Maneiras de amar e desamar

Na primeira semana de cada mês, Solidar visitava as pessoas de sua lista de doadores numa ação de ajuda a famílias moradoras das ilhas recifenses atingidas pelas fortes chuvas do inverno. As casas são construídas sobre a lama. Nos anos 1960 e 1970 era uma invasão das águas pelas enchentes do Rio Capibaribe. Recife sob chuvas é outra alma, principalmente para aqueles pobres retirantes, agora habitantes dos manguezais. Se no Sertão o espírito da seca devora seus ventres, na Capital o espírito da lama invade seus umbrais.

Mesmo se nem todos mantinham a constância em suas colaborações, Solidar fazia questão de visitá-los um a um para manter vivo o compromisso assumido. Quem se caucionava firme e fiel com sua doação mensal era Frisch, coincidentemente o único daquela relação a declarar-se ateu.

Frisch cuidava de jardins. Adorava a variedade das plantas: suas cores, seus cheiros, seus traços, suas formas de ser. Olhava-as atentamente, dedicando um tratamento especial a cada uma. Dizia sempre que seu ofício o ajudava a compreender melhor a forma pela qual, sem ser consultado, cada ser humano vem ao mundo e nele manifesta-se em sua existência única. Por isso desenvolveu como ninguém a atenção particular a cada pessoa que encontra no seu caminho. Quando Solidar lhe apresentou a proposta de comunhão com famílias afetadas pelas chuvas da região, prontamente confirmou sua adesão.

Para Solidar, a fidelidade de Frisch era seu ponto de reflexão. Uma pessoa constante ao compromisso assumido, sensível ao sofrimento alheio. Até então Solidar não conseguia entender como uma pessoa tão boa não professava uma fé religiosa. Emblemático o dia em que o conheceu. Solidar estava desacordado, deitado no estacionamento de um supermercado. Frisch, ao ver aquele jovem naquela situação desalentadora, dirigiu-se até ele, levou-o até sua casa, ofereceu-lhe um café da manhã. Após retomar plenamente os sentidos, Solidar perguntou-lhe porque o havia ajudado daquela forma, sem nem mesmo conhecê-lo. Frisch respondeu: “Você não faria o mesmo se a situação fosse contrária, se fosse eu em seu lugar? O que fiz foi colocar-me em seu penar. Se lá eu estivesse, gostaria imensamente que alguém me fosse solidário e me prestasse socorro”. Desde então começaram a ser amigos.

Este acontecimento foi um ponto de inflexão na vida de Solidar. Por conta da gratuidade de Frisch ao socorrê-lo, mudou seu comportamento: deixou o vício do álcool; começou a frequentar o grupo de jovens de sua igreja; engajou-se em diversos trabalhos sociais; retomou os estudos e o relacionamento com uma menina, paixão antiga de infância. Foi nessa articulação paroquial onde nasceu a ação de ajuda a famílias afetadas pelas enchentes de inverno.

No final daquele mês o grupo de jovens de sua paróquia recebeu a visita do bispo dom Coimbra para uma preleção sobre sexualidade e moral cristã. Contudo, não foi um momento fácil para Solidar. Difícil de digerir a perspectiva apresentada pelo clérigo, mestre em Teologia Dogmática. Dom Coimbra chegou muito bem trajado, todo de preto, portando em sua mão direita o exuberante anel episcopal, todo em ouro, e no peito um grandioso crucifixo, igualmente dourado. O auditório do salão paroquial estava repleto de jovens com muitas expectativas. Em um dos trechos de sua exegese, o bispo afirmou: “A prática homossexual não pode ser moralmente aceita do ponto de vista da fé cristã. Ponto final e basta. A Escritura é regra de fé. Somente na relação homem e mulher é que o sonho de Deus se realiza. A vontade de Deus não se muda. Atualmente vivemos numa sociedade doida. Numa sociedade doida, você sabe se um cachorro é macho ou fêmea, mas não sabe se o ser humano é masculino ou feminino”.

Solidar tomou um susto com tudo aquilo. Ficou perplexo. Não conseguiu mais acompanhar a preleção episcopal. “Reduzir o ser humano à condição de um cachorro?”, pensou. “Reduzir uma pessoa a uma única dimensão? Assim agem os sistemas totalitários”, continuou a refletir. A partir daquele instante, sua atenção interior voltou-se para uma recordação de um poema por ele lido em noites passadas: “A ação desse poema passa-se na Espanha, em Sevilha, na época da mais terrível Inquisição, quando todos os dias, para a maior glória de Deus, se acendiam as fogueiras e os medonhos hereges ardiam em soberbos autos-de-fé. Num desses instantes passa pela praça o cardeal Grande Inquisidor. Os taciturnos ajudantes e a guarda do Santo Ofício seguem-no a respeitosa distância. Ele interrompe a caminhada e aponta o dedo para o Homem. Ordena aos guardas que O prendam. Tão grande é o seu poder e tão habituado está o povo a submeter-se, a obedecer-lhe, tremendo, que a multidão se afasta diante dos esbirros. Conduzem o Homem preso ao velho e sombrio edifício da Inquisição, metem-no em estreita cela abobadada. De súbito, nas trevas, abre-se a porta de ferro do calabouço e o cardeal Grande Inquisidor aparece, com um archote na mão. Por fim, aproxima-se, pousa o archote na mesa e diz ao Homem: por que vieste incomodar-nos? Bem sabes que nos incomodas”.

Solidar lembrou ainda da fala de um trecho de um filme que assistiu, em outra noite, pelo celular: “Deus criou o homem à sua imagem. Isso é lindo! Mas quem escreveu essa frase na Torá? Foi um homem, não foi Deus. O homem a escreveu sem modéstia, comparando-se a Deus. Talvez Deus tenha criado o homem, mas o homem criou Deus. O homem criou Deus só para poder se inventar, por isso escreveu um livro – a Bíblia – por medo de ser esquecido. A questão central não é saber se Deus existe, mas saber se nós existimos e como existimos”.

Terminada a palestra, após os aplausos, Solidar retornou ao momento presente. A coordenadora geral dirigiu-se ao microfone para agradecer a dom Coimbra pela maravilhosa exegese, indagando aos jovens presentes se teriam perguntas a serem dirigidas ao bispo ou impressões daquele momento tão especial naquela paróquia.

O jovem Solidar levantou-se e foi até o microfone. Agradeceu a todos pela oportunidade daquele encontro. E perguntou, respeitosamente, ao palestrante se ele tinha alguma pessoa em sua família que seja homoafetivo. O bispo respondeu que não. Em seguida, Solidar indagou-lhe se teria algum amigo ou alguma amiga com orientação homossexual. Novamente o bispo disse-lhe que não. Aproveitou então para desafiar o bispo a tentar quantificar e a identificar quantos daqueles jovens ali presentes em sua palestra seriam homossexuais. E por fim, indagou se o bispo conhecia alguma pessoa que foi previamente consultada por Deus para livremente expressar-se se gostaria de vir ao mundo. O bispo não respondeu. A partir do silêncio do clérigo, Solidar expôs sua experiência de vida relatando o momento de sua conversão, quando Frisch, o jardineiro ateu, o socorreu gratuitamente, sem conhecê-lo e sem pretender nada em troca. Ao final perguntou a todos: “Por que nenhum heterossexual foi ao meu socorro naquele momento desesperador em que me achava desmaiado no chão de um estacionamento?”. Fez-se o silêncio. Já era noite. Solidar calmamente deixou aquele ambiente.

Na manhã seguinte, quando saía de sua residência oficial para a sede da Diocese, após um café da manhã bem reforçado, dom Coimbra cumprimentou com um aceno o jardineiro que trabalhava em seu jardim episcopal, como costumeiramente o faz, pois até hoje não sabe o seu nome. Frisch retribuiu-lhe a saudação, ofertando-lhe um sorriso e uma rosa.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Alexandre Aragão de Albuquerque

Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor do livro Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial).

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