MÁRIO ANDRÉ ESTÁ NO TERCEIRO LIVRO DE DANTE DE ALIGHIERE

Passeava em Porto Alegre, pouco tempo, dias depois
do natal, dias antes do ano novo, quando circulou nas redes sociais
uma notícia sobre o desaparecimento do meu amigo Mário André e, ainda
meio desprevenido, na sequência, recebo a confirmação. Sim, o padrinho
de Melodia, não está mais entre nós. Fatalidade? Logo a dúvida vem a
seguir: ora, isso só acontece com os outros?  E se os outros somos
nós? Quem está em vida, sabe naturalmente que haverá um dia que alguém nos dirá um sim tão induvidoso, tão forte e claro como o sol de verão,
que essa fala luminosa vai encher nossos olhos de lágrimas.

                  São Francisco de Assis achava a morte bela porque é
libertadora e a chamava de irmã no entendimento de que era um processo
natural da vida. Diante dessa naturalidade, parece que não aprendemos a admirar outras belezas que não estão no conceito do equilíbrio,
certeza ou da simetria: o erro e a imperfeição, como cantou Zeca
Baleiro, por exemplo. Ou que o cortejo da morte, nas palavras de Ana
Cláudia Quintana Arantes, seja um belo e especial “dia que vale a pena
viver”.

Tristeza ou consagração? Para Clarice Lispector “A Estrela Sobre”, título de uma das mais aclamadas ficções, mas se questiona o silêncio da morte.  Por que um tema colado na gente
é tão preciosamente esquecido? Fala-se em quase tudo: ciência,
direito, saúde, religião, política, sexualidade e por que não se
conversa sobre a morte, conservando-a como uma espécie de tabu, ou
assunto proibido pelo comentário sério ou banal?

               Vejam: todos os documentos mais antigos são unânimes em
revelar que quando nascemos já trazemos a morte como a primeira doença e a mãe de todas as outras. Aliás, é contra ela que os médicos cumprem seu juramento profissional resgatando cotidianamente vidas,
respeitando a autonomia e dignidade dos pacientes, como recomendou
Hipócrates.

A morte não tem hora para chegar, muitas vezes vem de
forma  incisiva ou como um sopro apagando uma tênue chama.  Uma
narrativa literária explica a sua oportunidade. Diz que a Morte,
depois de um intenso dia de guerra (homens tiranos não param de
produzir conflitos) procurou um afiador de facas. O profissional
propôs: “deixo o fio da lâmina de sua foice com um corte perfeito, de
forma gratuita, se a senhora me avisar com antecedência a minha hora
de partir”. Ela recusou, advertindo-o: esses eventos não comportam
avisos. Pelo simples estado do senhor estar vivo e a natural
apresentação de seus cabelos brancos já são prenúncios”. Resumiu:
“quando chegar a sua vez, afiada a foice ou não, desaparecermos juntos
desse aquário terrestre”.

               Realmente, por ser a primeira doença e mãe de todas as outras  mortes não tem cura, por que nossa vida física não tem eternidade.  O “livro de todos os livros” recomenda vigilância. Os médicos a comparam com a travessia de um deserto cujos pacientes
precisam estar munidos de muita água e adequada alimentação para
afastar sua presença. Mas, conforme ainda “o livro de todos os
livros”, ora “se seguimos o regimento, sem desviá-lo em momento algum,
não teríamos direito a abrir uma botilha de vinho e comer um carneiro
para alegrar o meu coração e de meus companheiros?”.

               A questão é que em nossas vidas temos projetos que não
teriam sentido se fossem individuais. Mais ainda: temos planos
hipotéticos e a formação de um mundo completamente presumido. Até
ontem, onde andávamos? Na casa de um amigo no Estado gaúcho. Onde
estavam nossos parentes, filhos e melhores amigos? Protegidos,
seguros, guardados, pensamos nós. Mas nem nós e nem ninguém possui
esse arco protetivo. Por isso, vêm a dor e a tristeza da passagem. Não
há nada mais humano do que chorar. Afinal, as lágrimas servirão para
lavar o significado de nossas vidas; o luto será o preço da
fraternidade e o amor tem a paz e a luz, garantem os estatutos religiosos..

             Outra indagação surge: qual destino coube ao amigo? Deus
tem muitas moradas. Santo Agostinho avisou que aquele que fez a viagem
vai morar em um quarto vizinho. Vaticinou: “eu sempre serei eu e tu
serás sempre tu. O que éramos antes um para o outro o somos ainda”.
Parece, então, que esse mistério nos acompanhará até o fim. O grande
Fernando Pessoa, ao ser internado em um hospital de Lisboa, rabiscou
para uma enfermeira: i know not what tomorrow will bring, algo como
“não sei o que o amanhã trará”. O poeta lusitano sabia sobre a
existência de muitos lugares para morrer e um único para nascer.

Leonardo Menezes, meu sobrinho, tinha 36 anos, um ano a mais
do que a idade de Mário. Três dias antes de sua morte, tive uma
conversa com ele. Prometi que quando ele ficasse bom, nós iríamos à
Praia do Fortim. Abriria uma garrafa de um bom vinho, de preferência
da região de Bordeaux. Do alto do alpendre, o cenário das águas do
mar, ventania da tarde cor zinco, com muitos segredos e a audição,
como das outras vezes, de boa música: Beatles, Led Zeppelin,  Stones,
Dylan, Legião Urbana, Belchior, Chico Buarque, Dominguinhos, Gil,
Caetano, Rita Lee, Mutantes…

             A nossa cozinheira, “a Bela Paisagem”, por ser uma pessoa
muito otimista, já estava avisada. Cuidaria dos frutos do mar. Zé do
Louro e Inseto, seus amigos praianos, estariam a postos.  Esqueceu o
câncer que lhe consumia há quatro meses e sorriu com júblio mesmo
sabendo que os caminhos que nos levariam ao compromisso já estavam
extraviados.

Já a minha conversa com Mário André foi sobre pesquisa na área do direito, por sinal, estava louco para encontrá-lo
e falarmos sobre fake news, minhas preocupações acadêmicas do momento.
Não sei se naquela época ele já estava na USP ou trabalhando junto à
FGV.  No aniversário de cinco aninhos de minha neta Melodia, sua
afilhada, um presente que a Clarisse lhe deu em nome de uma amizade
desde os anos do Colégio 7 de Setembro, ele falou: “Tio, estou
interessado em conhecer sua house”. Disse-lhe que a planta era uma
réplica modesta da casa de um jornalista da Folha de SP, hoje o “Café
Tavares”, numa daquelas alamedas que atravessam a Augusta, paralela à
Avenida Paulista, mas o que ele mesmo estava interessado era nos
livros que estavam à vista na parte de cima: Dworkin, Thompson,
Bobbio, Giddens, Habermas, Mcluhan,  Bonavides, Manuel Hespanha e um
punhado de filósofos que começam com Maquiavel, Spinoza, Heidegger,
Marx, Benjamin e Weber.

Podia avaliar: chegou a hora de Leo e Mário, a partir de uma crônica de meu primo Temístocles Machado (tio de Mário), quando ele diz que a gente vai envelhecendo e o tempo é o mesmo.
Realmente, o tempo marcado pelo relógio foi inventado pelo homem. Já
na segunda forma temporal vem o “tempos do anjos”, uma interfase entre
”o tempo do homens” e o “tempo de Deus”, uma provável
“semieternidade”, um modelo que os filósofos escolásticos chamavam de
“aeum” (curso da vida) – “o Evo”, como a Súmula Teológica bem o
separou: “ difere do tempo e do eterno e da eternidade como algo
intermediário entre um e outro”.  E a ciência chama-o de “tempo
antropológico” dado que nenhum ser humano nasce “zerado” em nível
espiritual, porque, como observou o poeta Carlos Nejar: “o que não
sabemos vamos começar a saber, por nos haver descoberto antes”.

A eternidade —  a terceira dimensão — pode ser compreendida como  a posse de uma existência plasmada em si mesma. Não há princípio, meio e fim. Simplesmente ela está perante o universo.

Não tem o antes, durante e depois. É o “tempo de Deus”, posto que só o
Altíssimo possui todo o seu ser e toda sua atividade se revela a si próprio e em um só momento, ensinava Santo Agostinho.

         Quanto ao “tempo dos homens”, na linha de Paul Ilie, duas
vertentes precisam ser destacadas em relação à vida: o homem no mundo
ontológico, entre pessoas, animais, ambientes e coisas; e o homem no
mundo das vibrações, impondo-se o ser que está aqui diante do tempo e
da história, “face-a-face”, mas atormentado pela consciência crítica
do mundo, da vida e de si próprio, pela consciência da consciência,
por tudo que enfim alimenta a lacerante noção de queda e extravio.

Sinceramente, vocês acham mesmo que Mário André estaria feliz em ver seus entes e amigos mais queridos chorando sua partida?

Claro que não. “Cada moinho conhece bem sua água”, diz um dito
popular. E se a grandeza não tem vaidade, sua vida foi breve como uma
pétala da flor de lírio — “olhai os lírios do campo” recomenda a
passagem bíblica – mas foi articulada em nome do bem. Ali, na missa de
7° dia, por intermédio do primo Temístocles soube que soou como um
inusitado presente, que Mário André era bisneto de meu padrinho de
batismo, o velho Moacir Machado, então casado com uma prima legítima
de meu pai, ocorrência que não comemoramos em vida terrena.

Coincidências?

                  José Saramago diz que as coincidências são as
lógicas de nossas vidas, levando a sério as contingências, as coisas
imponderáveis, os acasos que são fortes setas em nossos caminhos. Mas,
noutra linha, há a proposta que deve haver “uma tentação para o bem”,
uma corrente para aquilo que realmente importa. Ou que a vida seja uma
comunhão, alguma coisa parecida com “Flor da Idade”, de Chico Buarque,
tema musical que escreveu para um filme de Hugo Carvana, nos versos
finais, com a intertextualidade de Carlos Drummond de Andrade, na
sequência de que “Carlos que amava Dora que amava Lia que amava Léa
que amava Paulo que amava Juca que (…) amava a filha que amava
Carlos que amava Dora que amava toda quadrinha”.

                No terceiro livro da Divina Comédia Humana, Paraíso,
Dante Alighieri alude em seus poemas uma visão de nove pontos de luz
que giravam rapidamente e são mais brilhantes quanto mais próximos de
Deus, promovendo uma homenagem aos bons, inversamente ao que fez em
Inferno, o primeiro volume, quando através de uma “utopia as avessas”
destacou traidores, larápios, trapaceiros e falsificadores de moedas,
alguns nomes conhecidos e datados em Florença de sua época.

               Aqui, utilizando a licença poética que é permitida aos
escritores, penso na visão de Mário André entre anjos reunidos, na
“semieternidade”, sem divergências, porque no próprio Canto, Dante
remove contestações, “nos penúltimos círculos, girando/ Principados e
Arcanjos resplandecem/ e dos anjos após festivo bando/ no ponto as
ordens se embevecem/ e o disse a terra, não se mova espanto/ quem
tinha o visto aqui lhe descobria/ a mais verdade deste império santo”.

          Siga em paz Mário André Machado Cabral!

Durval Aires Filho

Durval Aires Filho é Desembargador do Tribunal de Justiça do Ceará, professor universitário e mestre em Políticas Públicas. É membro da Academia Cearense de Letras, tendo publicado os seguintes livros: “As 10 faces do mandado de segurança“ (Brasília Jurídica) e “Direito público em seis tempos. Autores relevantes e atuais” (Fundação Boitreaux). Antes da pandemia foi vencedor do Prêmio Nacional de Literatura para Magistrados, com a ficção “Naus Frágeis”.