A morte do esteta, por Álder Teixeira

Amigo me telefona para falar sobre Bernardo Bertolucci, morto nessa segunda-feira 26, aos 77 anos. Ao final, faz a provocação:  —  “Espero a crônica!”, diz-me, sabedor de que no cinema é a beleza da linguagem o que mais me seduz. E Bertolucci era, acima de tudo, um esteta. A perfeição do quadro e da luz, a suavidade dos movimentos de câmera, a composição esmerada da imagem, que nem um pintor da renascença, davam aos filmes de Bertolucci uma sofisticação estética de encher os olhos, e tocar a alma como muitos poucos foram capazes de fazer.

Desligo o celular e me vem à tela da retina uma sequência de O Último Imperador, 1987, que considero uma das coisas mais lindas de sua filmografia  —  a lágrima, discreta, já escorrendo pela maçã do rosto: Numa praça imensa da Cidade Proibida, Pu Yi, o garoto que protagoniza o filme, corre em busca de um balão (amarelo?) e a câmera de Bertolucci o acompanha num travelling carregado de poesia e cor.

Para Bernardo Bertolucci, as estratégias narrativas eram tão ou mais importantes que o significado do filme, no que, aliás, destacou-se exemplarmente bem. A prova disso é que muitas vezes encontrou na literatura o esteio de filmes memoráveis, como em Antes da Revolução, de 1962, plasmado no romance Cartuxa de Parma, de Stendhal, verdadeira obra-prima sobre as revoluções. Ou, um pouco mais tarde, como faria em O Conformista, de 1970, uma adaptação bem sucedida do livro de Alberto Moravia, Jean-Louis Trintignant no papel principal, soberbo, como sempre.

Que dizer, então, de películas apaixonantes como La Luna, 1979, o mais “freudiano” de seus filmes, todos eles perpassados de motivações psicanalíticas, no caso, sobre a relação filho e mãe? Do épico Novecento  (1900, no Brasil), de 1976, sobre a utopia em torno de um mundo melhor e mais humano? De O Céu Que nos Protege, 1990, sobre o antagonismo entre culturas?  Que dizer, insisto, de O Último Tango de Paris, 1973, um dos mais belos filmes da história do cinema, tão equivocadamente recebido por conta de uma “simples” cena de sexo? Sim, porque nele, em que pese o erotismo da cena referida, a famigerada cena da manteiga, o que se discute é muito mais que isso: é a angústia de um homem para o qual a vida deixou de ter sentido, e o mundo é apenas um vazio imenso.

Filho de poeta (Atílio Bertolucci), e crítico incansável do fascismo italiano, contra o qual fez de sua arte um instrumento de luta, Bernardo Bertolucci fez seus últimos filmes preso a uma cadeira de rodas, vítima de uma cirurgia de coluna malsucedida. Ironicamente, a propósito, disse durante uma entrevista:  —  “Sempre gostei tanto de travelling, nunca imaginei que terminaria a vida num travelling permanente, vendo o mundo da perspectiva do deslocamento dessa cadeira”. A voz incontida do esteta.

O fato é que o cinema perde com a morte de Bernardo Bertolucci um dos seus mestres mais adorados. Fica a beleza de sua arte, a que podemos, felizmente, nos entregar, vez e outra, sempre que a vida, como está em Nietzsche, pretenda nos matar de tanta realidade.

 

 

 

 

Alder Teixeira

Alder Teixeira

Professor titular aposentado da UECE e do IFCE nas disciplinas de História da Arte, Estética do Cinema, Comunicação e Linguagem nas Artes Visuais, Teoria da Literatura e Análise do Texto Dramático. Especialista em Literatura Brasileira, Mestre em Letras e Doutor em Artes pela Universidade Federal de Minas Gerais. É autor, entre outros, dos livros Do Amor e Outros Poemas, Do Amor e Outras Crônicas, Componentes Dramáticos da Poética de Carlos Drummond de Andrade, A Hora do Lobo: Estratégias Narrativas na Filmografia de Ingmar Bergman e Guia da Prosa de Ficção Brasileira. Escreve crônicas e artigos de crítica cinematográfica

Mais do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.