NOVA IORQUE NÃO QUER OS BOLSONAROS, por Alexandre Aragão de Albuquerque

Nazistas não admitem espíritos livres. Esforçam-se por fomentar uma violenta cultura que desenvolva mentes cativas e dóceis que lhes sejam obedientes, capazes de se submeterem ao sacrifício extremo por seus ídolos: a pátria – “Brasil, acima de tudo” – e o líder político – “Deus acima de todos”.

 

O nazismo é a expressão radical de um autoritarismo exacerbado. Seu deleite sádico é massacrar minorias – pobres, pretos, mulheres, quilombolas, povos nativos, pessoas homoafetivas, organizações populares – e indivíduos fragilizados existencialmente, principalmente pessoas portadoras de déficits físicos. Por isso o nazismo jamais pode ser considerado um sistema político com fundamento antropológico cristão, porque o centro do cristianismo é o amor, encarnado por seu Fundador, entendido como doação ativa a todos os humanos, de forma preferencial pelos menores, os últimos. Cristianismo é partilha de bens, não é concentração de riquezas nem de poder.

 

Espíritos livres são aqueles que pensam de modo diverso daquilo que se esperaria deles em função de um senso comum que predomina em um determinado momento da sociedade. Eles andam ao nosso redor e talvez nem o saibamos. A distinção é a sua marca. Não são escravos das ideias apequenadas e repressoras. Sabem dizer não. Seu sim não é resultado de subserviência a um sistema opressivo, mas da coragem de expressar visões humanísticas capazes de criar mundos novos mais justos.

 

Na sexta-feira, 03 de maio, a Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República informou por meio de uma nota oficial que Bolsonaro cancelou uma viagem que faria a Nova York, nos EUA, onde seria homenageado pela Câmara de Comércio Brasil-EUA, prevista para ocorrer no próximo dia 14 de maio. O cancelamento da viagem de Bolsonaro é devido à desistência de vários patrocinadores em associar seus nomes ao do Capitão. Entre os desistentes estão a companhia aérea Delta, a consultoria Bain & Company e o jornal Financial Times. Importante registrar que Temer, após tomar posse no dia 31 de agosto de 2016, como presidente golpista, sua primeira iniciativa internacional foi a de viajar para os EUA, quinze dias após de empossado, para prestar contas à Câmara de Comércio Brasil-EUA dos resultados do golpe que derrubou a presidente eleita democraticamente Dilma Rousseff.

 

Em abril deste ano, o prefeito Bill Blasio iniciava suas críticas abertas quanto a ida do Capitão para a “big apple” estadunidense, dizendo que “o ódio de Bolsonaro não é bem-vindo a Nova Iorque”. Em seguida, ao saber do cancelamento da viagem, Blasio acrescentou em uma nova manifestação pública: “Jair Bolsonaro aprendeu do jeito difícil que nova-iorquinos não fecham os olhos para a opressão. Nós expusemos sua intolerância. Ele correu. Não fiquei surpreso – valentões geralmente não aguentam um soco. O ataque de Jair Bolsonaro a direitos LGBTQ e seus planos destrutivos para o nosso planeta se refletem em líderes demais – incluindo no nosso país. Todos devem se levantar, falar e lutar contra esse ódio temerário”.

 

Somente espíritos livres são capazes de reagir sem esperar que lhe digam o que fazer. O exemplo do prefeito de Nova Iorque passa a ser uma referência para novas manifestações de repúdio ao modelo autoritário de poder que está sendo implantado no Brasil por este grupamento que chegou ao governo federal. Nunca na história deste país um presidente da República foi tão humilhado publicamente como ocorreu neste evento. Mas há razões de sobra para isso. Somente espíritos livres são capazes de ver e de agir.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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