Não tá no gibi     

 

Quando criança, pensava que a vida era simples. Na semana, o colégio; no fim-de-semana, diversão em algum clube, praia ou incursões em casas de amigos. Quando o absoluto tédio o assolava descobria, em jogos de tabuleiro (distantes reminiscências dos anos 1980), um frágil conforto para a doença do ponteiro parado. 

Os jogos de tabuleiro, como o atestam séries como “Stranger Things” evocam sentimentos difíceis de serem traduzidos aos que não viveram a aventura da infância despreocupada dos anos 80. Era comum a sociabilidade, interação, sentimento de pertencimento entre amigos. Além de demonstrações de desonestidades episódicas.

Mas quando ele não encontrava alento naqueles jogos de papel, ou quando estes já estavam muito manjados – ou mesmo quando ele se encontrava sem amigos para acompanhá-lo na conquista de 24 territórios ou na luta pelo controle do mercado imobiliário – havia outra estratégia.

Despojado de outras possibilidades existia ainda a leitura: último refúgio ao menino preguiçoso e entediado. Sem TV (programas tolos e poucos canais), sem amigos e sem jogos a vida em câmera lenta era uma tortura. A luz do sol vespertino parecia estática em seu ângulo de invasão da janela daquela cozinha.

Uma solução emergia como um U-bolt à cata de embarcações-enfado no oceano do tempo parado: pequenos livros, em papel jornal, cores fortes, poucos diálogos envoltos carinhosamente em balões de diálogo e figuras, muitas figuras, dando ao leitorzinho um mundo bem óbvio da trama desenvolvida ali. Satisfação garantida. Literatura fast food em estado puro.  

Esparramado no sofá, dando uma de leitor veterano, o menino lia gibis à la pampê, sentindo-se um intelectual puro (sic). Sim, por causa do gibi… te juro! Vai explicar… Eram suas companhias as orelhudas, cabeçudas (e absolutamente maravilhosas) personagens de Maurício de Sousa, o “Recruta Zero”, “Didi e Os Trapalhões”, quando não tirinhas de jornais, incompreensíveis porém curtas… deliciosamente curtas.

Mas a vida era simples. Cada quadro, uma informação bem mastigadinha. Cada ação das personagens era bem explicada e não ambígua. Era como a vida do garoto: quadro a quadro obviedades, conforto, entretenimento, cores fortes… tudo bem explicado. Nada ocorrendo fora do quadro. E quando a palavra “fim” visitava o canto inferior direito do quadrinho… era fim mesmo… irrevogável. 

Conforme ia crescendo, porém, ele encontrava novas formas de gibis. Um passo importante foi apresentado por uma querida amiga de escola. Quando ela perguntou se ele conhecia “Garfield” o garoto nem sabia direito de que se tratava. 

 

– Você quer levar pra sua casa? Eu te empresto.

– Sim! Claro que quero. Devolvo na segunda.

– Diz pra mim se gostou. Mas não tenha pressa. Pode demorar com ele.

Em casa o menino lia. Por vezes ria, outras sequer entendia a fina ironia à la Jim Davis. Quando devolveu o gibi a sua amiga percebeu: há algo além dos quadrinhos, entre os quadrinhos, como que habitasse no espaço branco e indefinido inter bordas. Era a vida, a arte e os quadrinhos que se complicava. 

O coup de grâce viria com “O cavaleiro das Trevas” apresentado por seu irmão. Este o explicava que a DC Comics dera autonomia a Frank Miller para retratar o Batman de uma maneira mais fiel, i.e., sombria, atormentada e ambígua. O nome gibi fora substituído pelo pomposo “HQ”. Um status de arte que se refletia nas temáticas, nas personagens (mais psicologicamente complexas) e na estética dos quadrinhos… aliás, às vezes não eram mais “quadrinhos”. As bordas extrapolavam-se. Na vida, na arte, na psique. 

O susto do menino ao ver uma versão totalmente diferente daquele homem-morcego da TV foi profundo. Lembre o leitor/a que ainda não havia versões cinematográficas dos dramas de Gotan City pela ótica mórbida de Tim Burton. Quando lia o Batman de Frank Miller o menino tinha Adam West na cabeça… sentiu o drama, leitor/a? O menino mudava junto com a visão pueril de seus gibis. 

Mais ou menos na mesma época outra querida amiga apresentou ao menino (agora jovem) outro HQ sombrio. Lendo “Sandman” de Niel Gaiman teve a certeza de que nada seria como antes, nem a vida, nem a arte, nem os sonhos. Não dá para descrever o que é aquilo… nem na época, nem agora.

Hoje a indústria de histórias em quadrinho representa um empreendimento gigantesco com mercado multinacional sólido. Alberga vários artistas, verdadeiros gênios de desenho, roteiro e intrigas. Uma arte acessível e elaborada e, não raro, saindo das páginas para a vida e cultura de milhares de aficionados que movem um mercado difícil de acreditar. (difícil mesmo!)

Entretanto, muito além dos mangás e cosplays, ele continua admirando o mundo das histórias desenhadas. A vida mudou, os quadros foram transbordados e a existência teima em fugir dos enquadramentos: no cotidiano, na arte e na política. Tudo isso o faz ter a noção de que há coisas no real vivido que transbordam os limites. Nossa vida… não tá no gibi. 

Mas cada vez que a vida aperta e nega a si mesma, ele lê Schulz e seu amável beagle… então ri feito criança. 

Renato Angelo

Mestre em políticas públicas, professor universitário, pesquisador, poeta e contista

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