LITERATURA MATA? – Duarte Dias

“Pois eu firmo e reafirmo de novo: literatura mata. Quando não, induz ao ato. Agora é o seguinte: quando digo isso falo da grande literatura, aquela capaz de alterar os rumos do universo, não dessas coisinhas chochas que tem por aí.” – sentencia o homem ao lado.

Não que eu estivesse prestando atenção ao que ele dizia; na verdade, sequer tinha percebido que tinha mais alguém por perto, tão absorto estava em saciar minha sede. Quase meio-dia, havia parado ali apenas para tomar uma água e pegar um pouco de sombra antes de seguir viagem pelas ruas quentes da cidade.

“Digo isso com toda a convicção e certeza. Veja só esse último caso, o do rapaz que sequestrou um ônibus e ameaçou por fogo em todo mundo. Os jornais disseram que tinha um livro do Bukowski no bolso dele, por sinal com um título muito apropriado: ‘O capitão saiu para o almoço e os marinheiros tomaram conta do navio’. Com um capitão desorientado e a nação à deriva do jeito que está, é natural que todos os loucos se sintam no direito de tentar impor suas próprias regras. Felizmente com esse aí não funcionou. Mas a literatura estava lá, a lhe ocupar o bolso e a cabeça.”

“Ah, pera aí… Como você pode afirmar uma coisa dessas? Por acaso você sabe alguma coisa da vida desse pobre rapaz? Já lhe ocorreu que ele pode ter sido mais uma vítima do que propriamente um algoz? Você sabe por acaso quais foram as motivações dele, suas necessidades, seus dramas, se ele ia mesmo consumar a promessa ou se aquilo só passava de uma forma de chamar a atenção? Aliás, você pelo menos já leu esse livro que foi encontrado com ele?” – pergunta um segundo homem, aparentemente o companheiro de conversa do meu vizinho na lanchonete.

Sem olhar para os lados, sigo tomando minha água.

“Não, esse livro aí eu não li não, mas conheço o Bukowski de muito tempo. Era um cara genial, mas um porra-louca total, daí o rapazinho lá, tudo bem, deve ter tido seus problemas na vida, mas a questão é que, ‘aparentemente’ – tá vendo como sou bonzinho?… -, pois é: ‘aparentemente’ ele levou a sério a doideira do alemão e cismou de tocar fogo em tudo, tal qual outros malucos que se deixaram levar por essa literatura de merda.”.

“Ih, tú tá se contradizendo, cara… Tá chamando essa literatura de merda, mas nesse instante disse que só a grande literatura é capaz de matar.” – disse o outro.

“Me contradizendo nada. É isso mesmo, só a grande literatura é capaz de matar. Agora, o fato de ser grande não impede que eu a chame de merda, correto? Posso chamar sim, ora. Direito meu. Veja só o cara que matou John Lennon, por exemplo! Foi preso enquanto lia a merda do ‘O Apanhador no Campo de Centeio’, que é um clássico daquele merda do Salinger, que só fez aquele livro na vida.”

“Não seja injusto, rapaz… O cara escreveu outras coisas…”

“Pode até ter escrito, mas foi aquela merda lá que pôs minhoca na cabeça do cara a ponto dele entrar numas de mandar bala no John.”

“Tú diz isso porque tá querendo justificar tua tese jogando a culpa em alguma outra coisa que não a loucura do atirador… Desse jeito que você fala até parece que basta o sujeito ler um livro diferente pra querer sair matando quem aparecer pela frente… Fosse assim o mundo seria um caos total, cara, pois só o que não falta é livro e gente desorientada por aí…”

“Mas é mais ou menos isso mesmo! Só que tem um detalhe: não necessariamente o cara que lê um livro desses desenvolve o desejo imediato de matar alguém. Aliás, às vezes o efeito é o contrário: a vontade que pinta é a do sujeito tirar a própria vida. E não vou longe não: veja só o caso daquele outro alemão, o Goethe, que escreveu aquele romance lá, ‘Os sofrimentos do jovem Werter’… O que teve de gente que tirou a própria vida por conta daquele livro não foi brincadeira!”

“Olha só o que você disse: ’Não vou longe não…’ O século XIX não é longe não, né? Cara, esse negócio do Goethe foi noutro tempo, é uma outra história! Agora pronto… Ainda bem que só tem nós dois aqui, porque se você fosse falar esse monte de besteiras na frente de outras pessoas é bem possível que tirassem o maior sarro de você.”

“Por favor, mais uma garrafinha d’água, por gentileza.”, peço ao atendente, satisfeito por aqueles dois não terem notado minha presença.

“Meu amigo, se tem uma coisa que não me incomoda é a opinião dos outros, sabia? Não quando eu tenho certeza absoluta do que estou dizendo. Se bem que a sua opinião eu até considero um pouco, mesmo sabendo que é uma opinião idiota.”

Os dois homens gargalham.

“Mas veja só, agora falando sério: tudo o que eu disse é a mais pura verdade. Observe só o caso da Bíblia. Por acaso existe algum outro livro na história da literatura que tenha causado mais mortes do que esse?”

“Ah, agora você tá indo longe demais… Vai falar da Bíblia agora, é?”

“E por que não? Não é o ‘livro’ dos livros? Ou ‘Bíblia’ não significa ‘Livro’?”

“Cara, a Bíblia é um livro sagrado! Dizer que esse livro é responsável pela morte das pessoas é no mínimo uma irresponsabilidade!”

“Bom, se é um livro sagrado ou não, aí já é questão de fé de cada um, mas isso não muda o fato de que esse livro tem sido o responsável pela maioria das guerras nos últimos quatro mil anos. Ou estou mentindo?”

“Quem fez e faz as guerras são os homens, cara, não a Bíblia.”

“Ora ora ora… Não se faça de ingênuo, meu amigo! Você sabe muito bem do que estou falando!…”

“Você está falando muita besteira, isso sim! Dizer que um livro sagrado é a causa de guerras e assassinatos é o mesmo que dizer que o amor é a causa do ódio!”

“E não é?! Quantos casos de amor não resultaram em crimes de ódio? Você já leu a “Ilíada”?! Não adianta querer esconder os fatos: a partir do momento em que você diz que um livro contém toda a verdade que há no mundo você está automaticamente condenando tudo aquilo que não está dentro dessa ‘verdade’. Isso sim, é um crime, talvez o maior dos crimes!”

“Melhor parar por aqui… Essa conversa já tá tomando um rumo que não tá legal! Você vem com esse seu papo otário de esculhambar todo mundo, de dizer que a culpa é da literatura e coisa e tal e aí acaba botando a Bíblia no meio disso tudo… Tá errado! A culpa não é dos livros porra nenhuma, cara, a culpa é de gente como você, cheia de teoria e preconceitos contra tudo e contra todos!”

“Veja lá como fala comigo, rapaz! Somos amigos, mas isso não lhe dá o direito de faltar com o respeito desse jeito!”

“Amigos o caralho! Eu lá tenho amigo safado, rapaz! Se enxergue, seu otário!”

“Otário é você, seu fuleragem!”

Os homens começam a se empurrar rispidamente em meio a palavrões até que o segundo, de repente, acerta um soco no primeiro. A pancadaria toma de conta e os dois, aos sopapos, caem sobre as mesas da lanchonete. O atendente e outros funcionários tentam intervir na confusão, que se alastra pelo ambiente.

Trato de ir até o caixa do estabelecimento pagar pela água consumida. Hora de ir embora.

Duarte Dias

Duarte Dias

Cineasta, roteirista, curador, fotógrafo, cantor e compositor, Duarte Dias foi premiado em vários festivais de música no Ceará, tendo lançado seu primeiro álbum, "Jardim do Invento" (https://goo.gl/Ha3mZh), em fevereiro de 2019. Com premiações em festivais de cinema no Brasil e no exterior, ocupa a cadeira de n° 36 da Academia Cearense de Cinema. Idealizador e diretor geral do FestFilmes - Festival do Audiovisual Luso Afro Brasileiro, atualmente desempenha as funções de programador e curador do cinema do Cineteatro São Luiz e de Coordenador de Política Audiovisual da Secretaria da Cultura do Estado do Ceará.

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