No pingo do mêi dia – JESSIKA SAMPAIO

Olhe, se tem uma coisa que é a cara de Fortaleza é luta constante do morador da capital à procura de uma sombra. Quem não conhece e quer um dia ir praquelas bandas, preste atenção como não se para perto do semáforo quando tem sombra de árvore na rua. A parada de ônibus, quando não coberta, precisa ter pelo menos um poste para que uma fila se forme na sombra da estrutura de cimento. Há também o grande dilema do trabalhador/estudante fortalezense ao entrar em um ônibus quando há opção de escolha de onde sentar:  “Qual o lado da sombra?”. Nesse momento a cabeça funciona mais ligeiro que imediatamente e decide em qual cadeira ele passará menos tempo com a cara para o Sol.

Nossas praias têm barracas, e não se vê muita gente torrando, não. Pelo menos não se via… Agora os “xóvens” estão frequentando a Praia dos Crush, a moda nacional da marca de biquíni feita da fita está fazendo sucesso e há uso da praia para banhos de Sol. Antes, pelo que me lembro, a gente ia era mais para comer batatinha, caranguejo, levar um baião com frango e tomar banho de mar. Sim, fui de família farofeira e como era bom!

Andar nas calçadas do Centro da Cidade também é acontecimento. É só prestar atenção que um lado da rua é lotado e outro não tem ninguém! Eu, pelo menos, penso logo assim: “Tô nem pagando promessa pra andar nesse Sol medonho!”. Somos um povo que gosta de sombra, mas que não para mesmo com o quengo pegando fogo. O vento alivia. O vento de Fortaleza é amigo. Sopra no cangote da gente e diz “Vai que vai dar certo!”. E a gente vai.

Acredito um pouco na médica que me falou que o fortalezense tem deficiência de vitamina D, eu mesma já tive, mas, morando aqui na Bélgica, vejo que a gente não tem medo de sol, na verdade, é Ele, o Sol, que nos faz seguir. Estando aqui no verão sinto prazer em sair para a rua e ir trabalhar, pedalar para o supermercado mesmo com o suor quase chegando no rego. Quando paro numa sombra sinto uma felicidade sem tamanho. Não é só a sombra que a gente gosta, é a relação Sol e sombra. É o que nos faz ir e dá, literalmente, energia, e a sombra com vento é parada para repor as forças.

Fiquei sabendo que aconteceram mais derrubadas de árvores em Fortaleza. Logo na Duque de Caxias, Centro da Cidade, lá ficará mais quente, e não haverá mais o afago da sombra ou do vento fresco vindo das árvores. Aqui sinto falta do vento. Se posso dizer algo para qualquer pessoa do mundo é que o Sol representa Fortaleza.

Poderia também começar a problematizar sobre as barracas de praia ilegais, o nosso saneamento precário, o sistema de escoamento de água terrível, o lixo na cidade, fruto de não investimento em educação, as buzinas e a falta de paciência que vêm quando o juízo está quente no meio do sol, isso tudo também é real. Mas há um outro lado, e eu, como alguém que sente saudades, quero priorizar nossa força vinda do Sol e a lembrança do vento que fala no pé do ouvido. Afinal, estou aqui do outro lado.

Jessika Sampaio

Curiosa, tagarela, viajante, feminista, caótica e contraditória. Ignorante sobre quase tudo e em constante aprendizado sobre o vazio da existência. Além de ser bicho humano, já atuei como jornalista, radialista, assessora de imprensa e de comunicação, coordenadora de comunicação e em lutas ambientais e LGBTQIA+. Em processo de aceitação da escritora que grita aqui dentro.

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