MAIOR DO QUE O ÓDIO QUE NOS AMEAÇA NESSA TRAVESSIA PERIGOSA É O MEDO QUE O FUTURO INSPIRA.

Inscrevo o programa William Waac, da CNN, entre os de maior credibilidade política da televisão.

Na edição deste domingo, três entrevistados, sob a batuta de Waac, abordaram com suficiência e objetividade, aspectos significativos das pesquisas de opinião.

Esquerda, direita, “centrão”, partidos políticos pontilharam tematicamente tendências eleitorais e cálculos refinados com indagações e respostas que dão panos para manga aos melhores analistas e intérpretes desse tipo de bola de cristal algorítmica.

Um buraco lógico continuou, entretanto, aberto, após intervenções inteligentes e abundantes.

Como a economia, os reflexos da inflação e o desemprego, dentre outras motivações, poderão ajudar as esquerdas e embalar os projetos sociais do PT e suas caras coalizões?
A indagação parece ter convencido os entrevistados do programa e,até, o entrevistador Waac.

Ficou de fora, no entanto, um fator pouco considerado: o medo do pior prenunciado.

O discurso rouco e irascível de Lula revela uma enorme incapacidade para incorporar, apreender e tratar a repercussão da globalização da economia sobre os problemas internos que afligem os pobres e enchem de dúvidas e receios os ricos.

O encantamento sedutor de outros tempos, o operário que não se deixara, ainda, contaminar pela cumplicidade de agentes do Estado e de empresários e políticos, desapareceu sob um rasgo de cinismo que surpreende e assusta.

A fala da esquerda expõe uma certa ingenuidade romântica quanto analisa a crise interna, decorrente de tantos fatores e propõe soluções simplistas, escoradas em uma promessa de #vaidarcertocomopt…

Empresários, operários e até intelectuais ponderados, que os há, afortunadamente, capitalistas e proletários passaram a temer o futuro, pela descoberta das politicas que falharam nas promessas do passado.

O futuro cresceu como dúvida e dívida sobre as ilusões de outros tempos, acalentadas em três governos de esquerda; de dúvida e certeza dogmática fizeram-se medo de que voltassem a não dar certo.

Não que Bolsonaro e as suas plataformas sejam garantia bastante de sucesso em face dos desafios a enfrentar. O “centrão”, por sua vez, é uma mensagem neutra, genérica, que procura a todos agradar e iludir. Não há o que esperar, de fato, do que possa oferecer e cumprir, como diagnóstico e terapia.

O brasileiro pode, até, filiar-se à esquerda ou à direita, como manifestação ideológica fidelíssima. E exibir o rótulo identitário que lhe oferece segurança e lealdades em partidos do ramo. Mas este impulso não se transforma necessariamente em voto.

O eleitor brasileiro votava, antes, aliciado por convergências de manada ou por interesses fissimulados, para ver-se aceito pelos seus pares, os ativistas daqueles círculos de solidariedade a que sempre pretendeu pertencer.

Agora, vota por medo, movido pela insatisfação, pela raiva ou pelo ódio. Ou em nome de frustrações acumuladas como brasileiro — e eleitor.

A tudo o que se mencionou nos parágrafos anteriores, somem-se as pressões cruzadas exercidas por demandas sociais que fogem ao enquadramento ideológico congênito dos chamados movimentos sociais.

Questões de gênero, na escola ou na família, a legalização do aborto, questões que se impuseram recentemente, tal qual a explicação ambígua da adesão ou rejeição da Rússia em sua campanha de conquista no leste europeu, a unilíngua, o racialismo, a laicidade do Estado, e outras tonteirices ocupam ideólogos em disponibilidade, atentos à primeira convocação, porém não fixa uma adesão ideológica ou partidária.

Impõem-se neste quadro algumas perguntas que perduram, todavia, sem respostas.

Em que medida o elevado grau de desorganização institucional que caracteria a insegurança jurídica em que vivemos incomoda o eleitor e faz com que ele espere e exija manifestações claras sobre a crise constitucional na qual afunda a nossa frágil democracia?

O vazio institucional resultante infunde medo ao cidadão-eleitor ou é por ele simplesmente ignorado?

O que pensa o eleitor desse modelito republicano em processo de desmantelo pela constelação incontrolável de partidos sem votos, sem ideias e sem propósitos — mas capitalizados com o fundo eleitoral?

A única recomendação a ser levada a sério, por enquanto, na medida das nossas inquietações, será a de nos munirmos de razoável estoque de calma e prudência, nesta longa espera anunciada.

O Brasil nunca esteve tão próximo do encontro, sempre adiado, com as suas contradições. O ranço da sua cultura peninsular, a persistência das oligarquias e a fragilidade das suas instituições transparecem na vocação totalitária ancestral adormecida e agora acalentada pelo convencimento da revelação de velhas ideologias.

É pagar para ver como contornaremos os desafios remanescentes, negligenciando as suas causas, escondendo a poeira do passado nas ilusões do futuro.

Paulo Elpídio de Menezes Neto

Cientista político, exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará e participou da fundação da Faculdade de Ciências Sociais e Filosofia, em 1968, sendo o seu primeiro diretor. Foi pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação e reitor da UFC, no período de 1979/83. Exerceu os cargos de secretário da Educação Superior do Ministério da Educação, secretário da Educação do Estado do Ceará, secretário Nacional de Educação Básica e diretor do FNDE, do Ministério da Educação. Foi, por duas vezes, professor visitante da Universidade de Colônia, na Alemanha. É membro da Academia Brasileira de Educação. Tem vários livros publicados.

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