Memória afetiva

Um mal tremendo acometeu Macondo por longos anos: a perda da memória causada pela doença da insônia, impedindo seus moradores de sonhar e de enfrentar a realidade.

Carolina sempre foi uma menina linda, muito viva e traquina! Da linhagem de Iracema, possui carnudos lábios de mel. Como Irene, sua gargalhada revela sua força espiritual. Desde muito pequenina havia entendido o valor de cada pequena recordação. Cultivava com grande ternura as brincadeiras na praça, recheada de vitórias-régias, em Casa-Forte. Foi lá que fez, no final dos anos 1960, sua primeira comunhão, organizada por outra Iracema, a diretora da Escola Padre Donino. Em um dos encontros preparatórios, indagou à mestra em religião como era possível Jesus ser a revelação de um Deus que, por meio de sua Igreja, torturou e instaurou a execução de milhares de pessoas pela Inquisição. Apesar da exegese da professora, sua dúvida não deixou de persistir.

Mesmo nas épocas mais difíceis da ditadura militar, nos anos 1970, em plena adolescência, ela nunca se esquivou de lutar por liberdade, respeito e justiça, meditando sempre em seu coração sobre os acontecimentos por ela vividos naquele período. Com amigas e amigos do Colégio Marista, coordenados pelo irrequieto frei Tito Figueroa, um carmelita apaixonado pela trajetória do libertário Frei Caneca, estavam a cada sábado numa comunidade favelada do Bairro da Torre, distribuídos por equipes de trabalho pedagógico e político. Seu grupo de trabalho ocupava-se das crianças, desenvolvendo tarefas de educação para os cuidados com o corpo, reforço escolar e recreação.

Além dos encontros com Frei Tito, elas se reuniam na casa de Tereza, no Bairro do Espinheiro, para discutirem sobre o trabalho atuado, como também para estudos de teatro e de política. Em 1977, numa dessas rodadas de estudo, Carioca disse ao grupo que ele com outro companheiro estavam organizando um encontro com o cantor Ivan Linslá no Colégio Nóbrega. Foi uma vibração só! Para Carolina seria uma experiência muito especial participar de uma discussão com um personagem tão importante da Música Popular Brasileira, num momento em que os estudantes brasileiros sofriam, pela publicação do Decreto 477, do general Ernesto Geisel, limitações de suas liberdades civis e políticas.

Como nos anos 1970 não havia celulares, nem mídias cibernéticas, de boca em boca a notícia da reunião logo espalhou-se. A sala reservada para o bate-papo tornou-se pequena diante do grande número de estudantes presentes. Carioca e Moreno, organizadores da conversa, deram as boas-vindas e fizeram a introdução, destacando a importância da sólida resistência cultural corporificada por Ivan Lins naquele contexto histórico sombrio, por meio do seu trabalho artístico, lançando o disco “Somos Todos Iguais Nesta Noite”, com canções em parceria com Vítor Martins. Depois das argumentações do cantor, foi uma chuva de perguntas de como poderiam ampliar e qualificar o trabalho de resistência cultural democrática no meio estudantil.

Carolina saiu revitalizada daquele momento, não só pelos conteúdos das conversas, mas também por conhecer tantas novas pessoas engajadas na luta cultural e democrática. Foi lá que conheceu Lenine, que anos mais tarde despontaria como uma das estrelas da MPB. Também ficou encantada com a figura de Moreno, amigo de Carioca e organizador daquela rodada de conversa. Disse à sua amiga Tereza como “aquele gato havia mexido com ela: um cara muito talentoso e bonito”.

Carolina engajou-se na política partidária, focando na abertura democrática. Desconfiava que em seu colégio o professor de português seria um agente da ditadura a espionar a atividade estudantil naqueles anos de chumbo. E tinha razão. Ela ficou sabendo inclusive que dois amigos estudantes daquela época – Léo e Aragão – foram “convidados” a conversar nas instalações da Polícia Federal sobre a atividade cultural que desempenhavam, tendo inclusive duas de suas composições musicais sido censuradas e proibidas de veiculação pública.

Na memória, entretanto, Carolina guarda um dos momentos mais carinhosos no final daquela década,ocorrido nas ladeiras do Carnaval de Olinda. Estava nos Quatro Cantos com Tereza, Mônica, Carioca e um numeroso grupo de amigas e amigos, quando a troça começou a subir e descer ladeiras em direção à Praça Matriz de São Pedro, ao som de frevos maravilhosos: “Quero ver você no amanhecer do ser”. Em meio a muito suor, muita cerveja e muita alegria, de repente, no ferver daquela multidão de passistas, agora já na praça, ela esbarra em alguém. Era Moreno, que vinha descendo a ladeira do Alto da Sé, em outra troça. No encontro das troças, das ladeiras, dos passos, os dois estavam frente e a frente. Ela, ao vê-lo molhado de suor, não teve dúvida: pendurou-se em seu pescoço e não o deixou escapar naquela longa e maravilhosa tarde-noite.

Hoje, passados tantos anos, morando em Florianópolis, volta a alimentar-se da sua memória afetiva, trazendo-lhe muita alegria ao seu coração, encorajando-a a seguir firme em seu caminho, agora, como outrora, sem entender como cristãos apoiam um presidente que cultua torturadores e faz apologia à tortura. Triste Bahia!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

Mais do autor

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.