MESA DE BAR – Muito antes pelo contrário – por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Raras palavras merecem a fôrma que as pronuncia.”

(Chico Buarque, em BENJAMIN – Companhia das Letras: São Paulo, 1995; pág. 14).

 

– Mes amis, mes enfants! Folgo em revê-los assim – como diríamos nós em tempos não muito pretéritos – assim tão… tão calorosos, tão saudáveis, moderadamente abstêmios, valorosos atores que tão bem atuam em tão singular proscênio, meus queridos e inveterados boêmios.

– Bons ventos o tragam – ó pródigo veleiro! – de volta a este tão pinturesco e bonançoso estuário de rejuvenescentes vivências…

– … e de etílicas experiências! Afinal, é neste venerável altar – Ó vate! Ó menestrel! – que continuamos consagrando o néctar dos deuses como do espírito o inefável manjar, sem o qual corpo são não há.

– Brindemos, pois, ao divinal Baco! E que ele se digne em permanecer presidindo os nossos miríficos encontros e, mais ainda, os nossos prodigiosos reencontros!

– Que bom perceber, amigos, que nada aqui se faz diferente, que “tudo está em seu lugar, graças a Deus!”. É o mesmo aconchegante bar a tão bem nos acolher a todos, com o enófilo deus Baco no comando de tudo!

– E, por falar em “todos” e em “tudo”, como é, professor, você sempre soube quanto é sete vezes oito?

– Veja bem, irrequieto poeta! O meu principal travamento com a velha tabuada era o sete vezes nove. Ou seja, um degrau acima. Certamente, eis o meu inaugural trauma com a aritmética, com danosas consequências que adiante desbordariam para a matemática. Descobri-me inexato. Um mísero sinal de que jamais daria um bom economista, por exemplo. E eu tentei. Juro que tentei, sim. Debalde, enfim.

– É, mas… bem que poderíamos ter perdido um eterno apaixonado por língua… a portuguesa, pois, pois…

– O português brasileiro, amigo! A nossa língua mátria. Oh, Caê! “Inculta e bela… ouro nativo… lira singela”. Oh, Bilac! Ouçam bem, senhores. Nos tempos de sabatinas, com castigo à base de palmatória, paguei muito caro por erros e titubeios em relação a essa infame continha de multiplicar. E o pior. Quando a sentença era o inverso – nove vezes sete –, as minhas mãozinhas, ainda tenras e pueris, ardiam de vergonha. Sofriam na ida… e na volta. Um dos indeléveis traumas que ainda carrego n’alma certamente tem na sua origem a palmatória; os ressaltos calosos, amigos, cujos resquícios ainda se fazem sentir em minhas quase septuagenárias mãos, certamente são marcas do “rabo da enxada e do cabo da picareta”, instrumental de trabalho dos idos tempos de servente de pedreiro, mas suas raízes, sem dúvida, remontam ao tempo do duro e impiedoso madeiro cuja única função era o castigo. Depois dela, senhores, uma simples pergunta que me surpreenda, que me façam subitamente – Que horas?!, por exemplo –, e provavelmente eu me perderei entre os ponteiros do relógio.

– Mestre, a palmatória também fez parte da minha formação…

– Da de todos nós, irrepreensíveis cidadãos…

– E como você costuma dizer, professor, demasiadamente humanos.

– Não nos esqueçamos dos caroços de milho, dos chinelos de couro, dos cinturões… E olha que nem éramos tão levados assim.

– Meu pai – que jamais admitiu que roubássemos goiabas maduras nos quintais alheios enquanto no chão, sob a sombra das goiabeiras do nosso quintal, saborosos frutos da espécie apodreciam; só que a colheita desses não nos causava a mais mínima das emoções –  meu pai costumava apontar o erro por nós cometido e razão do castigo por ele então a nós infligido. E começava sempre com uma pergunta-chave:  – Você sabe por que está sendo castigado?

– Será que somos o que realmente somos por que assim tratados fomos? Hein, gente?!

Alguns segundos de silêncio. Profundo. E todos nós sorvemos o néctar dos deuses. Porto de passagem. Do passado para o presente.

– Pois bem. E o que vocês sabem sobre a fórmula química da água? Arrisquem-se, parceiros.

– Ah! Peraí, né! Assim também é pretender desmerecer minha formação salesiana. Ora, sei bem mais que isso. Pois bem. São características primárias da água, que – é bom frisar – entra na composição da nossa tão saudavelmente degustada cervejinha, ser insípida – sem sabor –, inodora – sem cheiro – e incolor – sem cor. Saí-me bem dessa, ó jovens mancebos?!

– Certamente sim. Quanto à química, duas moléculas de hidrogênio para cada uma de oxigênio, ou melhor, agá-dois-ó. Água.

– Perdoem-me, amigos! Mas acho que devíamos deixar ao largo as preliminares…

– … e que nos debruçássemos sobre as questões de mérito, como nos idos tempos, não é, doutor?!

– Isso mesmo, distinto paladino. Já lhes disse algumas vezes que todo e qualquer palavrão ou termo chulo saído da boca de uma mulher em mim causa espanto e incômodo.

– Um aparte, teacher. Certa vez ouvi uma índia nambiquara dizer que na língua materna dela havia palavras que só aos homens era permitido o uso… as mulheres nem se arriscavam a fazê-lo, ante o risco de ferir a essência da língua e delas mesmas.

– A essência da língua e a essência da mulher. Percebo poesia nisso. Mas retomo o que vinha dizendo. Confesso ser essa mesma sensação de espanto e incômodo a que me aflige quando ouço uma autoridade constituída, de quem sempre espero o respeito incondicional à liturgia do cargo que ocupa, enxovalhar com discursos criticáveis o honorável lugar que lhe foi confiado pelo sagrado voto de seus eleitores.

– E isso me faz recordar de texto que publiquei em minha conta do “face” sobre a liturgia do cargo e as recorrentes ofensas, afrontas e transgressões, por meio das quais políticos de renome no cenário nacional depreciam-na, desqualificam-na.

– Na verdade, eles mesmos é que se desqualificam, né?

– Sim. Sim. Aí me vem o senhor presidente da República, indignado com a manifestação popular de quem discorda da sua maneira de agir, e rotula de “idiotas úteis que estão sendo usados como massa de manobra de minorias” parte considerável do povo que também compõe a Nação que lhe cabe governar. Convenhamos, senhores, esse comportamento não me parece apropriado a um líder, a um mito.

– E o pior: aí ele nem sequer cria; apenas copia. E bem mal.

– Pois é, cara! O Zé Serra, quando era ministro do governo FHC, já dizia que a massa de manobra das minorias não sabia sequer quanto era sete vezes oito e arrematava afirmando que se compunha de “inocentes úteis”.

– E, para o mito, os “inocentes” se tornaram “idiotas”…

– Amigos, viralizou nas redes sociais um vídeo do… do…

– Do Cortella, eu acho.

– Isso. Do filósofo, educador e professor Mário Sérgio Cortella. No vídeo, ele se refere a um livro de sua coautoria e ressalta o fenômeno atual que ele chama de “sequestro semântico”. Segundo ele, senhores, para os gregos o “idiota” era o cidadão que, negando a sua condição de partícipe da vida da sua comunidade, adotava o cada um por si e Deus por todos. Ou seja, o idiota se fechava em si, isolava-se na sua mediocridade e olhava apenas para o próprio umbigo. Anulava-se. Já o político praticava o um por todos e todos por um; ou seja, se abria para o conjunto e o que mais lhe interessava era o bem-estar de todos. Se todos fossem felizes, ele também o seria. E por isso lutava. No cenário brasileiro atual, segundo o principal de nossos governantes, dá-se o sequestro semântico, para o filósofo, ou a inversão semântica, para mim. Assim, o “idiota” sai às ruas, empunha uma bandeira e pelo seu “conjunto” se dispõe a lutar; enquanto o político, mesmo quando aparenta interessar-se pelos outros, por si mesmo é que arregaça as mangas. Seus interesses se superpõem aos da comunidade que finge representar. E, com jeito, engambela a todos.

– Perfeito. A mitologia tupiniquim vai nos presentear com outras pérolas. Alguém duvida disso?

– Lembrei-me agora de um festejado político da minha região. Há mais de meio século, quando lhe perguntaram se a safra algodoeira de um ano qualquer ia ser relevante para a economia local, ele se empertigou todo e respondeu: “Sexualmente falando, não posso dizer que sim nem que não, muito antes pelo contrário”. Besteira muita os políticos já diziam naquela época.

– E muita gente, que não entendia nada de coisíssima alguma, aplaudia.

– Amigos, elevemos a Deus uma prece. Só muita reza poderá salvar-nos.

– Brindemos a nós mesmos, senhores. A nós mesmos.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

Mais do autor

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.