MAL DE CARNAVAL: TUDO SE FAZ POSSÍVEL… ATÉ CINZAS! (PARTE V), por Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

“Acontece o que se verifica quando adormecemos e que o sono ainda indeciso não se assenhoreou completamente de nós: temos, como em sonho, alguma ideia do que ocorre em torno de nós, acompanhamos o que se diz, mas o percebemos apenas vagamente e de maneira tão imperfeita que mal toca o espírito.” [Michel de Montaigne, em ENSAIOS – tradução de Sérgio Milliet – São Paulo: Nova Cultural, 2000; vol. I, cap. VI – Do exercício, pág. 323].

Após debruçar-se, com afeto, ternura e respeito, sobre o corpo do parceiro da aventura, única e tragicamente interrompida, e, de joelhos, dar uma zelosa arrumadinha aqui outra ali no alvíssimo e perfumado lençol que o encobria, ela se sentiu invadida por uma sensação de leveza, serenidade, quietude, assentada na convicção de que não lhe cabia culpa pelo passamento daquele a quem se dispusera entregar a própria virgindade, embora ainda sentisse pairando no tenso e pesado ar do quarto o temor de que alguém pudesse insinuar haver ela contribuído para o gesto insensato, imaturo e até irresponsável que ele acabara adotando; de mais a mais, nada lhe restava a fazer, ante as circunstâncias que revestiam o caso e expuseram-na àquela perigosa situação de total dependência.

Beijou a testa do morto, cuja rigidez cadavérica já se fazia sentir sob o lençol, levantou-se, permaneceu de pé por alguns instantes, numa reverência lúgubre, triste e espontânea a quem lhe devotara os últimos momentos da vida, a quem lhe confiara seus últimos desejos e suspiros, a quem optara por colocar a vida em risco movido por sentimentos que ela nele despertara, girou o corpo em meia lua, dispensou um olhar panorâmico ao ambiente, como se quisesse recolher imagens para gravar na memória, no espaço reservado ao “para sempre”, e pretendesse apreender o pleno e real entendimento da situação e decifrar os enigmas que certamente encaminharam as suas vidas no curso de uma febril e fatal noite de carnaval. Deu alguns passos, curtos e lentos, para a direita, arrastou, para o lado oposto ao que jazia o corpo do “tio Luís”, a poltrona vermelha e em formato estimulante a posicionamentos pouco convencionais na busca de prazeres subjacentes a sonhos povoados de erotismo que, na solidão desprotegida de nossos reconfortantes sonos, preenchem os desvãos, os vazios de nossas almas impudicas. Nele acomodou-se, com o olhar fixo no teto espelhado, apesar da irrestrita indisposição para a interpretação do que conscientemente não admitia enxergar.

Sobre a mesinha de gavetas ao lado descansavam, emaranhados e ao sabor do esquecimento, os pertences de ambos – óculos, relógios, pulseiras, celulares, bolsas, cintos.

O apaziguamento do espírito e o cansaço do corpo e a ressaca de ambos, num átimo temporal, fizeram-na adormecer. Logo o sonho enredou-se no subconsciente. E esse arrebatamento onírico se transmutou em pesadelo.

Ouçamo-la, indulgente leitor(a), na hipótese de que um dia ela se disponha a narrar, em detalhes, os fatos extraordinários que permearam essa experiência inconsciente, irreal:

“Eu estava, de pé e sozinha, na calçada de minha casa, à espera de meu príncipe encantado. A rua, deserta. De repente, surgiu no meio do céu cor de chumbo um pássaro gigantesco: com asas muito longas, envergadura enorme, bico exageradamente aduncado, coxas musculosas e garras afiadas. Em voo rasante, arrebatou-me: eu e a minha fragilidade femínea. Transportou-me para uma gruta aberta na parede rochosa, na parte mais elevada da menos exuberante das verdes colinas de uma formação em círculo, no centro a opulência vicejante de floresta nativa, virginal. Depôs-me, então, na entrada da gruta, em acentuado recuo relativamente à irregular plataforma que se estendia à frente. Postou-se como sentinela, a pouca distância de onde me deixara, eu agora sentada, indefesa e incrédula, na curvatura de uma pedra colossal. Por um breve momento de calmaria, a ave me permitiu esquadrinhar o seu avantajado porte físico: peito e coxas com revestimento de plumas de cor azul imaculado, em contraponto com o verde impecável das penas que recobriam as asas, o dorso e a cauda; cabeça recoberta com penugem extremamente branca, de que se destacavam um par de olhos com uma esdrúxula combinação circular de cores que iam, em direção ao centro, do vermelho ao preto, passando pelo rubro, e um longo e fornido bico aduncado e em cinza metálico. De peito inflado e olhar fixo em mim, começou a rosnar, a soltar grunhidos assustadores, enquanto arranhava as garras na base rochosa da plataforma, como se, com aquele gestual, não apenas pretendesse me ameaçar, me intimidar, mas também afiá-las ainda mais. Percebi, então, que aquilo compunha um ritual. Essa percepção me ocorreu quando vi surgirem, de cada um dos flancos da gruta, grupos de mulheres vestidas em sensuais camisolas – que desciam até os pés descalços –, em tecido de fina textura, em cores variando do verde intenso ao azul vertiginoso, as quais, ao prazer do vento, colavam em e descolavam de corpos extremamente voluptuosos, oferecendo e negando as dádivas que só na sensualidade feminil proliferam. Enquanto se aproximavam, bramiam. O grupo da esquerda: “Sem-vergonha!”; o da direita: “Assassina!”. E eu tremia apavorada. E eu chorava amedrontada. Temi pela minha integridade física, senti-me num cadafalso, o laço da corda em volta do pescoço, à espera de um simples e definitivo gesto do meu verdugo. E ele, bem à minha frente, grunhia com raiva, com ódio. Apavorei-me quando compreendi que a grande ave, ao soltar seguidos grunhidos, me permitia entender as suas pretensões, porquanto conseguia decodificar a expressividade de sua fala bem peculiar. E decifrei todo o seu discurso ameaçador: ‘Eu vou aniquilar a sua teimosa virgindade. Eu vou romper o seu envelhecido casulo. Eu vou estraçalhar o seu encarquilhado hímen. Depois, eu vou arrancar o seu atormentado coração. E ele vai me servir de alimento. É a paga justa. E, então, você vai ser uma delas.’ Enquanto ela bravateava, dois fenômenos me chamaram a atenção: a servil postura das mulheres, agora silenciosas e cabisbaixas, denunciando terem cabeça idêntica à da ave, incluindo o nariz recurvado; e o surgimento, lento e gradual, entre as grossas e aniladas coxas, de um membro niquelado, de têmpera forte, lâmina recurvada, gume serrilhado e cabo curto e ligeiramente abaulado – em formato de adaga, símbolo da masculinidade, da virilidade. Do interior da gruta, irrompeu uma lufada de vento morno que me fez arrepiar todos os pelos do corpo. Um forte cheiro de enxofre se espalhou pelo ar, irritando-me os olhos que começaram a arder. Lá fora, as mulheres retomaram a gritaria: “Assassina! Sem-vergonha!”. A gigantesca ave prosseguia o seu ritual, ainda na fase do pré-ato: a adaga, intimidatória e constrangedora, pronta para o desferimento do golpe fatal. A minha cabeça doía, os meus olhos lacrimejavam, a minha garganta queimava, o meu peito sufocava, o meu ventre se excitava, as minhas coxas fremiam e as minhas pernas tremiam. Capitulei. Entreguei-me à própria sorte. Uma forte ventania se abateu sobre aquela parte rochosa da colina, provocando um grave e tonitruante desmoronamento de toda a encosta. Uma chuva de rochedos fechou completamente a entrada da gruta, deixando passar apenas alguns fiapos de luz solar e dois tipos de som que ecoavam no fundo da gruta. Solucei apavorada ante a iminência do sufocamento, da morte por asfixia. Assustada, banhada de suor, eu acordei. Ao longe os sons se repetiam. E iam se aproximando. Já desperta, ouvi os dois celulares tocando ao mesmo tempo.”

Atendeu primeiramente o dela:

– Alô!

– Minha filha, onde…?

– Tia, eu ligo já pra senhora. – E desligou.

Verificou o visor do outro (o que pertencia ao “tio Luís”). Era o irmão.

– Alô!

– Menina, você está nas nuvens, é?!

– Não. Por quê?

– Já tentei tantas vezes que pensei até em desistir… em não mais insistir…

– É que eu acabei vencida pelo sono… Diga. Sou toda ouvidos.

– Eis o plano. Simples e efetivo. Preste atenção e evite me interromper. Eu também vou usufruir das benesses de uma suíte premium desse motel. Vou até a oficina. Lá deixo o meu carro e pego o de um cliente que está em serviço de desamassamento e pintura. Vou trocar as placas dele por outras frias. E sigo pr’aí. A minha amada amante vai comigo…

– De jeito nenhum! Que é isso?! Envolver essa… essa… essazinha numa situação extremamente constrangedora pra mim. Essa não!

– É bom você repensar suas exigências, suas regras rigorosas. Você não vai querer que eu tente entrar sozinho num motel sem despertar suspeitas. Você certamente não vai querer que eu convide a sua cunhada para ir comigo a um motel, sabendo que a pureza dela é inquebrantável… jamais aceitaria… seria capaz até de me excomungar. Portanto, eu recomendo que você aceite os meus préstimos, do jeito que eu posso oferecer.

– Está bem! Esquece o que eu disse, por favor! Vamos em frente!

– Pois bem. Quando eu estiver na suíte, ligo pra você. Ah, há umas instruções a seguir. Primeiro, um entregador de produtos de farmácia, meu amigo, vai já fazer uma entrega nesse motel, exatamente para a suíte em que você está. Conta para uns trinta reais. Você paga. Quando o pessoal do motel interfonar pr’aí, você confirma o pedido e justifica dizendo que o seu marido topou em algum móvel, ferindo o dedão do pé e precisa apenas de um curativo. Acalme o pessoal, dizendo ser enfermeira, que trabalha no IJF, et cetera e tal. Na sacola que vão lhe entregar, entre algodão, esparadrapo, mertiolate e gaze, estão um pote de um gel indicado para remoção de impressões digitais e dois pares de luvas. Tão logo receba esse material, vista as luvas e as mantenha assim até que possamos sair daí. Aproveite o tempo para, com algodão, esfregar o gel em tudo o que você possa ter passado as mãos, indo, inclusive, até a garagem para a remoção em partes do carro. Cuidado com câmeras. Fique atenta a tudo que possa dificultar ou destruir nossos planos. Dentro de meia hora vamos estar na suíte mais próxima da de nº 4. Dentro de uma hora pretendo estar saindo daí com você a bordo. E uma observação: no que você não puder ajudar, por favor não atrapalhe. Entendido?!

– Sim, mano. Confio em você. Eu vou sair daqui. Pela obra e graça do Espírito Santo!

– E pela minha capacidade de estrategista.

– Não me faça rir, pois não estou em condições de.

– Pois encare tudo com muita seriedade. E serenidade. Até mais.

– Até mais.

– E mãos à obra. Eis que o tempo urge. E a fera ruge.

Lembraram-se do pai, cada um ao seu modo.

Nota do autor:

“Por mais que por mim me embrenhe, todos os atalhos do meu sonho vão dar a clareiras de angústia.” [Fernando Pessoa, em LIVRO DO DESASSOSSEGO – organização de Richard Zenith – 1ª ed. – São Paulo: Companhia das Letras, 2000; pág. 109].

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.