Memento mori

Juro amor meu não morrer nunca e
Amanhã não mais mentir
Em ambas as promessas o meu profundo amor
Por uma pessoa (tu) como se fosse infinita e
O meu próprio coração maior que o Nilo
Meu peito não contém águas abundantes nem seus crocodilos
Minha vida um dia acaba
(Estarei então cansado e deitado numa rede aguardando que meninos desconhecidos e adultos simplórios me peçam a benção e saibam quem eu sou melhor que eu e não virá ninguém)
Ainda assim quero te olhar
Surpreender com os olhos tua eterna novidade
Ignorar um pouco a tua mortalidade
A tua morte futura que me faz sofrer mais que meu próprio horizonte finito
Na tua carne mortal a minha educação
Preciso aprender a morrer a cada dia
Sem choro sem ódio sem tragédia
Preciso aprender a parar de mentir como ensinam dois livros que eu lembro
Preciso aprender a te olhar e te amar feito novidade na boca e no olho da criança
Preciso abandonar a própria necessidade
Preciso dizer que te amo sem aviso
Preciso me conformar com a má poesia que o sentimento gera pela urgência
Preciso deixar de ser urgente
Preciso atender apenas às urgências verdadeiras
Preciso a imprecisão da vida
Preciso conter essa lágrima ou
Deixar que flua e preciso
Apagar as duas velas
Esquecer os dois senhores
E dormir

Airton Uchoa

Escritor, leitor e sobrevivente.

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Escritor, leitor e sobrevivente.