"i". É o mesmo que acontece em “velho > véi”, “piolho > pioi”, “molho > moi”. Como em “encolhe” o “o” tem som aberto, dá-se o “ói”, ditongo aberto. Resultado: “puxa-e-encolhe” > “puxincói”. Como queríamos demonstrar. – E isso ocorre com frequência? – Como já disse, esses fenômenos são frutos da dinamicidade da língua. O usuário ouve uma palavra ou expressão, apreende o seu significado em função do contexto, adapta-a ao seu universo linguístico e, ao pô-la em uso, recria-a. Ela pode incorporar-se ao léxico regional, servindo aos usuários nos seus processos comunicativos. Veja esta. Os americanos construíam o famoso Post of Command, ali no atual Planalto do Pici. Isso por razões estratégicas, de exclusivo interesse deles. As mensagens entre eles se davam em inglês americano. A piãozada não entendia coisíssima alguma. As ordens chegavam até eles após prévia tradução feita por alguém habilitado. Em conversa de grupo, um pião pergunta a outro se ele teria entendido o que acabara de ouvir. A resposta: – Eu lá entendo essa “ingrizia”... “Ingrizia” surgia assim, como uma variável não-padrão de “inglesia”, ou seja, modo de falar em inglês. Pronto. Isso foi suficiente a dar origem a um novo vocábulo do cearensês, com o significado de “confuso, incompreensível, ininteligível”. – É o caso de “Cor de burro quando foge”? – É. É plausível admitir isso. Por conta da expressão original que é “Corra de burro quando foge”, no sentido de evitar prováveis coices. – Legal. – Até a próxima edição do nosso Mesa de Bar. – Até." />

MESA DE BAR

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– Professor, ontem minha avó, uma sertaneja de tutano, chamou a minha atenção dizendo assim: “Menino, deixa desse puxincói…” Isso existe, ou melhor, o dicionário registra essa palavra?
– Certamente não. Em que contexto, em que situação ela disse isso? Você pode esclarecer o que motivou a sua avó a chamar assim a sua atenção?
– Posso, sim. É que eu tenho um caso mal resolvido com a filha da vizinha, a queridinha dela… Um dia a gente tá numa boa, no outro o barraco vai ao chão…
– É um – digamos – tradicional “tapas e beijos”…
– Isso. Exatamente isso.
– O que há entre vocês – o neto e a queridinha da vovó – é, a rigor, uma hesitação, uma indecisão. Disso se estabelece uma relação de idas e vindas, de vai e volta, de sim e não. Ou seja, vocês convivem num popular “chove-e-não-molha” ou num “puxa-e-encolhe”, o que não agrada a velha sertaneja de pulso forte ou “de tutano”, como você bem disse. O regionalismo “puxincói”, que, se dicionarizado, comporá algum léxico localizado, em uso num ambiente sociolinguístico específico – o cearensês, ora muito em voga, por conta do filme Cine Holiúdi, em cartaz e com sucesso –, é fruto da dinamicidade da língua, de língua viva, capaz de adaptar-se às mais variadas situações da comunicação humana. A especificidade é que causa a incompreensão. É como se você ouvisse ou lesse uma palavra ou expressão de uma língua que desconhece ou não conhece bem.
– Interessante. Mas de onde ela tirou isso? É invenção dela não, né?!
– Em algum momento, não se pode precisar quando, algum indivíduo de classe social inferior, em contato com membros de classe social superior, vivenciou o uso da expressão “puxa-e-encolhe” num contexto marcado por hesitação, indecisão. Ao acontecer fato semelhante no seu ambiente sociolinguístico, pôs em prática o seu aprendizado, só que adaptando o termo ao seu modo peculiar de fala e do seu grupo. E aí a expressão adquiriu nova roupagem, mantida a significação original. Ficou claro?
– Sim. E como uma coisa se tornou outra?
– Sem apelar pra tecnicismos, evitando assim possíveis dificuldades para o entendimento, o que se pode dizer é que ocorrem alguns processos inerentes à fala. Num primeiro momento, há a assimilação das três vogais – a, e, e – internas da expressão, de que resulta uma vogal mais branda ou baixa – i –, nasalizada por apoiar-se no “n”. Esse fenômeno já é verificável na sua forma original, no que se pode chamar de língua padrão. No momento seguinte, o “lh” tem sua pronúncia suprimida, com o abrandamento da vogal final – no caso, “e” > “i”. É o mesmo que acontece em “velho > véi”, “piolho > pioi”, “molho > moi”. Como em “encolhe” o “o” tem som aberto, dá-se o “ói”, ditongo aberto. Resultado: “puxa-e-encolhe” > “puxincói”. Como queríamos demonstrar.
– E isso ocorre com frequência?
– Como já disse, esses fenômenos são frutos da dinamicidade da língua. O usuário ouve uma palavra ou expressão, apreende o seu significado em função do contexto, adapta-a ao seu universo linguístico e, ao pô-la em uso, recria-a. Ela pode incorporar-se ao léxico regional, servindo aos usuários nos seus processos comunicativos. Veja esta. Os americanos construíam o famoso Post of Command, ali no atual Planalto do Pici. Isso por razões estratégicas, de exclusivo interesse deles. As mensagens entre eles se davam em inglês americano. A piãozada não entendia coisíssima alguma. As ordens chegavam até eles após prévia tradução feita por alguém habilitado. Em conversa de grupo, um pião pergunta a outro se ele teria entendido o que acabara de ouvir. A resposta: – Eu lá entendo essa “ingrizia”… “Ingrizia” surgia assim, como uma variável não-padrão de “inglesia”, ou seja, modo de falar em inglês. Pronto. Isso foi suficiente a dar origem a um novo vocábulo do cearensês, com o significado de “confuso, incompreensível, ininteligível”.
– É o caso de “Cor de burro quando foge”?
– É. É plausível admitir isso. Por conta da expressão original que é “Corra de burro quando foge”, no sentido de evitar prováveis coices.
– Legal.
– Até a próxima edição do nosso Mesa de Bar.
– Até.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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