Mar que corre

O que mais incomoda uma mente conservadora é o movimento da história, ou seja, o acaso à sua frente capaz de tirar-lhe das mãos o poder conquistado com base na mistificação e na mentira (ideologia). No passado, para reis e rainhas, parecia que eles haviam sempre existido e iriam governar acima do povo eternamente.

O conservadorismo tem também como seu aliado o ritmo frenético do mundo prático que dificulta às pessoas em geral perceberem de forma mais profunda e explicitada a luta de classes, motor das transformações sociais. Assim, por desejar um mundo imóvel aos seus pés, que atenda apenas aos seus interesses de classe, o conservadorismo constrói um “céu” (uma ordem) à sua imagem e semelhança, representado por um deus celeste trovejando acima das nuvens e governando o mundo: Deus acima de todos.

Outro aspecto importante, no mundo moderno, que reforça o aparecimento do conservadorismo, é a cisão produzida pelo racionalismo metafísico e a realidade contraditória humana – entre humanismo abstrato e vida concreta – ao não atender de forma eficaz às necessidades reais das populações. A democracia,  se não for capaz de responder concretamente às demandas das populações, corre o risco de tornar-se um ente metafísico, vazio de significados e de importância concreta. Discursos etéreos e pregações morais do racionalismo abstrato só fizeram reforçar a angústia e a rebelião de muitas paixões humanas oprimidas, como no caso do fascismo e hitlerismo da primeira metade do século XX.

A recente passagem de Bolsonaro pelo Maranhão, ao afirmar num vídeo gravado, em tom sarcástico, depreciando um produto marca de sucesso daquele estado – o refrigerante Jesus – identificando-o intencionalmente, de forma pejorativa e jocosa, com o termo “boiola”, visava a atingir a força do governo Flávio Dino, do PC do B. Ele tem plena consciência do perigo que representam para o bolsonarismo os resultados reais e concretos da administração Flávio Dino junto à população maranhense, com repercussão nacional.

Bolsonaro, desde sempre, como ator da extrema-direita, montou sua trajetória dentro de uma estratégia de polarização e radicalização de seus discursos. Ele tem criado um roteiro de encenação a partir do qual investe sistematicamente na tensão social com o objetivo de gerar a “fidelidade emocional” pela qual seus partidários alimentam a polarização simbólica e real. Como não tem conteúdo, resta a ele investir na forma de sua telenovela midiática. Para ele, quanto mais profundas e extremas forem as polarizações políticas, mais sairá beneficiado. Portanto, constantemente está criando táticas de guerrilha simbólica.

Ocorre que esta faceta também revela sua fragilidade política, principalmente porque o seu entorno familiar, que não desfruta de regalias de foro privilegiado, como no caso de Queiroz ou de Michele, é bastante vulnerável devido às denúncias de corrupção financeira. Caberia à oposição unir-se para centrar esforços no seu enfraquecimento, tendo presente esses aspectos vulneráveis. Uma ação eficaz nesse sentido deve determinar seus pontos críticos, captar os instantes em que ele se apresenta débil, para produzir um resultado decisivo de sua queda, a partir de gestos e palavras capazes de transformar os sentimentos de parte da população que ainda o apoia, para conquistar sua derrubada definitiva pelo voto popular.

Maranhão, etimologicamente, significa *mar que corre*. O sarcasmo pelo qual foi tratado recentemente o povo maranhense por Bolsonaro é mais uma razão fundamental para a união concreta de uma grande corrente democrática brasileira visando à derrubada do bolsonarismo do poder. Que corra o mar!

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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