Mundos desiguais beiram os meios-fios – por FÁTIMA TELES

 

Ando pela orla e observo o vai e vem das pessoas que caminham, patinam, correm ou apenas sentam nos bancos para apreciar a paisagem. Uma amiga acena para mim e atravesso para tomar um suco. Paro numa lanchonete famosa e lá no meio-fio um corpo deitado, possivelmente cansado de sua vida sem vida. Aquele homem  que ninguém ver é mais um número na estatística dos moradores de rua, da invisibilidade a que nós o submetemos. Peço mais um suco e lhe pergunto se quer. Ele aceita, e eu me despeço da amiga. Continuo a minha caminhada. Mais à frente, três rapazes sentados no meio-fio, tocando um violão e cantarolando Belchior –  “não quero o que a cabeça pensa, eu quero o que a alma deseja”. Como eu queria ter parado ali, mas eu precisava ir para casa, os compromissos me chamavam. Peguei um Circular e não esquecia da música. Eu também estou numa fase em que sinto vontade de abandonar essa coisa de viver com a razão, de mãos dadas, e colocar o coração ao meu lado e viver o que ele quer. Correr para os braços de quem ele quer.

Chego ao Montese e vejo algumas crianças brincando no meio-fio da calçada onde está a casa onde moro. A forma de brincar delas é bem engraçada, como são engraçadas as relações neste século. Todas as cinco crianças estão com um celular nas mãos e plugadas nos jogos que magnetizam os olhos e roubam-lhe a criatividade e a sociabilidade. Cada uma está concentrada em vencer os labirintos apresentados, mas brincam e trocam informações sobre os tais joguinhos. É um grupo, mas não conversam olhando nos olhos. Apenas respondem às informações e dúvidas, ou seguem orientações para vencerem mais rápido. Olho, analiso a forma de amizade que elas estão desenvolvendo e chego à conclusão de que não há amizade ali, e elas nem sabem que não existe. Quais serão as lembranças que esse meio-fio irá proporcionar a elas. Uma infância sem voz, sem fala, sem abraços, sem raladura, sem olhar. Lembrarão somente do meio-fio e nada mais. Entrei em casa e no banho me remeti aos meus tempos de criança, quando morava no interior. O meio-fio faz parte de muitas histórias. Lembrei-me da brincadeira da passa-anel. Sentávamos e ficávamos esperando pegar o anel que passava devagar e se deslizando em nossas mãos. Ah! Se elas soubessem como éramos felizes. Como era bom sentar e conversar olhando nos olhos uns dos outros. Comer uma bacia cheia de goiaba ouvindo histórias ou contando as estrelas. Como os nossos meios-fios são velhos baús de recordações.

Vou dormir e antes de os meus olhos me levarem para o sono e os sonhos eu ainda penso: quantas histórias existem entre os meios-fios? Quantos meios-fios estão sem histórias para serem contadas? Quantos mundos desiguais beiram os meios-fios?

Maria de Fátima Araújo Teles

Maria de Fátima Araújo Teles

Historiadora, Assistente Social,Pedagoga Especialista em Direitos Humanos e Psicopedagogia Institucional Professora Formadora da Área de Ciências Humanas do Ensino Fundamental II da Secretaria Municipal de Educação de Brejo Santo Escritora e Poeta Membro da Academia de Letras do Brasil, Secção Ceará

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