MERGULHO EM PALAVRAS – Entrevista a O POVO *

O POVO. Xykolu, qual o seu nome completo? Onde nasceu e foi criado? Qual sua idade?

Na pia batismal e nos assentamentos cartoriais, o meu nome próprio – porque só pertence a mim e concorre para a minha individualidade – é duplo: Francisco Luciano; já o sobrenome, que me vincula a um específico grupo familiar e me faz entender, desde sempre, que não sou uma ilha em meio à vastidão de um oceano de calmarias e procelas, muito menos um oásis em esturricante deserto, apesar de raízes fincadas no sertão de chuvaradas infrequentes e secas desumanizantes e estiagens recorrentes, se compõe de Gonçalves (pelo lado do pai) e Moreira (pelo da mãe). Em ambos, o próprio e o coletivo, há o que contar.

O POVO. E você se dispõe a nos contar?

Sim. Conto, sim. Como ao meu irmão mais velho atribuíram um simples José (chamam-no de Olavo) em reverência ao avô paterno – agricultor, juiz de paz e progenitor de uma vasta prole de 32 filhos, em três casamentos; com a minha avó, o último, foram apenas seis: Bernardo, Júlia, Oseas, Petronília, Expedito e Otília –, eu deveria ser Francisco, em merecida homenagem ao avô materno – seringueiro nas matas do sul do Amazonas e norte do Acre, profundo conhecedor das “coisas do sertão bravo”, como costumava dizer, profeta das invernadas e das prolongadas ausências de chuva – o maná dos sertanejos, caído dos céus –, estudioso dos formigueiros, ou melhor, do comportamento das formigas, além de exímio contador de “causos”. Ocorre que dona Rosinha, solteirona e cunhada do meu tio Tonho, o mais abastado e influente de todos os muitos irmãos, ao ser convidada para tornar-se a minha madrinha de batismo, advertiu os meus pais sobre a possibilidade de me chamarem de Chico, o que, à época, guardava uma forte relação com os macacos; e sugeriu que acrescentassem o Luciano ao nome por, segundo ela, equivaler a “filho da luz” ou “vindo à plena luz”. E eu houvera nascido às onze horas da manhã de um domingo (1º de junho de 1952) de muito sol e de muitas festas: enquanto mamãe, sob os cuidados da cachimbeira dona Chiquinha, me paria em seu quarto de dormir, em casa simples na esquina da rua São Paulo com a Sagrado Coração de Jesus (mais conhecida como “Ladeira do Pompeu”), no centro da cidade, o meu pai, mestre de obras, sob foguetório e acordes de banda de música, após discursos inflamados de políticos locais, assentava a pedra fundamental do que viria a ser o Hospital e Maternidade José Pinto do Carmo, o primeiro instrumento de saúde pública no Maciço de Baturité, região em que, mesclando serra e sertão, a minha terra natal era a metrópole. Desde então, já se passaram 70 anos e alguns meses.

O POVO. E sobre os nomes de família o que de especial se verificou?

Basicamente um erro do escrivão do Registro Civil de Capistrano; as famílias dos meus pais moravam na localidade capistranense do Mazagão, cortada por rio de igual nome: a do vô José (nós o chamávamos de Dindim) do lado de cá do rio; a do vô Francisco, do lado de lá. Entre eles – os lados – não havia ponte; hoje a travessia se dá por passagem molhada. Da falha no registro do casamento civil, mamãe passou a ter o nome Enedina Gonçalves Moreira, quando o correto deveria ter sido Enedina Moreira da Silveira. Com base naquele e não nesse, todos os dez filhos do casal tiveram de ser registrados civilmente como Gonçalves Moreira. Em decorrência disso, não somos civilmente irmãos dos filhos do papai no seu segundo casamento, porquanto são eles Silva Silveira. É isso.

O POVO. Quanto à sua criação, infância, adolescência…?

Toda a minha base de humana formação teve como berço e palco a terra onde nasci, “criancei”, “molequei”, adolesci e virei gente. O pé da serra de clima agradável em boa parte do ano e de calor desagradável nos outros meses (a partir de agosto ou setembro) e de frutas saborosíssimas – a jaca mole mata a fome de qualquer um e sem a necessidade de mastigação, e a manga chupada sob a fluência das frias águas no leito arenoso dos rios constitui vivência inenarrável –; os dois rios – Aracoiaba e Putiú, talvez o de menor extensão na geografia mundial – e os banhos de alto risco; as igrejas e festas religiosas e longas procissões e quermesses animadas ao som da velha irradiadora; o grupo escolar e o ginásio salesiano e o colégio cenecista e o mosteiro dos jesuítas; os campinhos de futebol; as praças públicas e os flertes; as feiras concorridas e barulhentas; os trens de passageiros e de cargas, esses de comboios quilométricos; tudo isso compôs o saudável ambiente em que fui criado. Dali já saí homem feito (o mundo já me recebeu quase “taludo”), casado com a minha eterna parceira, também baturiteense. Dois dados convém assinalar: no dia 1º de junho, desde o ano de 1999, comemora-se o Dia da Imprensa; em show de despedida, o venerável astro da MPB disse: “Meu nome é Milton Nascimento, mas eu adoro ser chamado de Bituca”; aqui e agora, eu digo: “Meu nome é Francisco Luciano Gonçalves Moreira, mas eu adoro ser chamado de Xykolu”.

O POVO. Você é formado em Letras e vem de uma família de professores, certo? Como a sua criação e educação influenciaram a sua relação com a literatura?

Sou de uma época e de uma terra – o sertão em contraponto à capital – em que a literatura praticamente não existia. No ensino do Português, era a Gramática que predominava. As minhas primeiras leituras, sob influência dos meus pais (minha mãe fora noviça em mosteiro de carmelitas descalças, e, tão logo casou-se, tornou-se professora/alfabetizadora; o meu pai fora repentista, leitor do mundo, antes de tornar-se pedreiro e mestre de obras), tiveram como suporte “velhos” exemplares da revista O Cruzeiro, recolhidas pelo mestre Expedito em balcões de mercearias que “de um tudo” vendiam, cujas páginas serviriam de embrulho de parafusos, porcas, pregos – caibrais ou ripais – e sabão em barra. E eu lia Rachel de Queiroz, em crônicas na Última Página. E eu lia José Cândido de Carvalho, na coluna O Impossível Acontece. E eu lia David Nasser e Ibrahim Sued. Algo bem eclético. Um outro porto de leitura eram as Seleções do Reader’s Digest, revistas abandonadas pela família do doutor Álvaro, agrônomo-chefe do meu pai no Posto Agropecuário de Baturité, campo de experimentação de novas técnicas de plantio (a enxertia, por exemplo) e criação animal vinculado ao Ministério da Agricultura. Acesso tive a exemplares atrasados da carioca Revista do Esporte, graças à amizade com o acordeonista e vascaíno Vicentinho Pinto, filho de dona Lourdes, uma quase mãe da minha mãe. Com muito esforço e ajuda de cunhada residente no bairro de Fátima, às margens de riacho cujas águas serviam à aguação de canteiros de hortaliças e que, depois, encurralaram-no no canal central da avenida Aguanambi, minha mãe conseguiu um já surrado exemplar do Exame de Admissão e outro um pouco mais conservado do Nova Seleta, coletânea de poemas – As Pombas, de Raimundo Correia, por exemplo –, contos curtos e excertos de romances, material indispensável à preparação para o concorrido e rigoroso certame de acesso ao ginásio.

O POVO. E como você se aproximou da literatura propriamente dita?

O meu primeiro contato com José de Alencar, por exemplo, e o seu clássico Iracema aconteceu quando eu já era adolescente. Livro emprestado que vagueou por muitas mãos. O Quinze, de Rachel, eu o li para o vestibular do meio do ano de 1976, motivo que me fez visitar também o “bruxo do Cosme Velho”, Machado de Assis, e o seu Memórias Póstumas de Brás Cubas. Um verdadeiro “upgrade” no meu perfil de leitor ocorreu com o Círculo do Livro, a partir de quase toda a obra de Fernando Sabino, de Érico Veríssimo, do australiano Morris West (Proteu, Sandálias do Pescador, Advogado do Diabo). O meu devotamento à leitura – e à literatura, por extensão – carrega, com certeza, uma razoável dosagem de incentivo dos meus pais, das minhas professoras do primário (em especial, dona Maria de Jesus Castelo Branco, que tão bem me preparou para o louvável desempenho em etapas subsequentes do meu aprendizado regular) e da educação – quase em regime militar – dos padres salesianos. O meu desvelo pela educação se nutre de alimento que o meu DNA sempre produziu e ainda produz. Eu nasci para ser professor; eu assisti, ao meu derredor, ao nascimento e crescimento de um seleto grupo de professores muito devotados à arte de ensinar e educar: a mãe, a eterna parceira, irmãos, irmãs, cunhadas, sobrinhas, filha, amigas e amigos.

O POVO. Recentemente, você publicou o livro “Sinfonia”, que possui mais de 800 páginas, número grandioso em relação aos grandes best sellers. Houve algum receio de fazer uma obra dessa magnitude em tempo de leitores “rasos”, que têm “ansiedade” pelo fim da leitura? Qual a sua opinião sobre esses novos perfis de leitura?

Sou um escritor temporão (o tempo não me permite sentir receios, temores). Descobri-me assim em meio à proposta que me impus tão logo aceitei o incentivo da minha filha – a terapeuta ocupacional, pedagoga e professora Marylia Luciana – para criar e manter um perfil no Facebook, com o propósito de dotar essa rede social de um quê de “inteligência”. E as postagens foram adquirindo “roupagem” literária. Os amigos me estimularam a dar à minha escritura o formato de livro. E vieram, na sequência, o Sessenta – Uma miscelânea textual (o meu livro de estreia; marcou a minha sexagenária idade); os dois My Book of the Face – O meu livro do atrevimento; os dois Eu e o Segunda Opinião (aí eu já combinava postagens no Facebook com publicações em jornal eletrônico, cujo editor-chefe é o professor Osvaldo Araújo – um dos filhos de Olavo Araújo, um dos precursores do moderno jornalismo impresso no Ceará –, que tão bem me acolheu); o Contos & Crônicas; o Mesa de Bar; o Eu Poético; o Cenas, Recortes e Retalhos – Do cotidiano de um cidadão brasileiro; e os dois Espasmos de Lucidez. Cabe ressaltar que todos eles resultaram de “produção caseira”, artesanal. Explico: produção textual, digitação, diagramação, impressão e revisão textual, disso tudo cuidei eu; apenas a confecção de capa, encadernação e corte final, confiava a dois artífices e amigos (Bernardo e Ulisses). Curtas eram as tiragens e os exemplares eu os distribuía entre familiares e amigos. O livro a que você se refere é o décimo segundo filho do meu irrequieto espírito. Dou-lhe, agora, cara repórter, a primazia de conhecer um pouco da sua gênese. Em novembro de 2021, surgiu em mim a ideia de produzir algo que marcasse o meu próximo porto de passagem – o de nº 70. Como, em termos de arte, eu só exerço algum domínio na produção literária, nada mais adequado do que “trabalhar” um livro com este específico propósito. Originalmente, ele reuniria textos já publicados nos suportes do meu uso corrente, um para cada ano de minha existência terreal; logo, seria uma coletânea de setenta contos e crônicas. No andar da carruagem, alguns solavancos alteraram a trajetória prevista no planejamento inicial. Havia textos que reclamavam de mim o injustificável “desprezo”. E eles sempre tinham razão. E, ainda mais, o que fazer com os que eu ia produzindo no curso do projeto? Não me sobrou alternativa, a não ser a de rever o projeto original. E a regra de “um texto por ano vivido”, modifiquei-a para “um texto por semestre vivido” – do 52.1 (ano do nascimento do autor) ao 22.2 (ano da publicação do livro). Entremeei-os com poemetos da minha lavra, como a argamassa que faltava na edificação do todo – afinal, como diziam os lusitanos, “duro com duro, não se constrói um bom muro”. E assim gestei e dei vida ao Sinfonia – em prosa – d’uma existência (prodigiosa), com mais de oitocentas páginas de variegadas opções de leitura.

O POVO. Você já disse ser ele diferente. Em que, propriamente?

Com ele quebrei, de propósito, alguns paradigmas editoriais: a capa antecipa parte de dois textos albergados em seu interior (vali-me, por assim dizer, de Chico Buarque, em Budapeste); a lombada traz um poema que muito do meu perfil reflete – Fluxo e refluxo; os textos obedecem a uma cronologia e trazem, em nota de rodapé, a data em que foram produzidos; as orelhas contêm texto do próprio autor e, lembrando um pouco o cronista Tarcísio Matos, intitulei-o de Puxavanco de orelhas…; o sumário se faz no formato de guia, para facilitar as andanças por tão extenso caminho; a estrutura segue os andamentos de uma sinfonia, uma das metáforas da minha vida; enfim, ele é diferente. Até para os leitores e suas “ansiedades”, o Sinfonia… possibilita várias estratégias de leitura. Como em Vidas Secas, do modernista alagoano, de Quebrangulo, Graciliano Ramos. Como na novela O Malhadinhas, o almocreve do português, de Semancelhe, Aquilino Ribeiro. Por se tratar de uma coletânea de contos e crônicas, ele oferece mais de uma centena de inícios e fins; e isso significa paradas e recomeços e até releituras, “ao gosto do leitor”. O único risco, se é que há, está na robustez do volume – o velho “tijolão” pouco convidativo, pouco atraente e até amedrontador para “marinheiros de primeira viagem”. Eu prefiro vê-lo pela ótica da “generosidade” – ele é generoso no que oferece; da “versatilidade” – ele é multifacetado na essência. Por óbvio, declaro-me consciente de que produzo um tipo de arte de pouca atratividade, mormente em época do predomínio midiático. O hábito da leitura na atualidade se amolda à mania da extrema resolutividade do celular. Eu ainda resisto a tudo isso. Sei que corro o risco de ser vencido. Enquanto isso não percebo, vou à luta com as armas de que disponho.

O POVO. Na sua opinião, o que a juventude tem a aprender com a sua geração? Em relação à educação, à literatura, aos hábitos.

Não me julgo capaz, ou melhor, a pessoa certa para apreciar, avaliar e posicionar-se sobre tal assunto. Entre a minha geração e a atual, ainda exerce e sofre influência a das minhas filhas. Recordo-me, aí pela década de 1980, de quando precisei comprar uma linha telefônica residencial. Na oportunidade, desembolsei uma pequena fortuna, em dinheiro vivo, e, o pior, em negociação clandestina, em mercado negro, ou seja, à margem do que poderiam chamar, à época, da legalidade, da legitimidade. Ainda mantenho tal linha – telefônica, é óbvio; que valor ela tem hoje? Não sei. Certamente muito pouco. E que fenômeno ocasionou tão drástica involução? A rapidez dos avanços tecnológicos que também afetaram o comportamento das pessoas, os relacionamentos interpessoais. Para o pensador israelense Yuval Noah Harari, em Homo Deus, a humanidade, nesse processo, se desloca do Homo sapiens e flerta com a possibilidade de vencer a Morte, descobrindo-se ser detentor de uma capacidade divina ancorada numa boa conjugação de algoritmos que interagem com eficiência e eficácia nunca vistas. Em Dan Brown e seu Origem, o autor sustenta estar a humanidade no estágio do Homo technos e dá protagonismo ao Winston, o genial computador que pensa e fala. É isso, preclara repórter. Eu sou incapaz de, na era dos i-pads e i-pods, dos memes e das hashtags, das selfies e dos hackers, dos bitcoins e do pix, avaliar qual seja o legado da minha geração para todas as outras que vêm e virão após nós. A respeito, peço vênia para calar-me.

O POVO. E o que teria a sua geração a aprender com os mais jovens? Há alguma “arte contemporânea” de que o Xykolu gostaria de fazer parte?

Eu me considero um eterno aprendiz. Como ser humano inquieto, instiga-me a ignorância, o não-saber, o não-conhecer. Questiono sempre, não para me contrapor, mas para compreender, entender, apreender e aprender. Os jovens também têm muito a ensinar e eu a aprender. Talvez a logicidade dos seus atos no caminhar pelas sendas midiáticas; como são rápidos na decifração dos enigmas que fazem funcionar a parafernália ultramoderna! Chego a invejá-los. Até louvo os seus isolamentos, vagando por muitos outros mundos, navegando por mares em movimentação constante, tudo isso através de uma tela de celular. Incomoda-me, de outro modo, a mudança abrupta no convívio social e familiar. É preocupante ver uma família reunida à volta de comprida mesa de restaurante ou churrascaria, todos isolados em suas individualidades sob a atraente luminosidade da tela de um celular. A tecnologia aproximou todos que, de uma forma ou de outra, realizam negócios, mas afastou os que poderiam ter ganhos outros nos relacionamentos mais intensos com familiares e amigos. E, apesar dos incômodos, conscientizo-me de que isso também tem de ser aprendido. E eu sou produto do meio. Quanto à “arte contemporânea”, como revolução na maneira de fazer arte, e ante as mutações e revolução proporcionadas por novas tecnologias e novas mídias, entendo que o movimento ou vanguarda de que mais me aproximo seria a “arte conceitual”, pautada nas ideias e nos conceitos, com a refutação ao tradicionalismo, com a compreensão totalizante através da interação com os expectadores, levando-os a reflexões e questionamentos. Tenho dito.

* Entrevista concedida à repórter Raquel Lima Aquino.

EU (À PESSOA)

Quem sou?
Não sei!
E, nessa perplexidade,
Sem hesitação, ambiguidade,
Vivo pessoanamente, às vezes,
Entre uma severa interrogação,
Que m’intriga, m’instiga,
E uma serena exclamação,
Que me transforma – evoluo!
Então, jornadeando entre tais pontos,
Fronteiriços e recorrentes,
Não incorporo o beneditino de Bilac
(Pouco dele há em mim que se destaque),
Mas trabalho e teimo e limo e sofro e suo!
E antes que me alcance o ponto final,
Já sei o que sou: um
Ser humano único; incomum
Afinal.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.