MEU CARO AMIGO – Ackson Dantas

Meu caro amigo me perdoe, por favor, se não lhe faço uma visita. Eu sei, a distância não é tão longa, três horas de avião e já estaria em sua companhia. Mas é que a coisa aí está preta! Aliás, preta não, está calamitosa. Os governos de vossa cidade e estado vos entregam à própria sorte, ao infortúnio de viver na cidade maravilhosamente perigosa de viver (me perdoe o trocadilho).

 

Noutro dia acompanhei umas notícias, às vezes até penso que são fake, mas quando vejo as imagens e vídeos não consigo acreditar, são verdadeiras. Assim me deparei com a vibração do governador após um sniper abater uma pessoa. É bem verdade que se tratava de alguém que ameaçava outras vidas e que, talvez, esta deveria ser a atitude correta, mas comemorar? Um representante de estado comemorando assassinatos?

 

 

Aqui na terrinha Alencarina as coisas não andam às mil maravilhas, as facções criminosas a cada dia acirram a disputa pelo tráfico e impõem às comunidades uma relação absurda de territorialidade. Veja você, as pessoas estão sendo aprisionadas em guetos e impedidas de ultrapassar as fronteiras impostas, sob pena de perderem a própria vida. Onde o Estado não se apresenta, o poder paralelo faz sua festa, cria seu sistema de códigos e o decreta à população. Se bem que nem preciso explicar isso, vocês sofrem com isso há tempos.

 

Meu caro amigo, eu não pretendo provocar, nem atiçar as vaidades, não quero entre nós a relação gastar, tampouco fingir amenidades. Do jeito que está, os turistas irão sumir, quem quererá visitá-los quando o próprio prefeito diz “que o Rio é uma esculhambação completa”? É verdade que policial sobe o morro para pegar propina do tráfico – agora o que tem a ver o carnaval com a corrupção? Será um olhar apurado e crítico ou apenas um revanchismo de espírito religioso que impera no prefeito? Depois da censura à HQ dos Vingadores, qual será o próximo episódio a demonstrar a ingerência da religião no Estado que deveria ser laico?

 

Aqui tenho a impressão de que a religião ainda não tomou a frente do poder público, embora a cada eleição mais vereadores e deputados sejam alçados às vagas com o forte apoio de suas igrejas e fieis. Será essa uma realidade futura em nosso país, os governos serem tomados por bancadas específicas como as religiosas? Será o fim da política e o começo de regimes guiados por pastores? Me receia a união entre política e religião.

Meu caro amigo,  eu quis até telefonar devido à gravidade da notícia, sua cidade está parecendo a Alemanha quando nazista. Lá havia a SA (tropa de choque do partido nazista) que,  pouco tempo após a ascensão de Hitler, passou a caçar de porta em porta, em escolas, bibliotecas, sindicatos, os que tinham pensamentos distintos do Führer. Foi a primeira coisa em que pensei quando li no Instagram uma postagem sobre dois deputados (um federal e outro estadual) invadindo o colégio Pedro II, em São Cristóvão. Sem aviso prévio, sem autorização dos responsáveis da escola, apareceram com o pretexto de realizarem uma vistoria?! Onde vamos parar, amigo? O fetiche, como Marx preconizou, por essa tal “escola sem partido” nos levará ao abismo.

 

Só muita mutreta pra levar a situação! Como se pode querer filmar professores, criar um estado policialesco nas escolas? Se a premissa é forjar uma escola sem partido, longe de ideologias, não faria também parte de uma ideologia crer que professores e escolas são catequeses marxistas? Será possível construir um espaço de isenção plena na educação? Certa vez conversei com um dos defensores desta ideia – é, aqui também tem alguns defensores de tal proposta. O que me disse foi: escola é lugar de ensinar a fazer contas e aprender a ler. Não tem que ficar discutindo questões de gênero, nem ensinando sexualidade. Estes temas, deixem com as famílias, cada uma sabe quando e como deve tocar nestes assuntos. A escola tem que ensinar cálculo diferencial, regra de três, deslocamento, velocidade e massa, conjugação de verbos, robótica, inglês, coisas que sirvam para formar um profissional qualificado. Eu não continuei o debate, não havia espaço para debate,  exatamente porque na escola sem partido, debate é coisa de esquerdista.

 

Meu caro amigo, me perdoe a insistência, é que as coisas beiram o absurdo. Até crianças não escapam desta conta, fico sem palavras para descrever o que eu sinto. Se jovens como Ágatha, Kauê, Kauã e Jenifer continuarem a ser assassinadas em ações da polícia, que perspectiva de futuro terá este povo? Aqui, na terra de Iracema, o jovem Juan também teve este triste fim. Imagine nós dois, numa praça, observando uma batalha de rima quando repentinamente a polícia chega e atira a esmo. Um corre-corre dos diabos para lá e para cá, no meio disso uma pequena vida abatida e, ao final, a rompante declaração: o disparo foi para o chão e por acidente atingiu a cabeça do indivíduo.

 

Muita pirueta! Só assim consigo classificar as justificativas apresentadas para estes melancólicos episódios. E tem mais, a ampliação do tal excludente de ilicitude proposto pelo ministro da Justiça em seu pacote anticrime é exatamente isso. Um lasso convite à imprudência e à arrogância de quem tem nas mãos o poder armado. Já não bastasse a fé pública, agora assassinatos executados por pessoas fardadas poderiam se justificar pelo simples entendimento que tal ato ocorreu por “escusável medo, surpresa ou violenta emoção”? (Ampliação do Art. 23) E a inclusão de agentes de segurança pública no Art. 25 que trata da legítima defesa? Trocando em miúdos, todo agente de segurança pública poderia agir preventivamente, ou seja, agressão antes mesmo de uma ameaça concreta. Assim, meu caro, nem com cachaça aguentaremos o rojão.

Mas o que eu quero lhe dizer é que a coisa, aqui e aí, não representa o fim. Enquanto houver pessoas como nós, há esperança de dias melhores. E assim vamos na labuta fazendo piada que, também, sem a gargalhada ninguém segura esse rojão. Aqui na terra de Belchior, ainda se joga futebol, o Ceará é campeão! O samba acontece, mas também tem batalha de rap e slam na periferia, tem sarau e fotografia, o movimento cultural fervilha nas quebradas, sei que aí também é fogo! Saudade da Lapa, o Centro de Teatro do Oprimido, a quadra da Mangueira, o Maracanã, ah tempos bons do nosso Fluminense…

 

Noutro dia me lembrei daquela música que o Chico fez para o Boal, quando do seu exílio na França. Lembrei de como emocionado falava o Boal, do exato momento em que recebeu a fita e pode escutar o velho amigo. Estou inclinado a concordar com Bauman no que tange aos dois valores essenciais indispensáveis ao homem para uma vida feliz. Essa coisa de segurança e liberdade é a chave, sabe? Agora, onde será o ponto de equilíbrio? Lembrei do Chico e do Boal porque naquela época o ciclo prevalecido era o de segurança que, por estar em desequilíbrio com a liberdade, forjou uma violenta repressão aos direitos das pessoas. Algo parecido com o que vivemos hoje, permitindo as proporções necessárias, claro.

Meu caro amigo, só me resta lhe escrever, dizer que ando pensativo. Ano que vem quero aí espairecer, descansar o interstício. Vá preparando seu tempo pois quero fazer festa na cidade. Dificuldade se enfrenta com sorriso aberto, pés no chão e olhar no horizonte, as nossas cidades presenciam dias estranhos. No entanto há os que resistem! Somos eu, você e tantos outros e outras, sigamos cantando na avenida o verso que um velho  certa vez nos deixou: “uns dias chove, noutros dias bate sol, mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui é treta”! Mando um beijo para os teus, a família, os amigos, a todo nosso pessoal, adeus!

Ackson Dantas

Ackson Dantas

Ackson Dantas é pedagogo e especialista em gestão escolar, neuroeducação e ensino de artes. Professor de pós-graduação em Neuropsicopedagogia e coordenador pedagógico. Arte-educador, ator, diretor teatral e poeta estreando sua primeira obra em 2019 intitulada “O Costurador de Mundos”.

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