MADONANDO ÀS 4 DA TARDE

Quando os ricos vão para as festas, alguns de Porsche, podem matar “uber”, portar vidrinhos com cocaína e terem bebido uísque 18 anos. Que é que tem?

Quando os pobres vão para o show da Madona seguem de ônibus, alguns pegando bigu, outros de metrô, à pé. Que é que tem? Nada.

O problema é que o pobre é promíscuo, depravado, seria enforcado na Arábia Saudita ou na Coréia do Norte. Usam drogas baratas, enfeiam as passarelas com seus tamancos e tênis coloridos. E ainda ficam se beijando na boca: homem com mulher, mulher com mulher, homem com homem. Ah, isso não pode.

Enquanto os ricos podem ter amantes, apanhar travestis nas esquinas e transar com elas, ativamente e passivamente, que ninguém sabe. Só as pobres das travecas nas dores anônimas e nas intedições sociais é que sabem o que rola no submundo da família tradicional brasileira.

Quem for purista ou moralista ou anti(ista), por favor, tenha piedade da minha empatia com os seres desfavorecidos. Eu vim de lá, de um bairro operário, fui sardinha em ônibus lotados e ainda trago as cicatrizes e traumas do subúrbio, lugar onde perdi minhas lembranças para, em seu lugar, colocar as mentiras que me livravam de ser pobre. Viva a universidade que me salvou e os professores que me inspiraram. “Eu podia estar roubando, matando ou fumando tóxico”, mas estou aqui, exercitando minha memória em favor dos sem favores.

[Este, como outros textos do gênero, contém doses suaves de ironia. kkkkkkkkkk]

Carlos Gildemar Pontes

CARLOS GILDEMAR PONTES - Fortaleza–CE. Escritor. Professor de Literatura da Universidade Federal de Campina Grande – UFCG. Doutor e Mestre em Letras UERN. Graduado em Letras UFC. Membro da Academia Cajazeirense de Artes e Letras – ACAL. Foi traduzido para o espanhol e publicado em Cuba nas Revistas Bohemia e Antenas. Tem 26 livros publicados, dentre os quais Metafísica das partes, 1991 – Poesia; O olhar de Narciso. (Prêmio Ceará de Literatura), 1995 – Poesia; O silêncio, 1996. (Infantil); A miragem do espelho, 1998. (Prêmio Novos Autores Paraibanos) – Conto; Super Dicionário de Cearensês, 2000; Os gestos do amor, 2004 – Poesia (Indicado para o Prêmio Portugal Telecom, 2005); Seres ordinários: o anão e outros pobres diabos na literatura, 2014; Poesia na bagagem, 2018; Crítica da razão mestiça, 2021, dentre outros. Editor da Revista de Estudos Decoloniais da UFCG/CNPQ. Vencedor de Prêmios Literários nacionais. Contato: [email protected]