MORADA – Jair Cozta

Antes de experimentar um riste de felicidade insuportável, que foi o dia mais feliz de minha vida, mudei-me para um apartamento no Centro, num prédio construído, ao que parece, nos anos 90, devendo ter seus vinte e poucos anos desde que fora edificado.

 

A princípio o interior do apartamento era bem conservado e espaçoso. Diante das decepções em inúmeras visitas a outros imóveis, aquele ali era um palácio de Gaudí. Caberiam os móveis, os livros, a bicicleta, as plantas, os pendurucalhos [como dizia minha mãe] das paredes e as três gatas. Seria possível viver nele dadas as vantagens de localização. E seria possível uma vida a dois também.

 

Pensei em como fora construído, quem elaborou essa ideia de formas geométricas nas paredes, com vários cantos na sala, janelas grandes com vitrais em arco na parte superior, bem como as portas, e espaços acima das portas dos quartos e do banheiro abertos, muito provavelmente para melhorar a circulação de ar. Eu que vivi em arquiteturas simples, geralmente pensadas e executadas por mestres de obras e pela criatividade da dona ou do dono da propriedade, fiquei contente com aquele lugar. Provavelmente não houve um arquiteto formado para projetar aquele prédio ou eu não sei bem. Já vi obras seguras e esplêndidas construídas por quem aprendeu fazendo e outras obras criadas por arquitetos e engenheiros pessimamente executadas.

 

Ali, comecei minha vida a dois, casado. Confesso que o casamento nunca é igual novamente. É sempre outra coisa, anônima, ébria como meu espírito. Fui tratando de viver aquele lugar como quem vive em função do outro. Não tardou a, mais uma vez, perder-me nesse cotidiano que é onde se mora, esse espaço mútuo que é um pouco da gente, um pouco do outro e um pouco do que mais vivo houver dentro; no meu caso, três gatas e algumas plantas (e às vezes, uma ou duas baratas e até uma aranhazinha que sempre ganha o nome de Janine).

 

Todos os seres vivos passaram a pertencer à casa e vice-versa. Nos tornamos extensão do espaço comum. De repente sentimos como a casa, nos organizamos ou nos bagunçamos a partir da casa. A casa passa a denunciar nossas formas de viver e de estar na vida. Olhando atentamente, ela nos diz o que não queremos assumir para a terapeuta ou para o nosso companheiro ou para Deus ou para nós mesmos. Ignoramos a casa; ignoramo-nos.

 

Um dos princípios da arquitetura enquanto arte, pelo pouco que compreendo, é a funcionalidade do que é projetado. Antropologicamente, uma de suas funções é a moradia. Não custou muito para eu sentir, no tal apartamento, inúmeras formas de viver na casa e comigo.

 

Em dado momento, o companheiro foi-se embora e a separação foi inevitável. A casa já era outra coisa, mudara depois de uma semana. As gatas chegaram sentindo-se donas da casa, dele e de mim. Algumas semanas depois alguns móveis foram deslocados para outros lugares e algo mudou, eu mudara.

 

Logo após a separação que se deu pela profundidade do amor que sempre é anônimo, forasteiro, cru e por vezes intraduzível, os cômodos da casa passaram a se multiplicar a cada dia transcorrido. A solidão física tornava o apartamento um labirinto de visgo e de lembranças boas. Lembrança boa também dói, amedronta, deixa a gente acuado como um preá perseguido por um cão. Da casa emergiram a memória, o perfume, os sussurros, os gemidos, os não ditos, as loucuras, e tudo parecia voltar no tempo à luz da casa. A casa era o inferno, como os outros, mas até no inferno o paraíso parece caber ou o contrário. Nesse ponto, somos bons arquitetos da vida: construir um paraíso dentro de um inferno é trabalho hercúleo. Comecei um paraíso dentro de mim, sem convidar a Deus. Seríamos eu e todos os meus eus anteriores alí a residir.

 

À medida que o medo e o desejo de fugir daquele lugar se ressignificavam, como um lobo eu me via abandonando a matilha para viver como o lobo da estepe. Reaprender a morar numa mesma casa, mas eu e eu a sós, comigo. Eis um ensinamento raro, não incomum, mas raro na compreensão de seus significados: a casa vive e sente como nós, e nos dá respostas que talvez não queiramos ouvir de nós mesmos. Olhemos o mundo sem nos esquecer de olhar para nós.

 

Neste momento, pego-me a perceber os sinais. Estou sozinho, mas um tipo de solidão que não mata, como supus certa vez. Se me fortalece, não sei e não creio, mas me ensina pesadamente. É como reaprender a falar, reaprender a andar. Assim, hoje reaprendo a viver comigo, ter um sopro de intimidade com minha vida e não é um rumo, mas um fluxo, algo como uma lanterna presa à testa, um farol que ilumina até dois metros de distância, é uma descoberta, um parcial mistério numa noite perene e escura como Deus.

 

Tento lembrar do que eu certa vez me disse: nós somos a casa que nos resta quando as paredes caem, o chão rui e o teto desaba.

 

O céu ainda não desabou, meu último abrigo.

Se eu pudesse dedicar este texto, seria aos cachos de cabelos lindos que me abrigaram durante vários sorrisos. Dedico, porém, este texto a todas as pessoas que residiram comigo em casas e apartamentos de Fortaleza, e que, por assimilação, residem de algum modo em mim – incluindo as pessoas que jamais morariam comigo novamente.

Jair Cozta

Jair Cozta

Jair Cozta é concludente do Curso de Bacharelado em Letras pela UECE, sendo também revisor de textos, poeta, ilustrador e ativista queer. Atua como Produtor Cultural no Cineteatro São Luiz Fortaleza desde 2016 e foi Coordenador de Difusão e Programação da Rede Cuca. Idealizou o primeiro Festival de Canto de Fortaleza realizado em 2017 e 2018

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