Na Hora do Almoço – Heliana Querino

Tentando manter a posição ativa, a vendedora se senta no banquinho do caixa, com a cara estressada, e se queixa para a colega da loja vizinha: 

 

– tu já almoçou, amiga? Hoje preciso comer rapidamente. Reduziram o horário de almoço, mas não aumentaram o salário. E quem não aceitar será demitido.

– Pois é, não temos nem tempo para comer. Nesse rumo das coisas, temos menos tempo do que os escravos antigos. Aos olhos de nossos patrões, nunca trabalhamos o suficiente. Não querem fechar a loja por duas horas, nada de interrupção. Medo de perder clientes…

 

– É verdade, li numa revista daquela banquinha da praça, que na Argentina tem supermercado obrigando as funcionárias a usarem fraldas para não perderem tempo indo ao banheiro.

– Vixe, amiga, serão os mesmos donos de supermercado do Paraguai que, há alguns anos, causaram dezenas de mortes ao fecharem os portões durante um grande incêndio no interior da loja, para evitar que os clientes saíssem sem pagar?

– Credo, que conversa é essa na hora do almoço? Que agitação pessimista, parece coisa de esquerda.

– Coisa de esquerda? É isso que pensa? Eu cresci no campo. A vida era dura. Mas todo dia a família inteira, quatro gerações, passava duas horas almoçando e conversando. Tenho um livro de Marx e li recentemente que, no século XVI, os operários ingleses tiveram o direito de de três horas e meia para almoçar, escrito nas leis sobre o trabalho. Dois séculos depois, os operários ingleses só podiam comer na fábrica… sem parar de servir a máquina.

 

– Tão filósofa, a senhorita… Ah, mas pelo menos temos mais dinheiro agora. É o progresso!

– Tu acha? Onde está o progresso? Esses alimentos não têm sabor. Comíamos muito, muito melhor no campo da minha infância. Era uma alimentação básica, tudo da roça ou do quintal… mais do que  apenas sabores! E nem quero saber o que utilizam para conservar estes produtos que vêm de longe.

 – Sossega, amiga, felizmente amanhã é domingo e podemos comer em família.

– Em família… com meu marido e os filhos hipnotizados com o celular ou a televisão…

 – Você é exageradamente pessimista! Não gosta de nada!

 – Desculpe se te estrago o almoço… Mas, às vezes é necessário pensar numa pequena coisa, como um almoço, para compreender quantos assuntos na vida deveriam mudar!

– Fala baixo, mulher, lá vem o dono da loja. Olha, esse filho dele como cresceu rápido, o menino já parece um rapaz.

 

–  Filho, comprei todos os alimentos orgânicos. É importante para a saúde. 

  – Mas não são muito caros, papai? 

  – Sim, claro. Mas somos uma família que pode se dar ao luxo. Nossa rede de lojas funciona bem. Ganhamos muito. Principalmente depois que decidi abrir diariamente, sem interrupção.

– Mas…  significa gastar mais em salários, papai? 

– Não, filho, porque reduzi gradualmente o horário de almoço das vendedoras. Trabalham mais pelo mesmo salário.

– E aceitaram? 

– Você acha que elas querem perder o emprego? Como pagariam o condomínio?

– Mas não é uma injustiça?

 

– Não é, porque cada um, se trabalhar duro, pode se tornar rico em nosso país. Eu também passei muitos anos almoçando na minha mesinha para continuar inventando estratégias de marketing para as minhas lojas. Comer é uma perda de tempo para quem deseja ganhar dinheiro.

 

 – Mas papai…

 

– Filho, o Brasil deve superar este interesse de querer comer toda hora. É suficiente comer bem no domingo. Por que os Estados Unidos e a Inglaterra são os países mais ricos? Por que não lhes interessa comer. Isto é a desgraça da nossa história: ser colonizados pelos portugueses que sempre pensam em comer. Que tivessem ficado os holandeses!  Eles não têm cozinha, nutrem-se simplesmente e ganham o tempo para fazer negócios 24 horas.

 

– Mas, papai, então por que comprar alimentos orgânicos, se a alimentação não importa?

–  Porque são mais caros, e uma família como a nossa deve comprar o que o dinheiro permitir. Por que acha que temos uma biblioteca cheia de livros que nunca abrimos?

 

– Amiga, cuida, a maré tá pra “peixe grande”, vai esquentar tua quentinha ou vai comer fria mesmo?

– Sim, vou esquentar…  É… os explorados vivem mal, evidentemente… Mas os novos exploradores também vivem mal e nem conseguem comer direito, eles também estão alienados com o deus dinheiro.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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