LUCRO ACIMA DE TUDO

Após a tentativa frustrada de mobilização popular nos comícios de Brasília e São Paulo, no dia 07 de setembro, nos quais ameaçava com o açodamento político, ao atacar pela enésima vez o Supremo Tribunal Federal (STF), afirmando abertamente que não mais iria cumprir as decisões emanadas do ministro Alexandre de Moraes, dois dias depois, Bolsonaro, derrotado, enviou às pressas um avião da frota presidencial para buscar ajuda do golpista Michel Temer, no sentido de apagar mais um dos seus ensaios fracassados de ditador. A reunião que durou cerca de quatro horas no Palácio do Planalto, envolveu inclusive uma ligação telefônica ao referido ministro do STF. Dela resultou uma carta, redigida por Temer, e assinada por Bolsonaro, na qual ele admite se enquadrar,  comportando-se segundo os ditames das forças econômicas e políticas que lhe dão sustentação. Não se sabe até agora qual foi a contrapartida de Alexandre de Moraes para a celebração de tal acordo.

Nos itens 7 e 8 da Carta, ele afirma: “Reitero meu respeito pelas instituições da República, forças motoras que ajudam a governar o país. Democracia é isso: Executivo, Legislativo e Judiciário trabalhando juntos em favor do povo e todos respeitando a Constituição”. Portanto, eis a ordem do Mercado Financeiro e do Centrão expressa pelas mãos de Temer: ele tem de cumprir o script, sem maiores ambições aventureiras ditatoriais. Afinal, o golpe de 2016 é resultado de uma ampla articulação militar-político-jurídico-econômica e não de uma única força hegemônica.

Bem assinalou o áudio do banqueiro André Esteves, dono do Banco BTG Pactual, tornado público na última semana de outubro, ao destacar que Bolsonaro será o favorito do Mercado Financeiro às eleições presidenciais de 2022, se e somente se “permanecer calado”. A fala de Esteves torna-se mais um documento a desnudar a natureza fascista das finanças no Brasil, para as quais o que lhes importa é o Lucro, mesmo se para isso sejam necessários a fome de milhões de famílias, o desemprego em massa e o genocídio de mais de 600 mil brasileiros, resultantes da política bolsonarista. Como disse o cineasta Wagner Moura, “terrorismo são as mais de 600 mil mortes pelo descaso criminoso do governo Bolsonaro militarizado no enfrentamento da Covid-19”. É esse o governo preferido pelo Capital especulativo financeiro brasileiro.

Nessa esteira segue a atual política da Petrobrás. Hoje não se vê as mobilizações contra o aumento de preço daquela estatal, capitaneadas por MBL, Vem pra Rua, Nas Ruas e outros aparelhos de agitação social da direita contra o governo Dilma Rousseff, com ampla e orquestrada cobertura da Mídia Corporativa Oligopolista. Em abril de 2016 (época do aceite do impeachment) o litro da gasolina custava em torno de R$3,70 (três reais e setenta centavos) para um salário mínimo no valor de R$880,00 (oitocentos e oitenta reais). Esse preço do combustível foi objeto de ampla mobilização de rua liderada por aqueles aparelhos. Hoje o preço do litro da gasolina está custando no momento R$7,00 (sete reais), para um salário mínimo de R$1.100,00 (um mil e cem reais). Mas não se vê ninguém na rua a reclamar. Enquanto o salário mínimo foi ajustado, neste período, em apenas 25%, o preço do litro da gasolina aumentou 89,2%, até agora. Nos próximos dias está previsto um novo aumento dos preços dos combustíveis da Petrobrás. E Bolsonaro continua calado ou desviando o foco para culpar os governadores dos estados que não são os formuladores da política de preços da Petrobrás.

Portanto, o silêncio de Bolsonaro, da Rede Globo, do MBL com seus correlatos comprovam que os objetivos das mobilizações de rua em 2015 e 2016 não estavam lutando para a diminuição do preço da gasolina; pelo contrário, visavam à sua liberação. Objetivavam a transferência de renda do bolso dos consumidores para os cofres da estatal. É esta acumulação violenta que está a viabilizar a remessa neste ano de 2021 de R$63,4 bilhões (sessenta e três bilhões e quatrocentos milhões de reais) para os caixas-fortes dos acionistas milionários em detrimento do empobrecimento da população. O lema da Petrobrás bolsonarista é “Lucro acima de tudo. Acionistas acima de todos. O povo que se dane”.

E como não consegue permanecer calado, Bolsonaro foi neste final de semana a Roma participar da Cúpula do G-20 para conversar com os garçons, na antessala da recepção do evento.

Alexandre Aragão de Albuquerque

Mestre em Políticas Públicas e Sociedade (UECE). Especialista em Democracia Participativa e Movimentos Sociais (UFMG). Arte-educador (UFPE). Alfabetizador pelo Método Paulo Freire (CNBB). Pesquisador do Grupo Democracia e Globalização (UECE/CNPQ). Autor dos livros: Juventude, Educação e Participação Política (Paco Editorial); Para entender o tempo presente (Paco Editorial); Uma escola de comunhão na liberdade (Paco Editorial); Fraternidade e Comunhão: motores da construção de um novo paradigma humano (Editora Casa Leiria) .

Mais do autor

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.