Natal do Coração

Em 2016, quando ganhou o Nobel de Literatura, não foram leves (muito menos embasadas) as vozes que se levantaram mundo afora contra a premiação. Afinal, Bob Dylan era um nome da música pop internacional contemporânea. Como não se tratasse do poeta de rara sensibilidade e dotado de pleno domínio da carpintaria poemática.

Sete anos depois, ao lado de sua produção musical invariavelmente fértil ao longo desse período, Dylan volta em livro magnífico sobre a música inglesa e americana, notadamente aquela que embalou corações do mundo inteiro nos trinta anos que se seguiram à Segunda Guerra Mundial.

Trata-se do belíssimo “A Filosofia da Música Moderna”, que chega aos brasileiros pela Companhia das Letras. Fartamente ilustrado com fotografias e vazado numa linguagem sob qualquer aspecto rebuscada, e talvez por isso mesmo envolvente e agradável de ler, o livro nasce clássico e se coloca entre os maiores lançamentos do ano.

Como nos versos de Walt Whitman, que o próprio Dylan cantou à perfeição, desenha-se diante do leitor o ser dialético que o bom conhecedor de poesia tanto ama: “Me contradigo?/Tudo bem, então me contradigo,/Sou vasto, contenho multidões”.

O comentário, que faz parte de um projeto despretensioso de incentivo à leitura (e fomento à fruição artística), e que tem sempre merecido a melhor atenção do público, em sua totalidade interessado em ficar em dia com a produção cultural do país e do mundo, suscitou muitas mensagens de acolhida, por e-mail e WhatsApp, sobretudo. Para muita gente, além dos textos do blog (alderteixeira.blogspot.com.br) e do jornal Segunda Opinião, esse projeto vem se constituindo num estímulo à cultura: literatura, música e cinema à frente.

É esta a razão por que chega a minha vez de agradecer a todos. Ao fazê-lo, gostaria de frisar o interesse demonstrado sobre o artista americano, compreensivelmente pouco conhecido da maioria das pessoas que se manifestaram sobre o comentário em pauta. Natural, uma vez que, afora os verdadeiros entusiastas da música pop, Dylan não alcançou entre nós o prestígio, digamos, dos Beatles ou mesmo de Elvis Presley, para destacar os maiores. É claro que me refiro ao grande público, a quem o acesso à obra de Bob Dylan só mais recentemente se tornou possível. Muitas dessas mensagens, por exemplo, sugerem que volte a falar sobre o Dylan-poeta, como a revelar, inconscientemente, algum preconceito em face de sua premiação pela academia sueca.

Nada surpreendente. Ocorreu o mesmo, entre nós, a Gilberto Gil quando de sua indicação para a ABL. É que existe de fato certa dificuldade do público em compreender que os critérios de avaliação são diferentes para o que se convencionou chamar de “letra” na perspectiva da poesia “de papel”*: nesta, é fácil estabelecer como se estruturam os versos, como estão escandidos, que notação rítmica pretende o autor na composição do poema, enquanto naquela esses critérios obedecem à forma como os versos são cantados, como soam ao sabor de entoações que ressaltam os efeitos rítmicos, sonoros — a musicalidade propriamente dita.

O que importa, contudo, a fim de que se evitem julgamentos apressados e desprovidos de embasamento teórico, é pontuar que numa e noutra, isto é, na poesia da letra e na poesia “de papel”, a verdadeira força estética reside no sentido, na mensagem, ainda que literatura seja antes de tudo “forma”. Mas esta, ressalte-se, nunca se desprende do conteúdo. Não existe forma sem conteúdo, mesmo na pintura abstrata, na música erudita, nas edificações arquitetônicas, na poesia concreta, no espetáculo de dança, nas instalações e nas performances corporais. Se é linguagem, é sentido, é expressão de ideia, de sentimento, de emoção, de percepções de mundo etc.

E é sob aspecto, por último, que, em relação a Bob Dylan, cometem-se as mais equivocadas avaliações, como se suas letras não estivessem carregadas de imagens poéticas desconcertantes, mesmo quando constituem narrativas, discursos sobre a realidade política, as subjetivações de toda ordem, o amor, a perda, a saudade e o sonho. Não sem razão, pois, é que algumas dessas letras — ocorre-me lembrar de “Talking New York” (O Assunto é Nova York) — parecem ser faladas e não cantadas, mesmo em disco.

Sobre a sua poesia, a sua literatura, no entanto, voltarei a falar depois, não sem antes aproveitar para desejar a todos os leitores um Feliz Natal. A propósito, é oportuno lembrar que fez um disco dedicado por inteiro à data, cuja venda foi totalmente doada a pessoas pobres: “Christmas in the Heart” (2009), é como se intitula.

Dylan tem bom coração.

*O termo foi criado pelo pesquisador e poeta Álvaro Faleiro, da USP.

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

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Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica