NUNC

Par’ além do sempre, sempre o nunca
Preciso mastigar o alho entre os dentes em nome da imortalidade
Embora para além do sempre, sempre o nunca
Espero que me esperem os amigos que espero
Pois para além do sempre, sempre o nunca
Preciso morder a cebola como se fosse uma maçã
Só porque para além do sempre, sempre o nunca
Pascal me convence do contrário do que penso
Para além do sempre, ai, sempre o nunca
A cebola e o alho, o som do azeite na panela
Comida, agora, pra ninguém
Para além do sempre, sim, sempre o nunca
O nunca feito olhos de tocaia
Para além do sempre, sempre o nunca
Quero pensar e sentir além também, além das palavras, do álcool, do cigarro
Para além do sempre, Deus meu, sempre o nunca
Quero pensar e sentir além da vontade culinária de amor
Para além do sempre, senhor, sempre o nunca
Em algum momento o garçom precisará dormir e a conta chegará
E Pascal me lembra que na espera Jesus se entediou
Para além do sempre, amor, sempre o nunca
Os erros meus nessa metade da balança feito uma metade da vida
Para além do sempre, sempre o nunca, simplesmente
Terei que gritar só na capoeira, mas capoeiras já não há
Para além do sempre, filho meu, sempre o nunca
Se os ouvidos que eu desejasse se me oferecessem, era eu que me negava
E morria desejando oiças mais abertas
Para além do sempre, par’ além, o nunca-sempre
Os ouvidos que vou sempre desejar para o meu silêncio
Até que venham outros
E depois outros
E depois outros
Para além do próprio sempre
Nunca

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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