Nós não vamos esquecer

“Quem é essa mulher/Que canta sempre esse estribilho/Só queria embalar meu filho/Que mora na escuridão do mar/Quem é essa mulher/Que canta sempre esse lamento/Só queria lembrar o tormento/Que fez o meu filho suspirar/Quem é essa mulher/Que canta sempre o mesmo arranjo/Só queria agasalhar meu anjo/E deixar seu corpo descansar/Quem é essa mulher/Que canta como dobra um sino/Queria cantar por meu menino/Que ele já não pode mais cantar”. Chico Buarque e Miltinho.

Neste domingo 31, contam-se 60 anos do último golpe militar e implantação da mais perversa ditadura a que o país foi submetido. Eu tinha por volta dos sete anos e por razões óbvias aqueles acontecimentos me eram indiferentes. Mas cresci, estudei, dediquei-me aos livros e pude compreender, desde muito cedo, o que isso significou para o Brasil. Aos poucos fui me dando conta do que significa um regime autoritário, do que é uma ditadura, do que invariavelmente e sem exceção está por trás dela, de como se traçam seus rumos e de quais são suas consequências na vida de um povo.

Por esses dias, na contramão do que propõe um certo presidente, haverá muito o que ler na imprensa sobre esses fatos. Em textos lapidares, academicamente corretos, embasados do ponto de vista histórico, consistentes como exame teórico de um regime de exceção, os leitores serão colocados a par do que houve, e com isso, felizmente, a memória desses anos terríveis será de alguma forma nutrida.

Nesta coluna, irei por outro caminho, trazendo à tona um dos fatos corriqueiros ocorridos no Brasil durante a ditadura militar. Que isso possa reacender a esperança de que nunca mais venhamos a viver essa triste realidade. Vamos ao fato.

Stuart Angel Jones, em que pese o nome, era um jovem brasileiro, filho de Zuzu Angel, uma figurinista e estilista de fama internacional. Ele era militante de uma organização de esquerda, o MR-8, cujos objetivos mais claros eram enfrentar os militares e devolver ao país a democracia espezinhada pelas botas dos generais, almirantes, brigadeiros e seus homens “terrivelmente armados”. Era preciso proteger o país do comunismo, diziam, como sempre dizem os golpistas.

Stuart Angel foi preso pelos agentes militares. Simplesmente desapareceu, supostamente atirado de um helicóptero em alto mar, depois de perversamente torturado nas dependências do quartel do Centro de Informações de Segurança da Aeronáutica.

Em uma das sessões de tortura, Stuart Angel foi arrastado em círculos por um jipe verde-oliva, a boca cuidadosamente presa ao cano de descarga do veículo, até morrer por asfixia, aos 25 anos, sob o olhar exultante de militares. Era junho de 1971.

Informada do que ocorrera ao filho por uma carta do militante político Alex Polari, também ele torturado nas dependências do mesmo quartel, Zuzu decidiu enfrentar os militares, denunciando o fato ao senador americano Edward Kennedy, que levaria a denúncia ao Congresso dos Estados Unidos.

Zuzu Angel era amiga de Chico Buarque de Holanda, a quem confiou a carta da qual extraio o trecho que segue: “Há dias recebi documento descrevendo pormenores das torturas e o assassinato de que foi vítima meu filho Stuart Jones, pelo governo militar brasileiro. Este documento está fora do país em mãos de um dos parentes americanos do meu filho mártir. Se algo vier a acontecer comigo, se eu aparecer morta, por acidente, assalto ou qualquer outro meio, terá sido obra dos mesmos assassinos do meu amado filho”.

Exatos doze meses depois de entregar a carta a Chico Buarque de Holanda, a 14 de maio de 1976, na saída do túnel Dois Irmãos, no bairro carioca de São Conrado, o Karmann Ghia vermelho em que Zuzu Angel se deslocava a caminho de casa foi intencionalmente interceptado por um outro veículo em que se encontravam dois homens. Morreria no local, sem jamais poder dar um enterro digno ao filho. Um crime político idealizado e executado pelos golpistas de 1964.

Centenas, talvez milhares de brasileiros foram barbaramente torturados entre 1964 e 1985. Em números oficiais, há algo em torno de 460 mortos ou desaparecidos. Incontáveis eram os “órfãos de pais vivos, filhos do talvez ou do quem sabe”, na impagável metáfora de Alencar Furtado.

Teatros foram fechados a golpes de baionetas e tiros de fuzil, artistas espancados, professores retirados de sala de aula com rostos ensanguentados, estudantes arrastados como trastes pelas ruas, mulheres violentadas em presença dos maridos e dos filhos, em nome de um nacionalismo fascista, sob a hipócrita defesa da “família, Deus, pátria e liberdade”.

Presidente Lula, desta vez o senhor errou feio. Nós não vamos esquecer!

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica