Narradores de Javé: tensões e salvação pela palavra – Por Charles Ribeiro Pinheiro

“Narradores de Javé” é uma narrativa sobre narrativas. Lançado em 2003, com direção/roteiro de Eliane Caffé e roteiro de Luís Alberto de Abreu, conta com José Dumont; Gero Camilo; Rui Resende; Luci Pereira; Nélson Dantas; Nélson Xavier no elenco. É um dos filmes brasileiros mais premiados das últimas décadas, além de suscitar ricas e variadas possiblidades de interpretação. 

O título do filme chama atenção por dois elementos essenciais de seu enredo: “Javé”, cenário da história, cidade pobre do interior da Bahia, que precisa ser salva de uma futura inundação, devido a construção de uma barragem hidroelétrica; e “narradores”, substantivo no plural, que corresponde aos habitantes dessa cidade, não apenas personagens, mas um conjunto dinâmico e polifônico de vozes, materializações efêmeras das experiências e histórias do povo. Portanto, o filme conta a luta de um povo para reconstituir a sua história, através da oralidade, para salvar a sua cidade da inundação. 

O protagonista do filme é o próprio ato de narrar. Isso foi meticulosamente construído no roteiro de Caffé e Abreu. Quando nós narramos uma história, abrimos conexões. É assim que os humanos se comunicam desde o início dos tempos – contando histórias e nutrindo conexões. Contar histórias é universal e tão antigo quanto a humanidade. Antes de haver escrita, havia o ato de narrar. Ocorre em todas as culturas e em todas as épocas. Ela existe (e existiu) para entreter, informar, educar e promulgar tradições e valores culturais.

As pessoas, ao narrar histórias, dão forma as suas experiências e aos significados que essas experiências têm para suas vidas. Todas as culturas e sociedades também possuem suas próprias histórias sobre seu passado e seu presente e sobre sua visão do futuro. Essas narrativas incluem histórias de grandeza e heroísmo, ou de dor e sofrimento.

A população de Javé, ao tomar conhecimento da construção da hidroelétrica, fica revoltada e busca um meio de preservar a sua terra. Zaqueu, narrador da história, explica ao povo que a cidade só não será inundada se tiver algum patrimônio, algo importante, ‘história grande’, segundo os engenheiros da hidroelétrica. Contudo, os moradores não têm nada material que registrasse a história da cidade, visto que quase todos são analfabetos. Isso poderia ser interpretado como um descompasso civilizacional, devido às desigualdades socioeconômicas e aos descasos anteriores dos governos e autoridades, porém, também revela que a escrita e leitura, no dia a dia desses moradores, não tinham serventia prática e costumeira. Como diz o personagem Antônio Biá: “— Não existe nada de importante para ser registrado nesse fim de mundo”. 

Nesse ponto, percebemos o conflito entre uma concepção de História oficial, pautada na tradição escrita do papel como documento válido e científico e a tradição oral do povo, suas histórias, suas memórias, vivências. Os moradores têm consciência de que são despossuidores dos conhecimentos formais de comunicação e atribuem importância ao registro escrito por saberem que os donos da hidroelétrica prestigiam o poder do papel como valor de verdade e de autoridade. Então, surge a ideia de registrar a fundação da cidade no “Grande Livro da História de Javé”, provando que ela é um patrimônio importante. 

Mas, há um impasse, “— e como vamos juntar as histórias, se elas estão na cabeça?”, diz a personagem Maria. Para realizar a tarefa de ouvir as narrativas do povo e passá-las para o papel, caberá a Antônio Biá, único morador com domínio da escrita, malandro talentoso em inventar histórias. Biá é odiado em Javé, pois espalhou cartas difamatórias sobre os moradores da cidade para as localidades vizinhas, para garantir o seu emprego no posto dos Correios. Biá é ‘catado’ pelos moradores e, depois de relutar, aceita a épica tarefa de escrever a “História” de Javé, isto é, no singular.

Então, Biá percorre a cidade, ouvindo os relatos dos moradores. De modo bem humorado, ele entrevista Seu Vicentino, Deodora, Firmino e Pai Cariá, além dos gêmeos e Daniel, em que cada personagem dará a sua versão da fundação de Javé. Cada personagem quer atribuir uma importância a si em relação à origem da cidade, ao narrar a história, de modo alegórico, afirmando sua descendência dos heróis fundadores. 

O primeiro entrevistado, seu Vicentino, diz ser descendente de Indalécio, fundador da cidade, cavaleiro que remete a figura de um São Jorge sertanejo. Indalécio liderava um grupo que esteve em guerra contra a Coroa portuguesa que se evadiu para o sertão. É uma narrativa heroica, épica, que relata os bravos feitos do fundador, sacralizando-o.

A segunda entrevista, Deodora, declara ser descendente de Mariadina, verdadeira fundadora da cidade, porque, após a morte de Indalécio, guiou e protegeu o povo no sertão. Ela encontrou e estabeleceu o lugar que seria a futura Javé, e, em cima de um monte, cantou as divisas do povoado.

Ao contrário dessas versões heroicas e míticas, o personagem Firmino conta uma narrativa paródica e humorada da fundação de Javé, ao narrar que Indalécio morreu de dor de barriga, obrando, e que Mariadina era uma louca, espécie de bruxa. 

Em seguida, Antônio Biá é acompanha o personagem Samuel a uma comunidade quilombola, próxima a Javé. O patriarca da comunidade, Pai Cariá, narra, em iorubá, a fundação de Javé, descrevendo Indaleo (Indalécio de sua versão) como um homem negro, jovem e forte, que guiou o seu povo até uma cachoeira, casa de Oxum, mãe das águas. Samuel traduz para Biá a contação do Pai Cariá, que, em transe, rediz as palavras de Indaleo: “— A África agora estava ali com eles”. Isso enriquece as narrativas da fundação da cidade, criando elos ancestrais com a África, gerando uma multiplicidade cultural.

Ao longo do filme, os personagens se zangam, pois Biá ouve todos os relatos, mas não escreve nada. Indagado, ele diz que “— a história é de vocês, mas a escrita é minha”. Mesmo procrastinando a tarefa por esperteza, ele como um narrador percebe a multiplicidade de versões sobre a fundação da cidade. Cada personagem dá uma versão do mito de origem, atribuindo a si o protagonismo perante a comunidade. Portanto, o que era para ser a “História” de Javé, torna-se dissenso, uma polifonia de vozes, uma disputa de poderes simbólicos. 

Essa ‘confusão’ de narrativas nos remete ao que diz o pensador Walter Benjamin, no seu ensaio sobre o conceito de história, em que ‘a história é objeto de uma construção, cujo lugar não é o tempo homogêneo e vazio, mas um tempo saturado de agoras”. A multiplicidade dos fragmentos revela memórias incompatíveis. Antônio Biá, ao ouvir o relato de Vicentino, declara que ainda estava muito simples, que precisava acrescentar mais algo, pois “— uma coisa é o fato acontecido, outra é o fato escrito.” Como arteiro cronista, ele constata que há uma impossibilidade de uma única representação da história da origem de Javé.

Ao longo do filme, como já foi citado, há esse conflito entre a ideia e valorização de uma representação da origem da cidade como uma história oficial, visto que os capitalistas, as autoridades só reconhecem o valor de patrimônio a algo se houver documentos, registros materiais, provas científicas. Porém, existem as experiências que o povo preservou através da oralidade, da imaginação. A memória como um artifício da cultura mantém a coesão de um grupo. Como diz o geografo Milton Santos, a cultura é o cimento que une as pessoas.

Os conflitos existem no filme porque cada personagem constrói um discurso de sua identidade individual como um símbolo da identidade coletiva de Javé. Por isso, há pressa dos moradores em registrar suas histórias, pois o que é o povo sem o relato das experiências de seus antepassados?

Ambas são importantes, a fala e a escrita, pois são modos de comunicação, de continuidade de saberes, de tradições. A escrita servirá como o registro da oralidade, em que as narrativas dos outros serão lidas por outras pessoas além do tempo e do espaço. As narrativas preservam as experiências e saberes, mantendo as culturas vivas se forem passadas adiante, de geração em geração. Os moradores de Javé buscaram a salvação pela palavra. Mesmo sem ter êxito contra as águas, as palavras permanecem e permanecerão com eles, aonde forem, a dar corpo a novas histórias de migrações e de lutas. Essas são belas reflexões que o filme de Eliane Caffé proporciona continuamente.

Charles Ribeiro Pinheiro

Charles Ribeiro Pinheiro

Charles Ribeiro Pinheiro é Professor de Literatura, com graduação em Letras pela Universidade Federal do Ceará (2008). Mestre em Literatura Comparada pela UFC (2011) e Doutor em Literatura Comparada (2019), também pela UFC, com pesquisas sobre a obra ficcional e polêmica do escritor naturalista Rodolfo Teófilo. Coordenador do projeto de extensão e docência “O entre-lugar na Literatura cearense” (2015-2018). Premiado no XII Edital Mecenas da Secretaria de Cultura do Ceará (2019). Além de roteirista de quadrinhos, é autor de livros didáticos e conteudista de Literatura.

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.