Militante de direitos humanos, feminista, boêmia: Mônica Barroso e a eterna vontade de fazer acontecer

Professora de Direitos Humanos e Fundamentais, a defensora pública Mônica Barroso,  militante há muitos anos, no seu caminhar de tentar aprender e entender,  começou quando nem mesmo sabia o que era essa luta: “meu início na militância foi quando comecei a me indignar com o tratamento que eu recebi e que a mulher, de uma maneira geral, recebia, as meninas recebiam”. Mônica Barroso nasceu em Fortaleza e, quando jovem, achava as bonecas sem graça, “chatas” e, apesar de não gostar muito de futebol, adorava um tabuleiro que tinha jogadores , “mas só os meninos podiam fazer aquela brincadeira”. A primeira Coordenadora de Políticas Públicas do Estado do Ceará, gostaria de viver no futuro, seria mais interessante para as mulheres. “Um dia alguém me apartou de um mundo mais alegre, que era o mundo dos meninos, eu não podia brincar de calcinha, tentaram me colocar num mundo cheio de regras muito rígidas que nunca me coube, e foi nessa indignação que vieram a me chamar mais tarde de militante, e em seguida me rotularam de feminista, militante de Direitos Humanos, como se feminista fosse alguém que come “menino vivo” , e Direitos Humanos só cuidasse de “bandidos”.

Focada nos direitos das mulheres, Mônica entende que são as diferenças a grande riqueza da humanidade: “o que quero é uma sociedade onde homens e mulheres possam ser grandes companheiros na vida. Para ajudar as mulheres, eu tenho que ser feliz”.


 

  1. Em que outra época gostaria de ter vivido? – Eu não gostaria de ter vivido, eu gostaria de viver o amanhã. Não gostaria de vivenciar nenhuma época passada, ainda mais porque o passado para as mulheres é uma coisa dolorosa. A idade média quando as mulheres eram queimadas vivas como bruxas? A renascença que só tem pintor e escultor homens? Não temos nenhuma pintora. Gostaria de viver o futuro, esperando que seja ainda mais interessante do que o presente.

 

  1. A palavra que eu mais gosto é MADRUGADA, quem me conhece sabe disso. Acho que na madrugada você anda mais lento, tem a ver com a boemia, eu gosto de ir para os bares, receber os amigos, estudar na madrugada, foi onde estudei com mais afinco. Eu não gosto da palavra VIPERINA, relativo a víbora, cobra. Eu gosto das coisas postas, ditas de frente.

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  1. Um filme para ver de novo: – eu tenho muita coisa da infância, A Noviça Rebelde me acompanhou durante muito tempo. Na verdade gosto de muita coisa do Woody Allen, filmes brasileiros também. Vi recentemente o Olmo e a Gaivota (Uma atriz de teatro se organiza para um novo papel e descobre que está grávida. Ela decide continuar trabalhando, seu desejo de liberdade entra em conflito com as limitações do seu corpo, principalmente quando sua gravidez se vê ameaçada).

 

  1. Politicamente, eu sou uma mulher que sonha com um socialismo mais humano do que temos até agora, já fui candidata a deputada estadual, e sempre fiz parte da executiva de partidos, até nacionalmente.  Porém, ultimamente estou arrefecendo essa luta, porque estou sentindo que os processos eleitorais estão ficando mais importantes que os processos políticos, o debate da eleição é mais importante que o debate das políticas públicas. Neste momento da minha vida estou me afastando um pouco para reavaliar essas posturas, O Brasil está passando por um momento muito difícil, parece que estamos em dois times opostos, ou até pior, é como se todo político fosse corrupto — e não é assim.  Em todo lugar tem gente boa e má, bem-intencionada e também o contrário. Acho que a presidenta Dilma fez muita coisa pelas mulheres, mas o fato dela ser mulher pesou, acho que o PT, a esquerda, deve fazer uma análise do que aconteceu, e eu não estou sentindo isso, penso que já está havendo uma regressão. Eu não tenho nenhuma coisa contra nenhum tipo de religião, mas esse Congresso cheio de pastores a dizer coisas estranhas… Se existem duas grandes trincheiras do machismo no Brasil, que são muito perigosas, são a Maçonaria, que só aceita “macho”, homem, e a Igreja, católica ou evangélica. As igrejas são perigosas para as mulheres, são reacionárias, e não querem discutir as coisas das mulheres, quem entende de gravidez somos nós que engravidamos, não são eles, quem entende de interrupção de gravidez somos nós, não são eles, quem quer ter filhos somos nós, precisamos repensar tudo isso. Portanto, precisamos continuar militando, lutando enquanto isso não acontece.

 

  1. Eu ressuscitaria a metade da humanidade gente boa (risos), mas tem muitas pessoas de que tenho saudade, lembro da Dra. Vanda, uma advogada de presos políticos, valente e destemida, foi um flash de luz aqui no Ceará, ela foi sempre uma referência para mim. E ressuscitaria um médico sanitarista que foi meu companheiro, Dover Cavalcante, sua vida foi uma declaração de amor ao Brasil.

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  1. O livro que já li várias vezes: dezenas, agora estou lendo muito, agora romances históricos, Filipa Gregori,  e gostei muito da Papisa Joana, de Donna Woolfolk Cross. Tenho vários livros e filmes que me marcaram em cada momento da vida, poesia, teatro clássico e moderno.

 

  1. Eu me acalmo com os amigos e pessoas da minha família; música e solidão me acalmam, porque solidão é opção, ouvir uma conversa boa de pessoas que saibam de coisas que eu não sei.
  1. Eu me irrito com a falta de solidariedade, falta de boa vontade de ajudar o outro, apesar de entender que as pessoas têm suas limitações. Eu brinco muito de ser irascível, brinco de ser seu Lunga, mas não sou, eu não sou tão irritável.

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  1. A emoção que me domina é a vitória e resiliência dos outros, pessoas lutadoras e guerreiras. Tenho paixão pela vida e pelas pessoas. Eu choro se minha Evita (cadelinha de estimação) fica doente, choro por beijo de novela.


 

  1. Um dia eu gostaria de ver, mas não vou ver as mulheres com os mesmos direitos dos homens, isso demora ainda uns 100 anos, esse é um grande sonho que sei não vai acontecer em 40 anos.
  1. Heróis são pessoas que conseguiram fazer o que eu não fiz, eu respeito a coragem do Ciro Gomes, a lucidez na análise de algumas coisas. Lembro de um professor de Direito Administrativo, o Roberto Martins Rodrigues, conseguiu ultrapassar seu tempo e conversava com os alunos como se fossem amigos. Naquela época, uma pessoa que abriu muitos caminhos aos jovens alunos, meu tio Pádua Barroso que, ao lado da Wanda Sidou, lutou pela defesa de perseguidos pela ditadura. Meu herói em muitas coisas. Uma bravíssima mulher, a médica Fátima Dourado, especialista em autismo, é também um pouco minha heroína.
  1. Religião para mim é uma coisa que acalma, institucionalizou a esperança, acalmou a humanidade dessa imensa fragilidade — o ser humano não se conforma com essa finitude. Eu que sou ateia, tenho inveja dessas pessoas que têm a quem pedir e entregam tudo a Deus. Faço o bem para as pessoas não porque eu vou para o céu, mas porque vivo de tentar ajudar, e não porque terei o céu como recompensa.

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  1. Dinheiro é só um meio que a humanidade descobriu de ter as coisas, o dinheiro passou a moldar as pessoas, para ser importante tem que ter dinheiro, tem que ficar rico. Mas isso não pode ser o mais importante.
  1. A vida é a chance que temos de estar no mundo, é uma pergunta para muitos dias de conversa.

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  1. Se eu tivesse o poder, faria uma inclusão maior de pessoas na sociedade, onde todos tivessem o que comer, onde dormir…
  1. Eu gostaria de ser uma rendeira de bilros, outra hora queria ser a Hannah Arendt, ou ser eu mesma numa rede lendo um bom livro.

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  1. Não perco uma oportunidade de conversar, de viajar, de estudar, beber um bom vinho, viver.
  1. A solidão e o silêncio são a maneira de eu ficar em contato comigo mesma, e me acalmar, eu preciso muito ficar só de vez em quando.
  1. O Brasil está em um momento difícil e isso me deixa desassossegada. Eu era muito jovem quando aconteceu o golpe de 1964, vivi as dores de pessoas próximas. Achei que isso não ia mais acontecer, e acho que aconteceu de novo, o Brasil da casa grande se incomodou muito com a senzala, uma casa grande patrimonialista e conservadora, patriarcal. Acho que tivemos avanço em algumas coisas, não é possível ter avanço em tudo. Mas hoje muita gente está falando de política, porém, poucos têm consciência política, ainda vai demorar para que possamos alcançar essa maturidade política e entendermos de uma maneira geral o que aconteceu com o Brasil.
  1. O ser humano vai discutir racionalmente, sem tanta raiva, sem tanto ódio de todos os lados.
  1. Eu sou uma militante que se fez mãe e continua na luta. É possível!

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Sobre as paixões

Já vivenciei grandes paixões, e tudo com muita intensidade. Eu sempre tive um ciúme contido. Como trabalhei a vida inteira na vara de família, eu vi muitas histórias. Hoje continuo uma pessoa apaixonada pela vida, mas estou em outra sintonia, minhas paixões hoje são mais tranquilas.

Feminismo – Femismo

Lutamos tanto para ter os mesmos direitos, não podemos lutar para ter mais direitos que o outro, devemos ter um pouco mais de compaixão. Nem homem é mais importante que a mulher e nem a mulher é mais importante que o homem. Algumas meninas estão com raiva dos meninos, mas não é por aí que o mundo anda. Eu tive que desaprender algumas coisas que meus pais me ensinaram para poder ser feliz. Tem sonho para todo mundo, não quero um partido só de mulher, quero um partido de mulher, homem, gay, trans, etc, tem felicidade para todo mundo.

Eu conheço casais que são parceiros, um não é maior do que outro, eles dividem tudo, são companheiros.

O que queremos agora é fazer a desconstrução do modelo que foi a nossa construção social. Aprendíamos que as meninas tinham que casar com gerente do banco, não fazer faculdade, ter cinco filhos, as meninas no quarto rosa e os meninos no quarto azul, os meninos também aprenderam isso. Aqui em Fortaleza, por exemplo, tinha a Escola Doméstica São Rafael, as meninas iam aprender a ser domésticas.

O caminho se faz caminhando, o que faço não é só discurso, mas uma prática cotidiana. E nessa mistura fui me fazendo, e mostrando que posso ser tão forte quanto qualquer homem, tão sensível quanto qualquer homem, tão importante quanto qualquer homem, tão empoderada e tão delicada quanto qualquer homem.

“Eu não quero ser igual aos homens, eu quero direitos iguais, a diferença deles é que me apaixona e me aproxima deles,  a biologia deles encaixa com minha biologia. Enquanto não conseguirmos nos equiparar aos homens, fica difícil,  juntos lutarmos pelo mundo. Precisamos abdicar de um modelo que não nos fez felizes, nem a eles, nem a nós.

 

Mônica Barroso, feminista, boêmia, questionadora, é a força de quem tem sua historia essencialmente tecida na luta pelos direitos das mulheres: “como disse a poetisa, liberdade é pouco, o que eu desejo ainda não tem nome”.

 

 

 

 

Heliana Querino

Heliana Querino

Heliana Querino - canivete suíço, jornalista, pesquisadora, educomunicadora, coordenadora de Cultura e colunista no SegundaOpinião.jor

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