MAL DE CARNAVAL: TUDO SE FAZ POSSÍVEL… ATÉ CINZAS! (PARTE I) por Francisco Luciano Gonçalves Moreira

“O carnaval só é interessante porque nos dá essa sensação de angustioso imprevisto. Francamente. Toda a gente tem a sua história de carnaval, deliciosa ou macabra, álgida ou cheia de luxúrias atrozes. Um carnaval sem aventuras não é carnaval. Eu mesmo este ano tive uma aventura.” (João do Rio¹, em O bebê de tarlatana rosa² – MELHORES CONTOS DE JOÃO DO RIO/Seleção de Helena Pereira Cunha – 2ª ed. – São Paulo: Global, 2001; págs. 71-75).

Sábado gordo. Almoço na cozinha matuta da modesta casa de fuga ao massacrante cotidiano. Cardápio: peixada – cozidão de pargo, guarnecido com arroz branco e pirão de farinha em calda. À mesa farta, saboreiam esse tradicional prato da culinária cearense o casal anfitrião, com um pouco mais de três décadas de união estável, e uma amiga de muitos outros carnavais, solteirona de agradável companhia, espirituosa quarentona, avessa a contratos que estabelecessem convivência diuturna necessária, nada de “até que a morte os separe”, parceira cativa de carteado que sempre se projeta noite adentro até colher os primeiros – frouxos e lassos – raios solares do amanhecer, isso quando o dia não desperta carrancudo, frio e preguiçosamente chuvoso. Elas degustam alguns cálices de vinho tinto e suave; ele sorve a delícia embriagante de uma loiríssima mais que gelada. Prazerosamente. E a conversa flui naturalmente.

– Meu velho, você vai mesmo manter a tradição de…?

– E por que não, minha velha?! – Aos seus ouvidos, a pergunta soou como advertência. – Como é possível ver, a idade ainda não me pesa sobre os ombros… Sinto-me jovem e saudável o suficiente para curtir os bons momentos que a vida ainda me oferece.

– Bons tempos os que ora são apenas registros na memória, quando curtíamos juntos os concorridos e apreciáveis bailes carnavalescos em clubes sociais. Sem excessos e sem violência de qualquer natureza.

– Memória! Apenas memória. Pena que você tenha, tão cedo, abdicado do direito à alegria…

– E nós nos conhecemos nesses ambientes festivos, vocês se lembram, amigos?

– Sim. Lembramo-nos sim.

– Fez-se, então, uma amizade tão especial que acabou me trazendo pra dentro da cozinha da casa de vocês.

– E pro coração, amiga. Pode crer: pra dentro do coração.

– Sinto-me tão bem aqui… vocês nem imaginam.

– Sua generosa e afável parceria, amiga, sempre é motivo de contentamento para nós. Não é, meu velho?

Depois que se descobriu portadora de males silenciosos que afetam o coração, ela renunciou a tudo que lhe pudesse trazer consequências indesejadas – o vinho do sábado gordo era uma das poucas exceções que se permitia, por entender ser inexpressivo o risco de isso lhe causar algum transtorno – a ela e ao marido que dela então obteve, sem cobranças e sem ciumeiras, embora sob o compromisso de manter a probidade, a pudicícia e a honradez, o “alvará de soltura” para a primeira noite de carnaval, privilégio de que vem usufruindo de forma, no entender exagerado da companheira de longa caminhada, a já se configurar uma “tradição” em seus relacionamentos conjugais.

Como nos anos anteriores, a chegada, no meio da tarde, do cunhado – irmão dela – e esposa, além de garantir o quarteto do carteado de sua benevolente consorte, era a chave que lhe abria as portas para um único dia de folia momesca, a ser muito bem aproveitado.

Garantindo retornar para o café da manhã do domingo, despediu-se de todos, abraçou e beijou a parceira, deu partida no Pálio Attractive cor de gelo e, vestido com camisa branca de gola em “V”, bermuda preta que vai até o joelho e tênis e meia soquete brancos, desapareceu na primeira curva da estrada, rumo à cidade grande. Os contatos com os parceiros de outras aventuras, integrantes do bloco não-oficial “Amigos para sempre”, revelaram uma inexplicável dispersão, todos atraídos por opções várias: sertão, serra, praia. Restou-lhe o bloco do “Eu sozinho”.

No trajeto, enquanto dirigia o carro com naturalidade, ao som suave de velhos e inesquecíveis sambas na voz do Noite Ilustrada, uma questão logo lhe povoou o pensamento. Por que a mulher perguntara se ele iria mesmo manter a tradição? Alguma desconfiança? Não havia de quê: nunca lhe dera razão para isso. Alguma preocupação? Com a sua declarada capacidade física para a diversão? Com a sua saúde? É provável. Afinal, há tempos assumira a postura de homem extremamente saudável, longe, bem longe esse negócio de consulta médica, exames de qualquer natureza, tratamento medicamentoso. Hipertensão? Jamé, Dana de Teffé! Colesterol? Rima com besteirol! Triglicerídeos? Que diabeisso?! Próstata? Protesto: nada de toque! Zona devidamente protegida contra qualquer tipo de invasão! Não me provoquem! Ora, ora! Nada disso e ponto final. [Nos dias de hoje, ricos em riscos de toda ordem, não passava de um comportamento nada recomendável para quem já houvera consumido algumas décadas de existência terreal]. Será que ela pressentira alguma tragédia? Tivera alguma premonição? Ó Deus, afastai de mim este cálice! Três pancadinhas de dedos dobrados, a mão fechada, no volante… faz de conta que é madeira… o que vale mesmo é a intenção. “Cuidado, amigo, pois a sensibilidade feminina se aproxima muito da mediunidade”, advertira-o, certa vez, um amigo de mesa de bar. O que fazer? Entendo. Certo. Dobro-me às circunstâncias. Faço, pois, um programa menos agitado, menos arriscado, menos intenso, mais saudável, mais light. Mudo o cardápio: nada de álcool, nada de tira-gosto à base de frituras. Deleto na memória a informação sobre haver no porta-malas do carro uma caixa média de isopor com latinhas de cerveja repousando entre cubos de gelo. Sou, agora sim, um folião cult.

A estreia na avenida dos sonhos de carnavalescos e brincantes se prenunciava tranquila, sob o manto do anonimato. Chegara cedo – o desfile, em ritmo dolente e compassado, das agremiações de maracatus, conforme previa a programação para aquela noite, só se iniciaria por volta das dezoito horas –, o que lhe permitiu a caminhada de observação, sem pressa e sem propósito específico, por todo o trajeto reservado ao natural fluxo das apresentações. Andou pelas calçadas de alguns bares do entorno, todas já recendendo os tons característicos da mais tradicional festa popular: animação sem refreios, fantasias simples – algumas parecendo inadequadas ao perfil do usuário –, cores variadas e em profusão, estimulantes com algum teor alcoólico, agrupamentos de gente despreocupadamente alegre, músicas propagadas em decibéis que vão além do agradável aos ouvidos. Apreciou, sem se deixar envolver, toda aquela mistura humana, de que já exalavam liberalidade, descompromisso e até uma certa irresponsabilidade. Num desses barezinhos de energia pulsante, comprou uma garrafinha de água mineral e voltou às arquibancadas armadas no canteiro central da larga e ora festiva avenida, onde algumas pessoas já se acomodavam. Escolheu um lugar que, ao primeiro olhar, mostrou-se-lhe ser o ideal para um estreante: na parte mais alta, junto ao guarda-corpo, no limite de um dos cruzamentos com semáforos. A tela do celular se acendeu e ele navegou por outros mares, distantes e antes inacessíveis.

De repente, algo lhe chamou a atenção. Levantou a cabeça e seus olhos captaram uma imagem que o deixou extasiado, sem reação, por alguns bons segundos.

Notas do autor:

¹ João do Rio é o pseudônimo do jornalista Paulo Barreto, ou melhor, João Paulo Alberto Coelho Barreto, “carioca até o mais íntimo do ser”, cuja tumultuada existência se finou em 1921, em fulminante ataque cardíaco.

² O crítico literário Ítalo Moriconi selecionou O bebê de tarlatana rosa para compor a antologia OS CEM MELHORES CONTOS BRASILEIROS DO SÉCULO – Rio de Janeiro: Objetiva, 2000; págs 28-33.

Francisco Luciano Gonçalves Moreira (Xykolu)

Graduado em Letras, ex-professor, servidor público federal aposentado.

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