“Não farás para ti imagem alguma…” – EMANUEL FREITAS

Durante o ano de 2016, sobretudo após a queda de Dilma Rousseff (PT), os atores da operação Lava Jato foram acumulando prestígio social, sobretudo dois deles: Sergio Moro e Deltan Dallagnol. Este, o procurador par excellence da operação, apresentava-se, naquele ano, em seu twitter como “procurador por vocação” e “seguidor de Jesus” (agora, pode-se ler somente “procurador da república e coordenador da LJ”).

Sim, segundo se lia, sua profissão era expressão de uma “vocação”, um “chamado” (divino, talvez?) e era lustrada por seu seguimento a Cristo. Naquele ano viu-se algumas vezes o procurador a visitar templos evangélicos, receber orações e orar, como alguns de nossos candidatos costumam fazer.

Mise em scène!

Numa de suas visitas a uma dessas igrejas, disse o seguinte: “Na minha oração de hoje, pedi duas coisas. A primeira, que todos saiamos daqui edificados para fazer mais justiça. A segunda, como estamos em ambiente noturno, foi para que vocês não dormissem”.

Tendo visto já inúmeras vezes sua fala, até entendo o pedido a Deus para que seus irmãos “não dormissem”; mas não sei o que significaria o primeiro pedido: “todos saiamos daqui edificados para fazer mais justiça”. Seria uma nova versão, cristifcado, do “justiça por meios próprios”? Um populismo justiceiro?

Pois bem, enquanto fazia essas pregações, a julgar como verdadeiras as revelações do The Intercept com alguns órgãos da imprensa nacional, o procurador “por vocação” agia por meios nada “edificados” para os resultados esperados com a Lava Jato.

Esta semana ficamos a saber que Dallagnol esboçou, naquele mesmo ano de 2016 em que se apresentava como “seguidor de Cristo”, intenção de ver erigido um monumento em homenagem à operação, da qual é o principal nome, abaixo de Deus-Pai, quer dizer, Sergio Moro.

Como necessária “estratégia de marketing”, disse ele no grupo do Telegran, seria de bom tom um monumento que fosse “algo como dois pilares derrubados e um de pé, que deveriam sustentar uma base do país que está inclinada, derrubada. O pilar de pé simbolizando as instituições da justiça. Os dois derrubados simbolizando sistema político e sistema de justiça…”.

Sim, o procurador intentava algo que mostrasse um país em destruição, cuja base jazia “derrubada”, e no qual apenas a justiça (leia-se “A Lava Jato”) permanecia de pé. O sistema político, graças a eles, ruíra!

Deltan justificou seu desejo:

“Isso virará marco na cidade, ponto turístico, pano de fundo de reportagens e ajudará todos a lembrar que é preciso ir além”.

Mais espetacularização, impossível! Ponto turístico, algo antinarcisíco a ser visitado: “eis aqui o monumento à nossa destruição!”, diríamos nós ao visitarmos.

Mas, o que seria esse “ir além”? A beatificação? Ouso pensar que, por ser evangélico, não seria isso. Evangélicos não cultuam “santos”. Será mesmo?

Bom, como evangélico, Deltan deve conhecer bem a famosa passagem utilizada para que os seguidores desse credo se oponham aos católicos; diz o livro do Deuteronômio, capítulo 5, versículo 8:

“Não farás para ti imagem de escultura, nem semelhança alguma do que há em cima no céu, nem em baixo na terra, nem nas águas debaixo da terra. Não te encurvarás a elas, nem as servirás”. O livro do Êxodo, em seu capítulo 20, afirma o mesmo.

Assim, o monumento/imagem/escultura do que há “em baixo na terra” pensado por Dallagnol contrariaria um dos mandamentos do Altíssimo, o pai daquele que dizia ser “seguidor”. Mais ainda, servindo como “ponto turístico” ou “marco da cidade” levaria os brasileiros, sobretudo a imprensa (como ele mesmo sugeriu) a “curvar-se”. Novamente, a “ira do altíssimo” seria atiçada!

É, caso sejam verdadeiras as conversas reveladas, o procurador poderia sugerir um novo monumento: uma coluna derrubada (como ele queria, a Justiça), uma coluna em reconstrução (a classe política) e uma em processo de desmonoramento, a Lava Jato.

Sim, como nos ensinaram Marx e Engels, “tudo que é sólido desmancha-se no ar”, inclusive a pretensa posição acima do bem e do mal da LJ.

Talvez, ter tirado o “seguidor de Cristo” de sua descrição no twitter tenha feito o procurador esquecer os mandamentos!

Emanuel Freitas

Emanuel Freitas

Professor Assistente de Teoria Política Coordenador do Curso de Ciências Sociais FACEDI/UECE Pesquisador do NERPO (Núcleo de Estudos em Religião e Política)-UFC e do LEPEM (Labortatório de Estudos de Processos Eleitorais e Mídia)

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