MACUNAÍMA, AS FORMIGAS E OS POLÍTICOS – PARTE UM!

​O que eles têm em comum? Vamos conhecer no artigo de hoje e no próximo!

Um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. A poética descrição do tropicalíssimo Jorge Ben Jor realça e sintetiza toda a exuberância das belezas naturais que adornam nosso País. Reafirma seu clima tropical e a miscigenação de cada brasileiro que habita essa imensa extensão geográfica, “do lado de cá do equador”.

Sua conformação geológica garante estabilidade às suas placas tectônicas, livrando-o de terremotos, tsunamis, tornados e outras catástrofes naturais, menos da calamidade política que se abateu sobre a Nação, e tem se agravado a cada dia, erodindo a democracia e o republicanismo, conquistados com luta, resistência, sangue, suor e lágrimas.

​A índole pacifista e a alegria de seu povo, combinados com a estonteante beleza e sensualidade de suas mulheres, fazem príncipes, reis e astros pops, da música, artistas do cinema internacional e gente do mundo inteiro se encantarem por essas terras, de verdes mares, nem tão bravios.

O mundo inteiro sabe que, por essas bandas dos trópicos, o sol é mais dourado, brilha todos os dias, o ano inteiro, tornando o seu céu ainda mais azul, dando-nos a certeza de que Deus é brasileiro.

Dia e noite, os ventos que embalam as palhas dos coqueiros à beira-mar, por suas longas extensões de praias e areias brancas, também balançam as redes, onde descansam os corpos extenuados, por longas jornadas de trabalho, da sua gente honesta, formada por pescadores, caboclos, mestiços, mamelucos, índios, negros, e daqueles que nos visitam, assim como sopram desalinhando os longos e negros cabelos, que adornam os rostos de suas lindas mulheres.

​Nem tudo, entretanto, é só beleza e encantamento. Todas essas características de riquezas e de tantas belezas não nos livraram daquela que também é havida como grande catástrofe natural, já que, ao extenso da história, é perpetrada pela ação das pessoas!

Isto a que nos referimos diz respeito à ação delituosa de vários dos seus homens públicos, que fazem da política um meio para a realização de negócios, quase sempre espúrios, com o objetivo de ganhar dinheiro e se locupletar, por intermédio de conchavos com o setor privado, utilizando-se dos mais inventivos meios e práticas de corrupção, como a engenharia montada para a compra de vacinas, por exemplo, na grande feira de escusos interesses, que se instalou no Ministério da Saúde, com a participação luxuosa de membros do Congresso Nacional, militares, burocratas e falsos pastores.

Para atingir seus objetivos, alguns desses “peraltas”, muitos deles albergados em um ajuntamento de partidos que atende pela alcunha de Centrão, mentem, trapaceiam, traem e descumprem acordos, firmados, inclusive, entre os comparsas – tudo em nome dos seus interesses e do que se conhece como governabilidade, ou de uma ação mal disfarçada de uma falsa oposição, menos dos interesses do País.

​Nesse balcão de negócios, vende-se e compra-se de tudo. De vacinas a entidades ‘reliosas’, a medidas provisórias para o setor automotivo, bancos e as grandes empresas da construção civil, até a aprovação de leis, isentando de impostos vários outros privilegiados setores da economia, que, historicamente, sempre mantiveram e ainda mantêm relações incestuosas, nem um pouco republicanas com os governos, não importando se de esquerda, direita ou ‘trans-ideológico’.

Nessa contextura, o que as nossas elites política e econômica, por tradição, menos fazem, é trabalhar pelo desenvolvimento do País, embora seja esse o discurso, midiatizado. Os vergonhosos níveis de pobreza e desigualdades sociais, resultantes do baixo nível de escolaridade, e de significativo percentual de analfabetismo que ainda ostentamos, são indicativos incontestáveis dessa histórica e doída realidade.

Quando o escritor Mário de Andrade, um dos precursores do Movimento Modernista no Brasil (1922), lançou o livro Macunaíma, (1928), um dos mais importantes romances na sua época, o fez em uma bem-sucedida construção e valorização da cultura nacional, especialmente para a literatura, o que ele não sabia, é que também estava a descrever na forma e conteúdo a elite política brasileira.

O público ledor sabe que, como gênero literário, Macunaíma faz um corte temporal, no estilo até então predominante entre todos os grandes escritores do período, e inaugura outro momento na literatura clássica brasileira, revelando toda a diversidade e riqueza multicultural do Brasil.

​Ao reunir as várias características da cultura do povo brasileiro, com suporte na linguagem, com seus vários jeitos de se expressar, seu rico e original vocabulário regional, suas lendas, o folclore e os mitos, constantes do imaginário coletivo, o romance lança nova perspectiva sobre tudo o que estava acontecendo naquele momento, na literatura, e nas artes em geral, e contribui, de modo substantivo, para formação da identidade cultural do País, com uma bem forjada síntese do caráter do povo brasileiro.

​O que talvez Mário Raul de Morais Andrade não tenha imaginado é que, passado um século da sua publicação – (1922/2021), o personagem Macunaíma viesse, tanto tempo depois (século XXI), consubstanciar de maneira tão própria e atual, de estilo, igualmente original, sobre o que são, como agem, como pensam e o que fazem os políticos brasileiros, em uma versão revisitada, dos vários macunaímas que povoam o universo macrocósmico da política e da economia.

​A identificação entre a essência da personagem Macunaíma com o modelo, os princípios e a prática política, desde sempre no Brasil, é de tal ordem de grandeza que nem é preciso o leitor ser muito atento e conhecedor da obra em profundidade, para logo perceber as distintas semelhanças, com a permissão do trocadilho.

“Macunaíma, herói de nossa gente, nasceu no fundo do mato virgem”. Nossos políticos, os banqueiros, diretores de estatais, e de grandes empresas da construção civil, e da indústria em geral, assim como um ex-famoso juiz, e alguns integrantes do MPF, componentes da famosa operação “Lava jato”, nasceram no fundo das matas da região Amazônica, na caatinga do Nordeste, no cerrado do Brasil Central, no baixo, médio e alto do Jequitinhonha, mineiro, dos pampas gaúchos e dos planaltos atlânticos e meridional da região Sudeste, dentre outras.

​A “índia tapanhumas” pariu Macunaíma, em meio ao “murmurejo” do “Uraricoera”; o Brasil, essa grande aldeia, descoberta por Cabral, quando por essas terras ancorou, e desembarcou, em (1500,) pariu um bando de políticos de espírito e índole “macunaímicos” (com todo respeito ao personagem), que mais parecem formigas do tipo saúvas vermelhas, aquelas cujas cabeças eram decepadas, por Macunaíma, seu entretimento, preferido na meninice.

Examinemos a semelhança entre o modo de agir dos nossos políticos e o trabalho realizado pelas formigas. A diferença está nos objetivos.

As formigas têm grande habilidade para trabalhar em equipe e realizar operações, as quais, se agissem sozinhas, seriam irrealizáveis. Nessa tarefa, os políticos também são imbatíveis. Quando cuidam de defender os próprios interesses, formam pequenos ou grandes grupos de pressão, a depender do tamanho da ação que pretendem executar. Olha o Centrão de novo aí, gente!

Eles votam e aprovam alterações na legislação que a eles beneficiam diretamente, como projetos de leis, medidas provisórias, instalação de CPIs, que muita vez funcionam, apenas, como instrumento de chantagem, dentro e fora do governo (não é o caso da CPI da covid), ou, principalmente, quando o que está em pauta é aprovar suas emendas parlamentares, ou, ainda, negociar com o setor privado o tamanho do “pixuleco”.
​Individualmente, como já observaram os biólogos, as formigas são escravas dos seus instintos e estímulos externos. Assim como as formigas, é factível observar, e isso já está comprovado, pelo Ministério Público, Polícia Federal e por nós jornalistas, que alguns políticos são escravos do seu instinto corrupto, que os faz agir sem qualquer escrúpulo e desprovidos de quaisquer vestígios de caráter. Os milhões de dólares são o estímulo externo de que precisam para suas práticas, nada republicanas.

Na reflexão da próxima semana, conheceremos um pouco mais sobre a função e a importância das formigas na natureza, e o comportamento macunaímico de uma parcela substantiva dos políticos em desfavor do País.

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Arnaldo Santos

Arnaldo Santos é jornalista, sociólogo, doutor em Ciencia Política, pela Universidade Nova de Lisboa. É pesquisador do Laboratório de Estudos da Pobreza – LEP/CAEN/UFC, e do Observatório do Federalismo Brasileiro. Como sociólogo e pesquisador da história política do Ceará, publicou vários livros na área de política, e de economia, dentre eles - Mudancismo e Social Democracia - Impeachment, Ascenção e Queda de um Presidente - sobre o ex-Presidente Collor, em 2010, pela Cia. do Livro. - Micro Crédito e Desenvolvimento Regional, - BNB – 60 Anos de Desenvolvimento - Esses dois últimos, em co-autoria com Francisco Goes. ​Arnaldo Santos é membro da Academia Cearense de Literatura e Jornalismo – ACLJ, e da Sociedade Internacional de História do século XVIII com sede em Lisboa.

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