Mulher de agulha e pinhão roxo – JESSIKA SAMPAIO

Era tudo. Fastio, diarreia, cólica, ventre caído, tosse de cachorro doido, quebranto, mau olhado, espinhela caída, olho gordo… todo mundo na família já sabia a solução:

– Leva na D. Carmelita que ela resolve.

A cena acontecia em uma casa humilde e meio escura. D. Carmelita Barros dos Santos, sentada em sua cadeira de balanço, recebia todo mundo com muita calma e sem julgamentos sobre a mazela trazida. Ela estava sempre preparada com seus raminhos de pinhão roxo e as orações na ponta da língua. “Mal de quebrante, mal de olhado, doença no sangue e na carne, que você seja curado em nome de Jesus”, completava sempre suas rezas.

A fortalezense era conhecida pelos quatro cantos da Colônia, bairro próximo à Barra do Ceará. Era a benzedeira que tudo curava e atendia quem quer que precisasse, e sem cobrar nada – as pessoas, quando podiam, davam alimentação ou presentes.  As filas começavam a se formar logo cedo da manhã na Rua d. Mendinha. Filha de pescadores e casada com um, a mãe de 15 filhos começou a rezar nas pessoas e ser conhecida como benzedeira/rezadeira ainda na juventude.

Ela viu a cidade mudar em seus 89 anos e ajudou gerações de crianças e adultos a ficarem curados de seus problemas de saúde física e espiritual. Além das orações, d. Carmelita fazia garrafada para tudo que era doença: mal das dores das cólicas para as mulheres, gastrite, insônia e até para engravidar. Quem ia lá garantia que a oração e as garrafadas eram fortes e certeiras.

Esse conhecimento tão incrível se formou ainda no período de colonização do país, a índia brasileira, ensinava para a negra africana como usar as plantas da região, a negra ensinava as orações para as mestiças e essas traziam os ensinamentos e segredos das mulheres que vieram antes delas. Tudo era compartilhado entre as mulheres, e com o tempo criamos nossa forma de executar cada orientação. Isso foi antes da ideia de racismo e superioridade branca serem implantados no nosso país. Sim, esse período existiu. Inclusive, isso é falado no Calibã e a Bruxa, de Silvia Federici (minha nova bíblia) no capítulo Sexo, Raça e Classe nas Colônias.

Mas, o assunto aqui não é este, é a força de uma mulher que se propôs a cuidar das pessoas que não tinham acesso a dinheiro, informação, educação formal e saúde. Conselheira de muitos, criou os filhos com dificuldade, mas dos 15 paridos, 12 cresceram, o que era um feito para a época. Para as filhas, os ensinamentos eram de serem exemplares, cuidarem de suas obrigações e não aguentar ‘pêia’ de homem nenhum.

Carmelita era bruxa e feminista. Certeza que não sabia disso, não com esses nomes que damos hoje, mas ela sabia que podia curar e usou o conhecimento passado de geração em geração para o bem da sociedade.

Se viva ainda fosse, certeza que muitos ainda a procurariam, eu seria uma. Pediria para ela rezar pelo meu juízo e pelo meu pé. D. Fátima, minha mãe me contou como era a oração para pé machucado. Ela pegaria o pinhão roxo, uma agulha e diria, enquanto passaria a agulha e as folhas em meus pés “Vou ser guia. Nervo torto, que seja curado! Nervo torto, que seja curado! Nervo torto, que seja curado!”

Que falta faz d. Carmelita.

Jessika Sampaio

Jessika Sampaio

Feminista, jornalista, pós-graduanda em gestão ambiental, sonhadora, acredita em signos, no budismo e na apatia da natureza. Contraditória como todo bicho gente, curiosa e colunista do Segunda Opinião.

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2 comentários

  1. Heliana Querino

    Heliana Querino

    …A força de uma mulher que se propôs a cuidar das pessoas que não tinham acesso a dinheiro, informação, educação formal e saúde. Conselheira de muitos, criou os filhos com dificuldade, mas dos 15 paridos, 12 cresceram, o que era um feito para a época. Para as filhas, os ensinamentos eram de serem exemplares, cuidarem de suas obrigações e não aguentar ‘pêia’ de homem nenhum…”

    Um força sem tradução…

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