A mulher objeto, por Gislane Santos

Tablóides de notícias estamparam páginas de seus veículos de comunicação com matérias sobre o “estilo de vida” da esposa do presidente da Argentina (Mauricio Macri) e do vice-presidente do Brasil (Michel Temer), as mais novas e badaladas celebridades do mundo político, possuem em comum um estilo de vida que parece ter sido aclamado pela imprensa.
Nas reportagens de capa, elas apareceram estereotipadas como “mulheres belas, recatadas e do lar”, ou ainda pior, como “mulher decorativa”.
A revista, “NOTICIA de la semana” publicada na Argentina, trouxe no dia 11 de março,  matéria de capa intitulada “el regreso de la mujer decorativa” com a esposa do então presidente da Argentina, a senhora Juliana Awada. Na reportagem, Juliana é descrita como uma mulher tradicional, discreta e a serviço do lar. Já no Brasil, a exemplo da Argentina, a revista de circulação nacional “Veja” no dia 18 de abril de 2016, publicou matéria que também atribui à vice-primeira-dama Marcela Temer, um perfil estereotipado de mulher “bela, recatada e do lar” que aparece pouco, que gosta de vestidos na altura dos joelhos e que sonha em ter mais um filho.
Essa aparição midiática de mulher moldada em um padrão específico é algo de relevante preocupação. Os meios de comunicação levados por interesses obscuros trazem a tona o “modelo de mulher objeto”, uma mulher que segundo as reportagens, são dos ditos “moldes tradicionais”, ou seja, a mulher que não fala, não ouve, não vê e que vive à sombra do ser supremo, o marido. Mas o que existe de nocivo nessa história toda é que esse modelo de mulher é vendido como se fosse o único e certo a ser seguido, e tudo que foge a esse padrão é visto como errado, logo, deve ser combatido. Como se fosse errado a mulher transpor as barreiras dos padrões sociais estabelecidos, tidos como certos e normais, mas que em realidade só inferioriza a posição que elas ocupam na sociedade moderna. A cultura contemporânea se mostra cada vez mais machista e patriarcalista, jogando fora toda a luta de séculos por emancipação, autonomia e igualdade social e de gênero.
As mulheres que fogem ao enquadramento dos padrões sociais acabam na maioria dos casos sofrendo sanções da sociedade por conta de suas escolhas. Como exemplo, cito o último caso de agressão a uma mulher que não se enquadrava nesses padrões estabelecidos, Luana Barbosa dos Reis, 34 anos, mulher lésbica, negra e pobre, foi brutalmente agredida por PMs e em decorrência das agressões veio a óbito. Esse é infelizmente apenas mais um caso de coerção de mulheres que optaram por não ser apenas “recatadas e do lar”, quiseram mais e por isso pagaram caro.
Os movimentos feministas lutam por uma sociedade onde a mulher não precise ter rótulos, podendo ela ser quem quiser e estar onde queira estar. A crítica não é direcionada a mulher que gosta de levar sua vida conforme os padrões tradicionais, mas sim a obrigatoriedade de se sustentar a todo o custo um rótulo.
Desta forma, em pleno século XXI, nossa sociedade caminha a passos largos, só, que em marcha ré.

 

Gislane Santos
Mestranda em Sociologia (UECE), Bacharel em Serviço Social

Avatar

Convidado

Artigos enviados por autores convidados ao Segunda Opinião.

Mais do autor

2 comentários

  1. Avatar

    Francisco Daniel Batista da Silva

    Muito bom o artigo, é bem verdade que esses panfletos de rua como a Veja fazem um caminho contrário a modernidade e vão em direção à ignorância.