MARIANA, BRUMADINHO E A LÓGICA DO CAPITAL. Por Uribam Xavier

Quando ouvimos falar de globalização ou mundialização do mercado capitalista parece uma coisa boa, tem gente que vibra, parece até que todos os indivíduos do planeta serão incluídos pelas suas promessas chamadas de progresso, desenvolvimento ou qualidade de vida. Todavia, com o processo de globalização do capitalismo, a maior parte da população é excluída, são expulsas para fora do mercado e é fácil de visualizar porque são transformadas em moradores de ruas, em miseráveis, em sem tentos, em sem terra, em refugiados de guerras, em imigrantes, em desempregados. É excluído do mercado quem não pode ser mercado, ou seja, mão de obra a ser explorada. E o que é o mercado? Mercado é a necessidade com dinheiro; se você tem necessidade e não tem dinheiro, você não é mercado, você é um miserável, um excluído, um condenado da terra, como nos diz Frantz Fanon.

A maioria das pessoas do planeta está excluída dos meios de existência, ou seja, elas têm uma vida precária e ameaçada, elas não têm dinheiro porque não têm trabalho , outras são submetidas a trabalhos degradantes, ganhando muito pouco e alguns ao trabalho escravo. Paradoxalmente, globalização ou mundialização da economia é, no mesmo processo, produção de exclusão, produção da morte por vários meios, por isso estamos diante de tantos conflitos, guerras, racismo, violência, pobreza e cadeias cheias de jovens pobres e pretos, na sua grande maioria. E se temos pobreza, na realidade empobrecimento, é porque a produção social de riqueza se concentra em poucas mãos. A revista Forbes é uma revista estadunidense de negócios e economia que faz um ranking das pessoas mais ricas do mundo, por meio dela ficamos sabendo que em 2018, Jeff Bezos, fundador da Amazon, tinha uma fortuna estimada em 112 bilhões de dólares. Portanto, o quadro de concentração de renda é um processo escandaloso e nada ético.

No nosso Brasil, diante das duas tragédias criminosas provocadas pela Companhia Vale do Rio Doce, uma ocorrida na Cidade de Mariana, com 19 mortos, e a outra na Cidade de Brumadinho, com mais de 300 mortos, muitos pensam que a causa foi a ganância dos seus administradores, como se as causas estivessem apenas ou, em ultima instancia, nos interesses e ações individuais dos capitalistas. Num olhar mais profundo, podemos identificar que a causa está naquilo que não aparece de imediato, nas leis do movimento do capital financeiro. É nas leis do movimento do mercado que encontramos a explicação para ganância dos seus administradores, nelas encontraremos sua contradição inerente e inseparável, ou seja, que só existe acumulação de riqueza com produção massiva de pobreza e de violência, não existe desenvolvimento sustentável. Portanto, ter uma sociedade governada pelas leis do mercado, ser normatizado pelos interesses do deus mercado, é conviver com a miséria, o empobrecimento, a guerra e a destruição da maioria da humanidade. É cair na falácia do crescimento econômico como condição de geração de emprego e qualidade de vida para todos.

É pela compreensão das leis do movimento do capital que podemos entender porque o sofrimento da humanidade se naturaliza e as pessoas e o Estado são convidados, cada vez mais, num ato individualista, a darem as costas para o sofrimento da humanidade e para destruição do planeta. Portanto, não é por falta de Deus em seus corações. Aliás, algumas igrejas, alguns dos que falam de Deus no mundo atualmente, correm de mãos dadas com o mercado em busca de dinheiro e poder, elegem parte de seus semelhantes como inimigos, julgam e condenam em nome de um deus que já não é amor, perdão e acolhimento de todos. Certas igrejas, aliadas com a lógica do capital, falam de teologia da prosperidade ao mesmo tempo em que amaldiçoam os povos indígenas, os negros, as mulheres que não se submentem ao modelo patriarcal e ao machismo, são homofóbicas e defendem a heteronormatividade para combater uma certa ideologia de gênero. Tudo isso, claro, a partir de uma interpretação duvidosa e manipulatória da Bíblia, usada para camuflar os interesses reais dos lideres dessas igrejas, que cada vez mais ocupam lugar na política partidária defendendo a ideologia conservadora de extrema direita e acumulando patrimônios materiais.

A mentalidade capitalista, uma mentalidade alienada, não lhe interessa a realidade, mas o saber que ela tem sobre a realidade [representação imaginária]; não lhe interessa a religião, mas a dogmática teológica; não lhe interessa a justiça, mas a manipulação da jurisprudência como garantia de seus interesses; não lhe interessa a natureza, mas o quanto ele pode dela explorar para alimentar o seu processo de acumulação de riqueza; não lhe interessa a paz, mas a capacidade da guerra como meio de acumular riqueza por meio da venda de armas. Portanto, a mentalidade capitalista não é uma mentalidade moralista, embora apareça como tal, ela é uma mentalidade que objetiva a lei de movimento de acumulação do capital, ela é uma pulsão de morte, é a expressão do mercado como único Deus, por isso se fala tanto em fim da história.

Os franceses Rousseau e Proudhon afirmaram que a propriedade é um roubo, nessa afirmação tem relativa verdade, mas o problema não é só a propriedade privada e nem o dinheiro; a propriedade privada é um modo de posse do capital e o dinheiro é uma de suas determinações, a lógica de acumulação do capital, sim, é o grande problema. Nas tragédias de Mariana e Brumadinho é possível entender isso: quem perdeu a propriedade necessária à reprodução da vida? Quem perdeu parentes, filhos, maridos, mulheres, amigos, amores, conhecidos? A quem foram impostos bruscamente múltiplos sofrimentos? Quem teve seus sonhos interrompidos? A quem foi imposta a condição de reiniciar a vida a partir da retirada de tudo que custou uma vida inteira para construir? A quem foi imposta a situação de ter que gastar muito tempo de vida enfrentando a burocracia da “justiça” e o desrespeito da Vale para obter algum reparo? A qual executivo ou acionista da Vale foi imposto algo semelhante? Os trabalhadores e a maioria das pessoas sofrem e perdem as suas condições de existência, o capital, quando perde algo, perde apenas parte do trabalho morto que ele expropriou da coletividade.

O que perdeu a Vale? Ela perdeu a situação de ocultação de risco para vida das pessoas, para o meio ambiente e a para a existência da cidade, que propositalmente mantinha para que o processo de acumulação de riqueza fosse cada vez maior. O que ela perdeu foi percentuais, números, entre os bilhões que manipula. Seus executivos e seus grandes acionistas continuaram morando em seus luxuosos bangalôs, em suas mansões, continuarão enviando seus filhos para passear e estudar na Europa e Estados Unidos, continuarão a usar seus iates nas praias do Caribe e continuaram a ter o apoio do Estado e dos governos, que são eleitos para fazer a vontade do mercado. O que os executivos da Vale vão fazer é deixar o tempo passar, esfriar a memória da população e depois subornar o judiciário para não arcar com as responsabilidade inerentes aos atentados criminosos provocados contra a população, o meio ambiente e as cidades de Mariana e Brumadinho. Será mais barato gastar dinheiro comprando a Justiça e mantendo dinheiro em caixa dois para eleger políticos do que fazer os devidos reparos.

Enquanto a lama de rejeitos ainda se movimentava, numa espécie de avalanche destruidora, numa autêntica reprodução da lógica do capital, o Ministro da Casa Civil, o deputado Onyx Lourenzoni, eleito por meio da utilização de dinheiro de caixa dois do sistema de corrupção da JBS, declarava: “para além das vidas ceifadas está o importante trabalho da Vale”. Já o Ministro do Meio Ambiente, Ricardo Sales, condenado na Justiça por improbidade administrativa, se manifestou afirmando que a tragédia indicava que era preciso acabar com a indústria de multa aos setores do agronegócio e com a política de fiscalização e licenciamento ambiental, pois estava claro e evidente que são mecanismos que não impedem desastres ambientais. Quem não entendeu o que significam as reformas trabalhista e da previdência, o processo de privatização de empresas públicas, a contenção de gastos públicos e a lei anticrime de Sergio Moro, não percebeu que o neoliberalismo, a lógica de acumulação do capital, significa a morte disfarçada na promessa de desenvolvimento, mais emprego, combate aos privilégios , combate à corrupção e à violência. Tem gente que não consegue perceber que combater a violência, a corrupção, aos privilégios e à pobreza é combater a sua causa: a lógica de acumulação do capital, que normatiza o mercado tornando-o um Deus.

Uribam Xavier

Uribam Xavier

Graduado em Filosofa Política e Doutor em Sociologia, professor da área de Ciência Política do Departamento de Ciências Sociais. Autor do Livro “O Capital e a Política”, editora Livro Novo, São Paulo, 2012.

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