É nosso papel administrar a crise do capitalismo?

“Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar.”

Nelson Rodrigues.

A falência estatal, apenas agravada pela quarentena social mundial, é a prova da dependência submissa do Estado à economia e, por consequência, da sua condição de instrumento auxiliar indispensável à segregação social que lhe é implícita.

Dessa forma, é elementar a conclusão de que quem se opõe ao capitalismo, e não quer apenas humanizá-lo por caridade social parcial ou oportunismo político, não deve administrar a sua crise político-estatal conexa à debacle de sua forma de relação social em colapso funcional.

Os marxistas tradicionais, aliados da luta de classes, posicionando-se em prol dos trabalhadores, mas sem questionar o instrumento de base da existência das classes sociais, ou seja, sem questionar a própria condição dos trabalhadores abstratos produtores de valor pela via da produção de mercadorias, estavam equivocados.

Ao invés de condenarem a condição de trabalhadores assalariados, produtores da riqueza abstrata expressa em valor (dinheiro e mercadorias, daí o termo trabalho abstrato), exaltaram a figura do trabalhador como móvel irreversível da revolução socialista que levaria a classe operária ao paraíso.

Hoje os trabalhadores desempregados pressionam mais que os empregados, que perderam força reivindicatória e mendigam por empregos e salários, ou seja, humildemente rogam por um pouco mais de escravização pelo salário.

O que se viu, e não podia ser diferente, e que após cumprida a etapa do desenvolvimento capitalista estatal retardatário intramuros (fecharam as fronteiras como forma de antídoto contra a dominação mercantil externa, mais desenvolvida, e o estado passou a ser o único patrão extrator de mais-valia), que deu certo inicialmente, apesar do comportamento stalinista ou maoísta de verdade absoluta unilateral e injustiças e mortes contra dissidentes, foram obrigados a abrir suas fronteiras como neocapitalistas aptos ao confronto épico de mercado.

Mas, apesar de se dizerem marxistas, deixaram de cumprir os ensinamentos do mestre que vaticinava a inviabilidade das relações capitalistas por seus próprios fundamentos e contradições, e que, portanto, as relações de produção deveriam caminhar para a extinção das categorias capitalistas e, dentre, estas, principalmente, a superação do Estado e do trabalho assalariado, por ele denominado de abstrato, por razões óbvias.

Na verdade Marx foi traído pelos ditos marxistas, que mais não foram do que capitalistas de Estado, e como tais, traidores da própria classe explorada que diziam defender. A foice e o martelo nas bandeiras ditas comunistas, símbolos do trabalho, incensaram o trabalhador abstrato sem explicar que Marx propugnava por sua própria superação enquanto tal (Hitler também incensava os trabalhadores e o trabalho abstrato, cujo dístico na entrada dos campos de concentração trazia a sentença: o trabalho liberta!!!).

O que são a Rússia e a China senão Estados capitalistas alicerçados sobre formatações políticas ditatoriais e fadadas à falência, tanto no aspecto político como econômico, juntamente e concomitantemente aos seus aliados econômicos do ocidente, com quem interagem e disputam a hegemonia de mercado como o fazem todos os empresários do mundo capitalista, sejam eles os pequenos bodegueiros de Mossoró, ou a grande multinacional que se funde com seu concorrente para melhor dominar o mesmo mercado, num processo autofágico aparentemente interminável, mas destrutivo socialmente, e autodestrutivo da própria forma no longo prazo.

A verdade é que estamos chegando ao fim da linha. A queda do muro de Berlim, que foi entendida como o fim do comunismo e o apogeu definitivo do capitalismo, foi justamente o seu contrário.

Alguém, duvida de que os Estados nacionais estão (todos) falidos, aí incluídas as esferas estatais de sub-controles administrativos de regulamentações como os estados-membros e as prefeituras municipais?

Já não há mais produção de valor válido (advindo da chamada economia real, produtora e comercializadora de mercadorias) que propicie ao Estado o cumprimento das suas funções estratégicas capitalistas, ainda que justifiquem tais funções com o cada vez mais precário atendimento de demandas sociais básicas (saúde e educação).

A emissão de dinheiro sem valor tem prazo de validade estabelecido, e que está próximo do vencimento…  

O povo, iludido, clama pela presença do Estado pretensamente salvador, sem compreender que quem come do meu pirão prova do meu cinturão, como concebia qualquer senhor de escravos feudais.

O corononavírus, ao impor o isolamento social a contragosto dos governantes e produtores e comerciantes de mercadorias, que não admitem formas alternativas de produção e abastecimento, expôs e antecipou algo que já vinha se delineando desde os anos 70 do século passado, com a terceira-revolução industrial da microeletrônica: a mediação da forma social capitalista se contrapôs definitivamente ao conteúdo social de sua própria forma e está a nos impor dialeticamente um novo modo de produção e de organização jurídico-constitucional.

Hoje, dia em que escrevo este artigo, é o dia do índio. E nada mais elucidativo e didático daquilo que estamos expondo do que o choque cultural entre aqueles homens e mulheres que no dizer de Pero Vaz de Caminha, eram formosos e não tinham o menor pejo de exibirem as suas [vergonhas desnudas]”.

Podemos perfeitamente estabelecer uma analogia entre o ano de 1.500, quando aqueles ameríndios viram chegar do mar aquele barco gigante com aquelas pessoas com vestimentas estranhas e cheias de escorbuto, a quem os visitantes europeus consideravam como semi-humanos, quase animais.

A analogia se adequa ao estranhamento comum aos diferenciamentos grupais. Há atualmente uns poucos que dizemao invés de negar o capitalismo e seu aparelho de Estado, devemos recusar a administração da sua falência, ao mesmo tempo que devemos denunciar a sua obsolescência juntamente com todas as suas instituições” de um lado…

… Há os que dizem só a política e as eleições democráticas podem nos salvar da ditadura que é o seu oposto”, do outro lado...

E há ainda os que dizem “só uma ditadura militar pode pôr ordem na casa”, desconhecedores que são da nossa história recente e de tantas quarteladas inócuas mundo afora…

Não! Democracia burguesa não é o único contraponto à ditadura política militar ou eletiva (tais como a de Hitler e Boçalnaro, o ignaro, gostaria de instituir); a ditadura econômica não é o oposto da ditadura política; e o mercado não é a única forma de vida social possível.

È neste sentido que o voto nulo representa uma alternativa sensata, verdadeiramente emancipacionista, que visa questionar o que está posto politicamente e economicamente, e não uma postura de inocentes úteis aproveitada utilitariamente pelos que querem calar o povo, como se apregoa unanimemente por todos os lados.

Que a direita queira administrar o espólio falimentar dos seus parelhos de Estado e preservá-los como cidadelas inexpugnáveis de defesa da regulamentação legal, do controle monetário, e da indução ao desenvolvimento capitalista de que é beneficiária, é compreensível, ainda que aí fique demonstrada a sua insensibilidade social.

Mas por que a esquerda, com seu discurso pretensamente anticapitalista, humanista, deseja ocupar tal espaço político? Será por conta das migalhas de poder e financiamento dos seus partidos, de seus políticos e assessores? Será pelo bem intencionado (mas prejudicial, estruturalmente falando) movimento de atenuação das misérias sociais causadas pela capitalismo? Será que há um desejo inconfessado de solapar (o que jamais foi possível) por dentro tais instituições?

Qualquer resposta que se dê para a justificação da participação política da esquerda no processo eleitoral, considero incorreta, mesmo quando bem intencionada e não for meramente oportunista.

Não nos cabe assumir o desgaste popular inevitável em administrar um aparelho de estado falido e tentar dar-lhe uma feição humana.

Qualquer administrador público que assuma a cadeira estatal no presente estágio da debacle capitalista terá que preservar constitucionalmente as tarefas vitais do Estado, sob pena de cometimento de crime de responsabilidade, acusação de pedaladas; e coisas que tais…

Não devemos ter a ilusão, como propõem os partidos de esquerda, quanto à impossível retomada do desenvolvimento econômico linear mundial, até porque mesmo no apogeu desenvolvimentista do capital, nunca houve equidade na distribuição da riqueza socialmente produzida.

Está equivocado o Partido dos Trabalhadores, mesmo quando não pratica a corrupção e não concilia com políticos tradicionais corruptos, mas atua em defesa dos trabalhadores e jamais pretendem a superação de sua condição de trabalhadores, que corresponderia a sua autosuperação;

Está equivocado o Psol, pelos mesmos motivos anteriormente expostos, bem como como todos os partidos que legitimam, no parlamento ou nos governos estaduais e municipais, o processo desigual de representação eletiva democrático burguesa.

A realidade social caminha numa direção; o segmento político em direção oposta, e a história haverá de constatar tal inadequação de rumos.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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