Natureza, causas e consequências do fanatismo

“Um fanático é um orador completamente surdo.”

Kahlil Gibran

O fanatismo é definido pela ciência médico-psiquiátrica ou pela psicologia como uma espécie de patologia psíquica.
Trata-se de um fervor exacerbado sobre um determinado tema ou causa (geralmente política ou religiosa) contraído a partir de convicções fundamentalistas que adquirem uma característica irracional e maniqueísta na qual determinadas concepções são admitidas como dogmas irrefutáveis ungidos por uma pretensa verdade comportamental absoluta.

Uma unidade de qualquer substância somada a outra de igual teor e juntadas uma ao lado da outra representam um quantitativo de duas unidades; mas quando misturadas podem representar uma única unidade de porção quantitativa diferenciada, ainda que da mesma substância. É que a resultante dessa soma pode ser alterada de acordo com o ângulo sob o qual está sendo analisada.

Este é um exemplo que busquei na lógica para definir a verdade relativa e absoluta sobre algo que é considerado como absolutamente verdadeiro: a matemática. Sob um determinado ângulo são duas unidades; sob outro ângulo é uma única unidade quantitativamente diferenciada. Os dois paradigmas estão corretos, dependendo de como se queira analisá-los.

É evidente que em questões sociais e religiosas, que não têm a mesma simetria quantitativa e qualitativa do exemplo matemático citado, a verdade não existe, posto que o pensar está sempre distante da verdade absoluta.

Em psicologia, os fanáticos são descritos como indivíduos dotados das seguintes características:
1. Agressividade excessiva;
2. Preconceitos variados;
3. Estreiteza mental;
4. Extrema credulidade quanto a um determinado “sistema”;
5. Ódio;
6. Sistema subjetivo de valores;
7. Intenso individualismo;
8. Demora excessivamente prolongada em determinada situação/circunstância.

Vivemos um momento da história mundial e brasileira no qual afloram os sentimentos mais apaixonados de adesões a projetos políticos conservadores ou progressistas dentro do conceito tradicional destes dois termos.

É a resultante inequívoca de uma insatisfação generalizada na qual cada um defende uma verdade que considera definitiva e redentora. Uma espécie de narcisismo intelectual individual que se soma coletivamente a determinados grupos cujos pensares se assemelham e neles encontram força.

Nelson Rodrigues, admitindo-se como torcedor fanático do futebol, dizia que “os outros são grandes, mas o fluminense é imenso”. Na política esta questão ganha dimensão superlativa.

Os conservadores acreditam que os bons princípios do passado foram desvirtuados criminosamente e precisam ser restaurados para o bem de todos; os progressistas querem que novos métodos de comportamentos sociais sejam adotados para o enfrentamento das questões novas surgidas, mas sem saberem exatamente qual é a questão de fundo; qual é a questão essencial de conteúdo, acima da forma.

O fanatismo coletivo é genocida.

Não há comportamento mais irracional humano do que as guerras, nas quais se matam pessoas que sequer se conhecem, e em nome de uma crença patriótica pretensamente ultrajada. De ambos os lados há verdades fanatizadas, e em ambas as partes há irracionalidade e desumanidade. Todos brigam e se matam, e todos estão previamente errados.

Para todos que se matam na guerra, mais do que uma legítima defesa, é a honra patriótica o que está em jogo (e a cantilena militarista explora tal sentimento); mas para cada lado individualmente a desonra está do lado oposto. Este é um conflito entre a verdade relativa e a verdade absoluta de cada um, que termina por revelar um substrato irrefutavelmente negativo: o fanatismo irracional.

O senso despreconceituoso tem visão onilateral da vida; o fanatismo tem visão unilateral preconceituosa, parcial e retrógrada.

O senso racional é o oposto do fanatismo que não admite e nem analisa a possibilidade de existência de alguma virtude em cada posicionamento do outro que lhe seja oposto e crítico.

O fanatismo se arvora de pretensas verdades imutáveis das quais seus membros são portadores e que devem ser defendidas a qualquer custo: daí a sua periculosidade.

O senso razoavelmente isento raciocina; o fanatismo se aproxima da paranoia delirante dogmática.

O perigo do fanatismo paranoico é que ele é individualmente assassino.

O que dizer daquele assassinato em Foz do Iguaçu, no Paraná, praticado por alguém que foi até a residência de uma pessoa que comemorava seu aniversário temático pró-Lula, mas que sequer conhecia o aniversariante, e armado de um revólver lhe desferiu um tiro mortal, e recebeu outro sem a mesma letalidade, tudo devidamente registrado por câmeras filmadoras que por si só contam a veracidade dos fatos?

O fanatismo gera a intolerância cega.
Quando nos debruçamos sobre os atos civis praticados na Alemanha contra judeus criminalizados politicamente e de modo absolutamente indevido como culpados pela miséria naquele país após a primeira guerra mundial (guerra iniciada pelo tirano Kaiser alemão que foi derrotada, e que sofreu a tirania imposta pelos vencedores como se o povo alemão fosse culpado pelos desvarios políticos e megalomaníacos militaristas), vemos quão perigosa pode ser a verdade coletiva manipulada pela comunicação de massa (usada por Joseph Goebbels, o zero-um 01 de Hitler), que, àquela época, era radiofônica e recém-criada, a internet da época.

O mundo vive um momento parecido com a véspera das guerras mundiais, mas agora com maior gravidade.

Àquela época o capitalismo apenas disputava hegemonia entre os países nacionais mais desenvolvidos e mais influentes em razão da segunda revolução industrial, e tinha espaços de sobrevida, como de fato se evidenciou após a morte de 3% da população mundial na segunda guerra, com o Plano Marshall e a reconstrução industrial e urbana europeia, japonesa, e de outros países menos atingidos pela barbárie belicista da guerra.

Agora o cenário é outro. Não se trata apenas de uma mera disputa hegemônica entre países (que também existe agora sob a forma de blocos de países), mas de uma luta pela sobrevivência diante de um capitalismo que se autodestrói pelos seus próprios fundamentos. Um câncer intestino que está a se metastizar sem que se possa atribuir a sua ocorrência a comunistas comedores de criancinhas.

A concorrência de mercado, altar no qual se digladia o capital em busca de sua impossível reprodução na dimensão necessária, cria contradições autofágicas inconciliáveis que, ao mesmo tempo que são autodestrutivas da forma de sua própria essência e natureza (falta do necessário e indispensável crescimento continuado do valor cuja massa global que ora definha prenuncia seu próprio colapso, expresso na perda de representatividade de valor das moedas), causam a destruição de todo o tecido social, prenunciando um estado de barbárie.

As consequências sócio-materiais-ecológicas disto são tenebrosas.

Em geral, a maioria das pessoas sentem as dificuldades econômicas numa sociedade na qual tudo se mede pela mercadoria dinheiro, representação numérica do valor, que escasseia como substância advinda do processo de produção de mercadorias e tenta sobreviver artificialmente com emissão de moedas sem valor.

Paradoxalmente, o dinheiro, Deus da modernidade, é um ilustre desconhecido pelos que o adoram, seja na sua essência constitutiva ou como causa dos danos sociais imanentes a sua forma e lógica funcional, porque em geral não se ensinam a sua negatividade nos currículos escolares. As pessoas sofrem pela falta daquilo que elegem como vital, sem conhecer a sua desrtrutibilidade social e autodestrutibilidade intrínseca.

Como não sabem porque e como devem superar este modo de relação social que ganhou corpo e forma política nos últimos séculos (ainda que há milênios venha se formatando embrionariamente), a direção do descontentamento social é dirigida para a forma política, por vezes militarista-ditatorial, mais comumente com a alternância cansativa de projetos políticos tidos como conservadores ou progressistas, mas que funcionam sob uma mesma base lógica subtrativa e criminosa: o capitalismo.

Quando Boçalnaro, o ignaro, assumiu a presidência disse enfático: eu tenho menos poder do que eu supunha! Descobriu que a força do seu mandato, cheio de militares, é menos forte do que supunha, e que o poder político é relativo na sua soberania de vontade, mas, principalmente, é submisso e subserviente ao capital a que serve.

É claro que o governante político governa dentro de prévio balizamento, e apenas se equilibra no poder político estatal administrando a escassez nestes tempos de déficit econômico estatal, vez que as regras de poder político são ditadas pela lógica funcional e impessoal do capital, que é administrado pelos capitalistas que detêm o verdadeiro poder, o econômico, do qual se beneficiam socialmente (mas com data de vencimento), e sob a lógica do dito cujo e a ela obedecendo como um antigo servo escravo obedecia ao seu proprietário.

A frase “dinheiro não aguenta abuso”, tão repetida pelos empresários, denuncia tal submissão. O dinheiro dá ordens ao seu detentor empresarial.

Assim, o povo se digladia fanatizado, entre projetos políticos que estão longe de ter capacidade de superação (e de querer promover a superação) de um modo de relação social que se tornou obsoleto e necessita ser morto e sepultado.

Nada mais fanatizado do que uma parcela do eleitorado derrotado obstruir rodovias ou se postar à frente dos Comandos Militares do Exército, clamando por intervenção militar contra o que consideram ameaças dos comunistas; do antro de corrupção; da fraude eleitoral; e da restrição de liberdades, que estariam representados pelo governo recém-eleito de Lula numa frente ampla política composta por pensamentos doutrinários tão díspares (ou pretensamente díspares) como o de Guilherme Boulos e Henrique Meireles.

Na ausência de um norte correto, que indique a superação da causa mundial da queda social de poder aquisitivo e da falência do Estado no cumprimento das demandas sociais de suas incumbências constitucionais, e da indicação de alternativas que superem tal degradação social e ambiental grave, cresce a perigosa barbárie do fanatismo e da intolerância, que quando se alia à manipulação religiosa de charlatães que enriquecem às custas das contribuições dos fieis incautos, tudo vira fanatismo-religioso fundamentalista absolutamente temerário.

Não tenho dúvidas de que os militares não embarcarão nesta canoa furada de assumir um governo previamente falido, bem como não têm interesse em provocar um tensionamento social capaz de levar o Brasil a uma guerra civil cujo final seria imprevisível.

O problema está momentaneamente adiado, porque o desemprego estrutural e a queda renitente do PIB brasileiro não são uma marolinha, e esta corda esticada pode arrebentar nos próximos anos a continuarmos apelando para o uso administrativo de receitas velhas para a solução de problemas novos (ou antigos que agora se agudizam).

Dalton Rosado.

Dalton Rosado

Dalton Rosado é advogado e escritor. Participou da criação do Partido dos Trabalhadores em Fortaleza (1981), foi co-fundador do Centro de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos – CDPDH – da Arquidiocese de Fortaleza, que tinha como Arcebispo o Cardeal Aloísio Lorscheider, em 1980;

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