MUSA MINHA, PERDÃO! *

A MUSA EM QUEM ME INSPIRO IRRADIA UMA BELEZA ANGELICAL, embora se enclausure em sua torre de cristal, erguida nas encostas escarpadas de um lago divinal: de águas límpidas, remansosas e transparentes. E, assim, ser de difícil acesso aparenta. Cumpre-me ser persistente.

A musa em quem me inspiro mescla perspicácia com experiência, estratégia com inteligência, autoridade com grandiloquência. É sábia sem menosprezar o conhecimento alheio. É justa: não admite fins que justifiquem meios. É sóbria: não estimula qualquer espécie de enleio.

A musa em quem me inspiro se protege com melindres, com exigências, com rigores. E pouco se importa se seu comportamento oscila entre humores. Nada de benesses, nem de favores. Não transige, não abranda, não perdoa. Tem duas almas gêmeas que entre si destoam: uma é má; a outra é boa.

A musa em quem me inspiro não aceita descortesias: advertiu-me brandamente quando percebeu que eu assistia às cenas de um político tradicional, um deus sem Norte, a expulsar, sem que do cargo a liturgia se lhe importe, com irritabilidade ruidosa e atitudes vulgares (que mau exemplo!), manifestantes das proximidades de seu (dele?!) inatacável templo.

A musa em quem me inspiro não admite hipocrisias: ameaçou-me com severas penas quando soube que eu insistia em conhecer de escutas telefônicas a transcrição, em que um deus do Olimpo tupiniquim ameaçava a paz de uma Nação, de um povo ordeiro, com discurso incendiário e, investindo-se do direito absoluto de uso de chulas expressões e palavras de baixo calão, autonomeava-se o ícone dos virtuosos, dos incensuráveis, dos impolutos.

A musa em quem me inspiro não perdoa constrangimentos: puniu-me severamente, com temporário perdimento – nem imagino por quanto tempo – de livre acesso aos seus ditosos alumbramentos, interpondo, entre mim e ela, virtuais objeções, cerceando-me o usufruto das miríficas inspirações, bem como construindo intransponível muro, em face de eu haver dado ouvidos à descortês metáfora lulática do “grelo duro”.

(…)

A musa em quem me inspiro parece sentir prazer em me ver aflito, desdenha o meu desespero no exato contraponto do meu grito, sorri, insensível e inalcançável, se lhe rogo a atenção, contrito, e, então, despreza-me por entender, embora erroneamente (capricho inaudito!), que aderi ao quimérico tropel dos que seguem um inepto, estulto e titubeante mito, que não se sensibiliza sequer com a exasperante e longa outonia de tantas folhas mortas e que mesclando arrogância, ignorância, incompetência, estupidez e insolência, revela-se um néscio, um frívolo, um deus menor a escrever torto por linhas tortas.

Oh, musa em quem me inspiro! O tempo dimana inexoravelmente… Todos nós mudamos inapelavelmente… A vida se esvai em corredeiras de águas nem sempre transparentes… embora fluentes… fluentes… A morte nos espreita, diáfana e translúcida, diuturnamente… E eu, amada musa amante, percebo-te cada vez mais distante… Perdão! Mas isso pra mim é deveras excruciante.

* Texto produzido para o Facebook em 22 de março de 2016, ora revisto e ampliado.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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