e risonhos senhores do poder, tão senhores de si, o que imaginam sobre a extensão do mal que, intencionalmente ou não, podem estar a fazer ao povo brasileiro e comprometem um futuro já roído e ameaçado por tantos desvios de opinião e tanta crise de consciência desconsiderados?

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.