MUNDOS NO MUNDO

A palavra e a noção de religião têm um marco ocidental sob duas perspectivas latinas designando ao mesmo tempo releituras do mundo (relegere) como também estabelecimento de laços com o mundo e entre os humanos (religare). Impõe um olhar que divide a realidade entre o sagrado e o profano, enquanto oposições absolutas, como mundos separados um do outro. Segundo Geffré (2004) a noção de religião para designar uma dimensão estrutural da vida dos indivíduos e das sociedades originou-se a partir do século III sob a influência do cristianismo.

Por um lado o múnus da religião é o esforço de enxergar a realidade a partir da exigência de que a vida faça sentido. Se a ciência e a tecnologia avançaram decisivamente construindo um mundo no qual não é necessário invocar entidades sobrenaturais para explicar o seu pressuposto teórico, seu escopo metodológico e suas descobertas (por exemplo, um médico não precisa invocar Deus nem para explicar a pandemia do Covid-19 e nem sobre o tratamento contra a doença), a religião aparece no momento em que os recursos técnicos e científicos se esgotam não conseguindo evitar a dor batendo à porta pela ocorrência da morte de uma pessoa amada – por que se morre? – e nem explicar sobre a questão do seu destino final – para onde se vai? – a partir do seu desaparecimento. Afinal não é a dor que desintegra a personalidade, mas a dissolução dos esquemas de sentido. Portanto, das respostas a tais perguntas depende efetivamente a orientação que se imprime à existência.(Alves, 2008).

Em seus estudos sociológicos sobre as formas elementares da religião, Durkheim (2009) declara que a função da religião é fazer agir. O fiel que entrou em contato com o seu deus não é apenas uma pessoa que percebe realidades novas, mas sente-se capaz de realizar coisas novas. Sente em si mais força, seja para suportar as dificuldades da existência, como para superá-las. Afinal, o primeiro artigo de toda fé é acreditar na salvação por essa mesma fé. É preciso, portanto, que desse objeto amado emanem energias superiores às suas e que o fiel tenha algum meio de fazê-las penetrar em si e misturá-las à sua vida. É a ação que domina a vida religiosa, pelo simples fato de a sociedade ser a sua fonte.

Por outro lado, a elaboração de um imaginário é parte integrante de qualquer regime político. Por meio do imaginário se pode atingir não somente a mente, mas de modo especial o coração, os medos e as esperanças de um povo. Plasmar visões de mundo e moldar condutas. A manipulação do imaginário social é particularmente importante em momentos de redefinição de identidades coletivas e de golpes políticos. (Carvalho, 1990).

Entre os clássicos que realizam uma crítica contundente da relação entre religião e política, encontra-se Baruch Spinoza. Para o pensador, a teologia exige uma razão obediente e submissa, transformando o sentir religioso dos humanos em submissão a crenças e ritos, a dogmas que por definição não precisam ser demonstrados. Spinoza desenvolveu um método de pesquisa com o qual visou separar os produtos da imaginação e da fábula daquilo que poderia ser aceito como verdade, executando uma exegese que permitisse detectar incongruências e separar “o joio do trigo” na relação entre religião e política. (Chauí, 2003).

Também em sua análise sobre religião e poder, na obra “Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio”, por meio de uma metodologia de pesquisa de identificação de acontecimentos ou sequências de eventos no passado, Maquiavel (2007) buscou confirmar suas convicções, por meio da análise comparativa, acerca do seu tempo presente, uma vez que para ele “os homens vivem e morrem de acordo com as mesmas leis”. O pensador florentino decreta que a religião é o agente mais poderoso da manutenção da ordem em uma sociedade, em virtude do enorme respeito dos cidadãos aos deuses. Os romanos respeitavam mais os juramentos feitos aos deuses do que às leis da república por estarem convencidos de que a potência dos deuses era maior do que a dos homens. Ele constata também que quando se examina a história de Roma, é forçoso reconhecer que existia uma clara utilização da religião em favor dos interesses do Estado, afinal “a crença nos milagres nascia da simples autoridade dos sacerdotes e sábios como prova suficiente para os outros cidadãos”. Maquiavel demonstra o quanto a religião ensina a respeitar e a obedecer às regras políticas a partir do ensinamento religioso, assumindo tanto o procedimento coercitivo da disciplina e hierarquia militar, quanto o caráter persuasivo dos condicionamentos pedagógicos cívicos para a produção de pensamento único. O organismo político, ao utilizar-se da religião como forma de dominação popular, torna-se capaz de levar o povo a temer a desobediência do Estado como se fosse uma ofensa a Deus, uma vez que o mandamento divino contém uma eficácia maior para submeter os humanos.

O panorama político brasileiro foi profundamente alterado em sua dinâmica a partir do golpe parlamentar de 31 de agosto de 2016, consolidado com o afastamento de Dilma Rousseff (Partido dos Trabalhadores – PT) de suas funções presidenciais para as quais havia sido reeleita em 2014 pelo voto soberano dos eleitores, sem que houvesse cometido crime de responsabilidade, como determina a Constituição Federal. Em sua obra “A Democracia Impedida. O Brasil no Século XXI” (2017), o professor Wanderley Guilherme dos Santos demarca que a ciência política consagra golpe como um ato político de traição a alguém ou a alguma coisa. Santos adverte que investigar interferências golpistas como se essas se originassem em universo paralelo ao democrático é um equívoco: golpes parlamentares só existem em regimes de democracias representativas. Uma das táticas importantes, para que um golpe parlamentar possa ter sucesso, é conquistar o centro político habitado pela classe média por meio de duas ações básicas: incentivo a um imaginário de violência e de medo, além do aumento da percepção da corrução generalizada no país, em particular no âmbito político.

Foi esse contexto golpista que criou o clima e o ambiente político extremamente favoráveis para a construção da candidatura do capitão reformado do exército Jair Bolsonaro à presidência da República. Somando forças com diversas lideranças religiosas cristãs, de denominações evangélicas e católicas, ao se auto-definir como sagrado (mito), na ocasião da manifestação do seu voto a favor do impeachment, Bolsonaro demonstrava ter a clara determinação de instrumentalização da religião como ferramenta estruturante do seu plano para alçar o poder. Em 17 de abril de 2016, justificou seu voto com os seguintes fundamentos e estabelecendo uma evidente ligação histórica do golpe militar de 1964 com o golpe que os parlamentares estavam dando naquele exato momento: “Perderam em 64, perderam agora em 2016! Contra o comunismo! Contra o Foro de São Paulo! Pela memória do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o pavor de Dilma Rousseff! Pelo exército de Caxias, patrono das Forças Armadas! Por um Brasil acima de tudo e por Deus acima de todos! O meu voto é sim”. (Estadão, 2016).

Vê-se claramente que não se tratava apenas de um voto, mas de um conteúdo ideológico e um programa político em andamento disposto no seguinte formato: 1) com a clara definição de luta aberta contra o inimigo, definindo como profano” o PT e toda a esquerda brasileira; 2) com uma visão violenta, autoritária e militar do exercício da política, apologética da tortura na pessoa de Ustra; 3) além de uma concepção hierárquica e conservadora da sociedade.

O ethos da narrativa tramada pelo bolsonarismo, corrente política liderada por Jair Bolsonaro, cujos pressupostos ideológicos estão resumidos no seu discurso registrado acima, não é o de apresenta-lo como um político competente ao longo dos seus mais de 30 anos de exercício como deputado federal, ou como um intelectual conhecedor da realidade brasileira e internacional, capacitado para encontrar soluções de enfrentamento aos desafios impostos pela conjuntura atual. Buscou-se construir uma identificação pública com uma imagem religiosa, sacra, na qual ele se apresentasse como um eleito de Deus para ser ungido pelo povo por meio do voto, como de fato concretizou-se em 2018. Esse foi um dos aspectos estratégicos da narrativa política construída em sua eleição.

Contudo, os anos de 2019-2020 desmontaram, em virtude do controvertido desempenho público do referido presidente eleito e de sua claque, a tentativa de construção de uma sua imagem sacra, escancarando o “santo do pau oco” que essa personalidade política representa. Já estão mais do que claros os interesses que o bolsonarismo representa. Não é possível que o povo brasileiro e as instituições nacionais continuem a ratificar apoio a essa farsa política. É preciso exorcizar de uma vez esse mal.

 

REFERÊNCIAS

ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Edições Loyola, 2008.

CARVALHO, José Murilo de. A Formação das Almas: o imaginário da República no Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 1990.

CHAUÍ, Marilena.  Política em Espinosa. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.

DURKHEIM, Émile. As Formas Elementares da Vida Religiosa. São Paulo: Martins Fontes, 2009.

ESTADÃO. Bolsonaro exalta Ustra na votação do impeachment em 2016.  17/04/ 2016.https://www.youtube.com/watch?v=xiAZn7bUC8A. Último acesso em 22/09/2020.

GEFFRÉ, Claude. Crer e Interpretar. A Virada Hermenêutica da Teologia. São Paulo; Vozes, 2004.

MAQUIAVEL, Nicolau. Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. São Paulo: Martins Fontes, 2007.

SANTOS, Wanderley Guilherme dos. A Democracia Impedida. O Brasil no Século XXI. Rio de Janeiro: FGV, 2017.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Religião em tempos de bolsofascismo (Independente); Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .