MINHA VIDA, MINHA FAMÍLIA By Gilmar de Oliveira

Nasci no Vale do Jaguaribe, em Latadas, um sítio na zona rural de Jaguaruana quase extrema com o Município de Itaiçaba. Lá, a vida era tranquila e feliz. Barulho somente do canto dos pássaros, do farfalhar das palhas das carnaubeiras, dos trovões no inverno e das falas dos animais que eram muitos.

Sou o quarto filho de uma família de dezesseis, oito homens e oito mulheres como falava orgulhosamente meu pai.

Aprendi a ler e escrever na escola da dona Isaura, minha referência de magistério.

Ainda guardo belas recordações da sua performance profissional: pontualidade, indumentária impecável, dicção perfeita, caligrafia bonita, olhar austero para “dominar” muitas crianças dentro do salão que compunha a escola multi seriada, cheia de meninos e meninas com faixa etária diferentes – meninos para um lado, meninas para o outro, sentados em duas filas de bancos compridos, altos e finos, de madeira maciça, sem espaldar. Conforto zero.

Ainda me vejo sentado lá, pequenino, balançando as pernas sem encostar os pés no chão. De vez em quando, deixava o lápis cair para descer e apanhá-lo, estratégia que usava para não adormecer as pernas. Os mais ousados quebravam a ponta e gritavam: “professora, vou lá fora fazer a ponta do lápis”.

Era uma vida com limitações, mas muito comunitária, cheia de momentos bons, aventuras e traquinagens gostosas. O dito popular “nós sofre, mas nós goza” retrata bem a vida de então.

Meu carneiro Rafle, branco, lanzudo, com o desenho preto de uma sela no lombo, era o meu patrimônio mais valioso. Um dia tive que perdê-lo. Foi sacrificado para nos alimentar. Foi o almoço mais triste e sem gosto da minha vida. Ao terminar, corri chorando até o pé de oiticica da tia Rosinha, coloquei o dedo na garganta e esvaziei meu estômago por completo. Foi a maneira que encontrei para fidelizar meus sentimentos com o meu querido e saudoso Rafle, minha primeira perda. Sofri muito. Procurava vê-lo nos outros animais, mas não conseguia encontrá-lo. Ele era único, a partir do nome em inglês que significa prêmio. Amainava a intensa saudade, tilintando sua campa, imaginando conversar com ele. Na época eu tinha de nove para dez anos.

Minha vida de criança e adolescente até os 16 anos foi construída dessa forma.

Fragmentos muito importantes de onde nasci e da minha família norteiam minha vida:

– A tranquilidade de Latadas;
– A coragem do Gilvan – meu primeiro irmão;
– A serenidade da Gilvanise;
– A sensibilidade da Gilvanilde;
– O voluntarismo do Gildarci – in memoriam;
– O filantropismo da Gilmaíse;
– A especificidade da Gilzamar;
– A benevolência do Gilberto;
– A espontaneidade do Gilbervan;
– O desapego do Gilmário;
– A discrição da Gildenise;
– As estratégias do Gilnei;
– O silêncio da Adelhinha; – in memoriam;
– A solidariedade da Adélia ;
– A sapiência do Afonso;
– A elegância da Bernadeth;
– A sabedoria do papai – in memoriam;
– A resiliência da mamãe – in memoriam.

Minha vida é o somatório de tudo isso.

Amo minha vida, amo minha família!

Gilmar de Oliveira

Gilmar de Oliveira

Gilmar Oliveira é professor da Universidade Estadual do Ceará - UECE.

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