Mulheres daqui e dali – Heliana Querino

“Pai” a gente não venera, “pai” a gente se emancipa e degola.

Mulheres ativas. Assalariadas ou donas de casa.

Mulheres em bancos, em serviços e praças.

E quantas delas trabalham por conta própria…

Mulher Fortaleza, que mantém o emprego depois de casada, ganhos a mais ou reduzidos salários.

Trabalho, casa, marido, filho, panela e espelho, ela é das que tem maior índice de atividade. E quantas delas têm apoios sociais?

Aumentou as tarefas domésticas.

Cozinhou o alimento e teceu a roupa – de cama, de mesa e de vestir.

Atravessou o tempo, venceu rigorosas tempestades.

Curou do marido a dor de lado, e com caldo de pedra ou de caridade, a bebedeira da madrugada. Com reza e folhas de manjericão, receitas deixadas por Iracema, benzeu e cozeu com agulha-de-mato o menino pequeno com “dordói na cara”.

Gritou, lutou, reclamou quando foi limitada a  mão-de-obra mal paga e instável.

Nua, protestou!

Na Casa-Grande ou na fábrica, a crise deu as caras. Pois é, foram elas as primeiras a ser despedidas e as últimas a ser contratadas.

No banco, no beco, no chão e no berço.

Luta mulher.

Desmantelamento e reestruturação.

Omissões do marxismo.

Deixou o sertão. Escreveu livro. Pariu, amou e plantou sementes de revolução.

Pintou a cidade com marcas de grandeza. Clandestina, amor e (in)certezas. Medo ela nunca teve. Veio de São Paulo ou nasceu aqui, é de Itapajé, Canindé, amiga de Bárbara, afilhada de Rosa e madrinha de Alexandra.

Cabelo alvinho e olhos azuis turquesa.

Revolucionária.

Militante.

Eloquente rebeldia, arrebenta os padrões, bondosa guerreira.

Adotou tantos filhos, acudiu tantas meninas. Sangrou junto com as árvores do Cocó.

Mostrou como é a cara da política.

Fundou União de Mulheres.

Atirou granada no bucho do patriarcado.

Ela, toda uma vida forte, destemida esperança e generosa. Um dia, sentou e calminha contou-me uma história. Se permitiu chorar e se agasalhar num abraço de filha postiça.

  • Agora me solta e segue, menina.

Dela não me despedi, mas antes de partir, aprendi uma lição: herói, protetor, ariano salvador, “pai” a gente não venera, “pai” a gente se emancipa e degola.

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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